segunda-feira, 4 de dezembro de 2017



Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e tinha um temperamento ardente e impetuoso. Conta uma lenda que Xangô enviou-a em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e pelo nariz. Oiá, desobedecendo às instruções do esposo, experimentou esse preparado, tornando-se também capaz de cuspir fogo, para grande desgosto de Xangô, que desejava guardar só para si esse terrível poder.
Oiá foi, no entanto, a única das mulheres de Xangô que, ao final do seu reinado, seguiu-o na sua fuga para Tapa. E, quando Xangô recolheu-se para baixo da terra em Kossô, ela fez o mesmo em Irá.

Antes de se mulher de Xangô, Oiá tinha vivido com Ogum. A aparência do deus do ferro e dos ferreiros causou-lhe menos efeito que a elegância, o garbo e o brilho do deus do trovão. Ela fugiu com Xangô, e Ogum, enfurecido, resolveu enfrentar o seu rival; mas este último foi à procura de Olodumaré, o deus supremo, para lhe confessar que perdoasse a afronta. E explicou-lhe: "Você, Ogum, é mais velho do que Xangô! Se, como mais velho, deseja preservar sua dignidade aos olhos de Xangô e aos outros orixás, você não deve se aborrecer nem brigar; deve renunciar a Oiá sem recriminações". Mas Ogum não foi sensível a esse apelo, dirigido aos sentimentos de indulgência. Não se resignou tão calmamente assim, lançou-se à perseguição dos fugitivos e trocou golpes de varas mágicas com a mulher infiel. Que foi então, dividida em nove partes. Este números 9, ligado a Oiá, está na origem de seu nome Iansã e encontramos esta referência no ex-Daomé, onde o culto de Oiá é feito em Porto Novo sob o nome de Avesan, no bairro Akron ( Lokoro dos Iorubás) e sob o de Abesan, mais ao norte em Baningbê. Esses nomes teriam por origem a expressão Aborimesan ("com nove cabeça"), alusão aos supostos nove braços do delta do Níger.

Uma outra indicação da origem desse nome nos é dada pela lenda da criação da roupa de Egúngún por Oiá. Roupas sob as quais, em certas circunstâncias, os mortos de uma família voltam a terra a fim de saudar seus descentes. Oiá é o único orixá capaz de enfrentar e de dominar os Egúngún.
Oiá lamentava-se de não ter filhos. Esta triste situação era conseqüência da ignorância a respeito das suas proibições alimentares. Embora a carne de cabra lhe fosse recomenda, ela comia a de carneiro.
Oiá consultou um babalaô, que lhe revelou o seu erro, aconselhando-a a fazer oferendas, entre as quais deveria haver um tecido vermelho. Este pano, mais tarde, haveria de servir para confeccionar as vestimentas dos Egúngún. Tendo cumprido essa obrigação, Oiá tornou-se mãe de nove crianças, o que se exprime em iorubá pela frase: "Iyá omo mésàn”, origem de seu nome Iansã.

Quanto ao seu outro nome Oya, há uma lenda que faz alusão à sua origem explicando-a por um jogo de palavras. Nela se conta "como uma cidade chamada Ipô esta ameaçada de destruição, invadida pelos guerreiros tapás. Para preserva-la foi feita uma oferenda das roupas do rei dos ipôs. Esse traje era de tal beleza que as galinhas do lugar puseram-se a cacarejar de surpresa – razão pela qual, diz-se gravemente na lenda, as galinhas cacarejam até hoje, sempre estão em presença de qualquer coisa estranha. Esse prestigioso traje foi rasgado (ya) em dois para servir de almofada de apoio às cabaças de oferendas. Apareceu então, misteriosamente, uma água que se espalhou (ya), inundando os arredores da cidade e afogando os agressores tapas. Quando os habitantes de Ipô procuraram um nome para este rio que surgiu e se espalhou, ya, quando as roupas foram rasgadas, ya, decidiram chamá-lo Odò Oya.
Existe uma lenda, conhecida na África e no Brasil, que explica de que maneira os chifres de búfalo vieram a ser utilizados no ritual do culto de Oiá-Iansã:

