Le Radeau de la Méduse, 1818-1819
Théodore Géricault


Somos sobreviventes.

Sobreviventes e, ao contrário do que pensa o senso comum, não há glória nisto, não há regozijo, não há mérito, não há bravura, não há heroísmo, não há respeito ou compaixão, não há orgulho, não há honra.

Um sobrevivente não é alguém que ande de cabeça erguida.
Um sobrevivente é um vulto, um indigente que rasteja sob o sol, sombra de si mesmo, pelos cantos da calçada. Um sobrevivente é o restolho do vaticínio do fracasso que malogrou. Um sobrevivente é o excremento que flutua ao fim do naufrágio. Um sobrevivente é alguém que vaga entre o que não foi, o que poderia ter sido e o que não será. Um sobrevivente é aquele que carrega os próprios cacos nos bolsos rotos e vê seus farelos caírem como fuligens de seus rastos. Não sabe de si. Não se reconhece. Não sabe de nada. Um sobrevivente somos nós todos os que seguimos sub-existindo.

Não há honra na sobrevivência, em ser a sobra da calamidade, aquilo que a desgraça não mastigou e engoliu, aquilo que o revés não aniquilou, o rejeito da miséria. Ser aquilo que o destino esqueceu de aniquilar na sua passagem irrefreável sobre nossas existências.

Não há orgulho na sobrevivência. Quem pode orgulhar-se de ser a sobra do desastre? O resto esmigalhado da consumição? O escombro irreparável, irrecuperável, a ruína preservada assinalando que aqui e ali a fatalidade passou e não deixou a possibilidade de futuro? Terra seca, mil vezes pisada e salgada.

Não há mérito na sobrevivência. Por que sobrevivemos? Por que nós? Não por nós mesmos, é certo. Não por um esforço consciente e elaborado, numa estratégia ̶ somos ignorantes demais quanto a nossa condição, nenhum de nós está pronto ou é preparado e quando nos damos conta, se nos damos conta, é tarde, já somos a borra. Mas, por acaso, sobrevivemos por simples acaso, por esquecimento do destino. Por uma insignificância essencial que nos fez invisível quando a mão da indesejada baixou, rente à nuca, a foice e levou os fortes, os bravos, colhendo o grão e deixando o joio daninho, sobrevivemos.

Não há heróis entre nós. Os heróis morreram para que sobrevivêssemos e não lhes somos gratos por isto, por herdarmos esta dívida, essa obrigação ao reconhecimento por terem nos tornado essa lástima, esse andrajo. Os heróis foram os que não escaparam, os eleitos para o holocausto sem sentido e inútil. Inútil porque nós, os sobreviventes, não sabemos o que fazer deles além de erigirmos ícones ocos e esquecê-los.

Entre nós, os sobreviventes, não há respeito ou compaixão. Não nos unificamos nessa sina, não nos compadecemos e não nos damos as mãos. Sabemos quem somos e a vergonha nos obriga ao recolhimento e ao silêncio sobre essa vergonha de termos escapado para o nada. Entulho no baldio. Lepra moral contagiosa que nos isola nos lazaretos individuais, minúsculos, mesquinhos, ínfimos de nossa ignomínia.

Somos sobreviventes. E não há Paz que nos abrigue.


Murilo Pagani



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