Triptych Bleu I, II, III

Antes de tudo.
Bem antes do que houve depois, nos encontramos naquela exposição do Miró. Ele estava lá com amigos e não nos aproximamos.
Dessa ocasião guardei o olhar plutoniano de quem caminha à beira do abismo, no limite perigoso de tudo. Entre a virtude e o vício.

Ele atravessou o salão com uma fixidez no olhar tão aguda que senti todo meu corpo doer. Um segundo depois ele era Édipo e era a Esfinge decifrando e devorando. As pessoas ao seu redor falavam sem cessar enquanto ele se ausentava para dentro do azul.

Um pouco mais tarde...

Primeiro houve aquele vernissage.
Os convidados espremidos uns contra os outros e os garçons e os objetos e quadros antes do salão principal. Por instantes nos vimos em lados opostos. Ele cercado por amigos e eu encurralado por arte contemporânea. Então nos perdemos.
Ainda me lembro do encontro dos nossos olhos e da fixidez do seu olhar antes de mergulhar num profundo silêncio.

Depois houve Miró. Nós três, lado a lado, nos observando imersos na imensidão azul. A exclamação vermelha, as reticências e um fio de promessa ascendente.
Saímos juntos e fomos beber algo que não nos matasse, mas quase.

Depois ele me ligou. Falamos sobre coisas das quais não me recordo.
Três dias depois, outro telefonema. Falamos sobre Miró.
Ele disse que precisava me ver.
Perguntei se ele poderia vir.
Ele preferia que fosse em outro lugar. Um café ou bar no centro. No fim da tarde. Que esperaria o tempo que fosse preciso. Que havia certa urgência. Que não me apressasse. Que fosse. Como se nada mais importasse.

Chovia uma chuva fina de fim de verão em março.

M.P.

26/03/2002  

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