"Ogum foi caçar na floresta. Colocando-se à espreita, percebeu um búfalo que vinha em sua direção. Preparava-se para mata-lo quando o animal, parando subitamente, retirou sua pele. Uma linda mulher apareceu diante de seus olhos. Era Oiá-Iansã. Ela escondeu a pele formigueiro e dirigiu-se ao mercado da cidade vizinha. Ogum apossou-se do despojo, escondendo-o no fundo de uma depósito de milho, ao lado de sua casa, indo, em seguida, ao mercado fazer a corte à mulher-búfalo. Ele chegou a pedi-la em casamento, mas Oiá recusou inicialmente. Entretanto, ela acabou aceitou, quando, de volta à floresta, não mais achou a sua pele. Oiá recomendou ao caçador não contar a ninguém que, na realidade, ela era um animal. Viveram bem durante alguns anos. Ela teve nove crianças, o que provocou o ciúme das outras esposas de Ogum. Estas, porém, conseguiram descobrir o segredo da aparição da nova mulher. Logo que o marido se ausentou, elas começaram a cantor: " Máa je, máa um, àwò re nbe nínú àká", Você Pode beber e comer (e exibir sua beleza), mas a sua pele está no deposito (você é um animal).
"Oiá compreendeu a alusão; encontrando a sua pele, vestiu-a e voltando à forma de búfalo, matou as mulheres ciumentas. Em seguida, deixaram os seus chifres com os filhos, dizendo-lhes: Em caso de necessidade, batam um contra o outro, e eu virei imediatamente em vosso socorro. É por essa razão que chifres de búfalos são sempre colocados nos locais consagrados a Oiá-Iansã".
Tivemos oportunidade de ouvir essa história na Bahia, narrada por Pai Cosme, um Velho pai-de-santo, hoje falecido. Ele pronunciava com perfeita correção a frase iorubá citada acima.
Os oríkì dirigidos a Iansã descrevem-na bastante bem:

"Oiá, mulher corajosa que, os acordar, empunhou um sabre".
Oiá, mulher de Xangô.
Oiá, cujo marido é vermelho.
Oiá, que embeleza seus pés com pó vermelho.
Oiá, que morre corajosamente com seu marido.Oiá, vento da morte.
Oiá, ventania que balança as folhas das árvores por toda parte.
Oiá, a única que pode segurar os chifres de um búfalo".

(in: Orixás de Pierre Fatumbi Verger)

Oriki de Oyà Yánsàn

Oyà A To Iwo Efòn Gbé
Oyà Olókò Àra
Obìnrin Ogun
Obìnrin Ode
Oya Òrírì Arójú Bá Oko Kú.
Iru Èniyàn Wo Ni Oyà Yí N Se, Se?
Ibi Oya Wà, Ló Gbiná
Obìnrin Wóò Bi Eni Fó Igbá
Oyà tí awon òtá rí
Tí Won Torí Rè Da Igbá Nù Sì Igbó
Héèpà Héè, Oya ò!
Erù Re Nikan Ni Mo Nbà O
Aféfé Ikú
Obìnrin Ogun, Ti Ná Ibon Rè Ní À Ki Kún
Oyà ò, Oyà Tótó Hun!
Oyà, A P'Agbá, P'Àwo Mó Ni Kíákíá,
Kíákíá, Wéré Wéré L' Oyà Nse Ti È
A Rìn Dengbere Bíi Fúlàní
O Titi Tí Nfi Gbogbo Ará Rìn Bí Esin
Héèpà, Oya Olómo Mesan, Ibá Re Ò!

Tradução

Ela é grande o bastante para carrega o chifre do búfalo
Oyà, que possui um marido poderoso
Mulher guerreira
Mulher caçadora
Oyà, a charmosa, que dispõe de coragem para morrer com seu marido.
Que tipo de pessoa é Oyà?
O local onde Oyà está, pega fogo
Mulher que se quebra ao meio como se fosse uma cabaça
Oyà foi vista por seus inimigos
E eles, assustados, fugiram atirando as bagagens no mato
Eeepa He! Oh, Oyà!
És a única pessoa que temo
Vendaval da Morte
A mulher guerreira que carrega sua arma de fogo
Oh, Oyà, à Oyà respeito e submissão!
Ela arruma suas coisas sem demora
Rapidamente Oyà faz suas coisas
Ela vagueia com elegância, como se fosse uma nômade fulani
Quando anda, sua vitalidade é como a do cavalo que trota
Eeepa Oya, que tem nove filhos, eu te saúdo!

sábado, 17 de junho de 2017



Triptych Bleu I, II, III

Antes de tudo.
Bem antes do que houve depois, nos encontramos naquela exposição do Miró. Ele estava lá com amigos e não nos aproximamos.
Dessa ocasião guardei o olhar plutoniano de quem caminha à beira do abismo, no limite perigoso de tudo. Entre a virtude e o vício.

Ele atravessou o salão com uma fixidez no olhar tão aguda que senti todo meu corpo doer. Um segundo depois ele era Édipo e era a Esfinge decifrando e devorando. As pessoas ao seu redor falavam sem cessar enquanto ele se ausentava para dentro do azul.

Um pouco mais tarde...

Primeiro houve aquele vernissage.
Os convidados espremidos uns contra os outros e os garçons e os objetos e quadros antes do salão principal. Por instantes nos vimos em lados opostos. Ele cercado por amigos e eu encurralado por arte contemporânea. Então nos perdemos.
Ainda me lembro do encontro dos nossos olhos e da fixidez do seu olhar antes de mergulhar num profundo silêncio.

Depois houve Miró. Nós três, lado a lado, nos observando imersos na imensidão azul. A exclamação vermelha, as reticências e um fio de promessa ascendente.
Saímos juntos e fomos beber algo que não nos matasse, mas quase.

Depois ele me ligou. Falamos sobre coisas das quais não me recordo.
Três dias depois, outro telefonema. Falamos sobre Miró.
Ele disse que precisava me ver.
Perguntei se ele poderia vir.
Ele preferia que fosse em outro lugar. Um café ou bar no centro. No fim da tarde. Que esperaria o tempo que fosse preciso. Que havia certa urgência. Que não me apressasse. Que fosse. Como se nada mais importasse.

Chovia uma chuva fina de fim de verão em março.

M.P.

26/03/2002  

domingo, 26 de março de 2017





Le Radeau de la Méduse, 1818-1819
Théodore Géricault


Somos sobreviventes.

Sobreviventes e, ao contrário do que pensa o senso comum, não há glória nisto, não há regozijo, não há mérito, não há bravura, não há heroísmo, não há respeito ou compaixão, não há orgulho, não há honra.

Um sobrevivente não é alguém que ande de cabeça erguida.
Um sobrevivente é um vulto, um indigente que rasteja sob o sol, sombra de si mesmo, pelos cantos da calçada. Um sobrevivente é o restolho do vaticínio do fracasso que malogrou. Um sobrevivente é o excremento que flutua ao fim do naufrágio. Um sobrevivente é alguém que vaga entre o que não foi, o que poderia ter sido e o que não será. Um sobrevivente é aquele que carrega os próprios cacos nos bolsos rotos e vê seus farelos caírem como fuligens de seus rastos. Não sabe de si. Não se reconhece. Não sabe de nada. Um sobrevivente somos nós todos os que seguimos sub-existindo.

Não há honra na sobrevivência, em ser a sobra da calamidade, aquilo que a desgraça não mastigou e engoliu, aquilo que o revés não aniquilou, o rejeito da miséria. Ser aquilo que o destino esqueceu de aniquilar na sua passagem irrefreável sobre nossas existências.

Não há orgulho na sobrevivência. Quem pode orgulhar-se de ser a sobra do desastre? O resto esmigalhado da consumição? O escombro irreparável, irrecuperável, a ruína preservada assinalando que aqui e ali a fatalidade passou e não deixou a possibilidade de futuro? Terra seca, mil vezes pisada e salgada.

Não há mérito na sobrevivência. Por que sobrevivemos? Por que nós? Não por nós mesmos, é certo. Não por um esforço consciente e elaborado, numa estratégia ̶ somos ignorantes demais quanto a nossa condição, nenhum de nós está pronto ou é preparado e quando nos damos conta, se nos damos conta, é tarde, já somos a borra. Mas, por acaso, sobrevivemos por simples acaso, por esquecimento do destino. Por uma insignificância essencial que nos fez invisível quando a mão da indesejada baixou, rente à nuca, a foice e levou os fortes, os bravos, colhendo o grão e deixando o joio daninho, sobrevivemos.

Não há heróis entre nós. Os heróis morreram para que sobrevivêssemos e não lhes somos gratos por isto, por herdarmos esta dívida, essa obrigação ao reconhecimento por terem nos tornado essa lástima, esse andrajo. Os heróis foram os que não escaparam, os eleitos para o holocausto sem sentido e inútil. Inútil porque nós, os sobreviventes, não sabemos o que fazer deles além de erigirmos ícones ocos e esquecê-los.

Entre nós, os sobreviventes, não há respeito ou compaixão. Não nos unificamos nessa sina, não nos compadecemos e não nos damos as mãos. Sabemos quem somos e a vergonha nos obriga ao recolhimento e ao silêncio sobre essa vergonha de termos escapado para o nada. Entulho no baldio. Lepra moral contagiosa que nos isola nos lazaretos individuais, minúsculos, mesquinhos, ínfimos de nossa ignomínia.

Somos sobreviventes. E não há Paz que nos abrigue.


Murilo Pagani



Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...