segunda-feira, 24 de outubro de 2016



O que é Deus.

Não foi provado,
mas dizem que é um fungo.
Cresce por baixo e sobe por dentro.
Ocupa abaixo e acima.

No cerne beira o espanto,
nas orlas pinta e borda.

MP


quinta-feira, 18 de agosto de 2016



Você pode falar perfeitamente o Yorùbá e saber todos os acentos ao escrevê-lo também, mas se você não sabe como falar com bondade e amor ao seu irmão ou irmã, então, você não aprendeu nada.
Você pode memorizar cada Oriki e cada ẹsẹ Odu do Corpus Literário de Ifá e saber como lançar uma adivinhação perfeita, mas se você não sabe como tratar as pessoas e como superar suas formas destrutivas e negativas, você ainda é um novato no reino espiritual.
Você pode conhecer cada dança e todas as músicas além de todos os protocolos de sua linhagem, mas se você não pode andar por um caminho de paz e de alegria interior… Isto então é apenas uma outra canção e uma outra dança.
Você pode conhecer todos os rituais, cerimônias, e como fazer milhares de obras e trabalhos espirituais, mas se você não pode viver o ritual da vida e viver as virtudes do òrìşà, Egun e seu Ori, então, você é um mero técnico, mas certamente não é um mestre espiritual.
Você pode ter alguns títulos, os mais impressionantes, um ile, templo ou casa de culto para dez mil pessoas, mas se você sentir a necessidade de degradar, controlar, manipular os outros ou ofendê-los enquanto eles estiverem em uma posição inferior, você será apenas mais um ego de criança impulsionando e tentando tirar proveito as custas dos outros.
Você pode estar no culto tradicional toda a sua vida, mas se você acha que isso te faz melhor ou mais avançado do que alguém espiritualmente, então, você é um tolo, pois você não poderá reconhecer que nosso Ori é o nosso primeiro professor... E ele tem ensinando a cada um desde o nascimento…
Você pode ser velho de anos e chamar a segurança social, mas se você ainda vive a vida como uma criança temperamental de 10 ou 15 você ainda terá que caminhar para chegar ao sacerdócio.

Fale-me de Èşù quando você for capaz de fazer escolhas capacitadas e falar a verdade em palavras e atos.
Fale-me de Ogun quando você for capaz de romper suas próprias ilusões, enfrentar seus medos, seus fracassos e corajosamente evoluir para manifestar o melhor de si.
Fale-me de Osun, quando você for capaz de criar harmonia, alegria e abundância em sua própria vida sem egoísmo.
Fale-me de Ợbàtálá, quando você for capaz de semear a paz mais pura e manter uma mente tranquila.
Fale-me de Òya, quando você for capaz de estar no olho do furacão da vida e fluir facilmente quando os ventos da mudança estiverem sobre você.
Fale-me de Olokun Yemojá ou quando você for capaz de equilibrar suas emoções e empatia com os outros.
Fale-me de Orunmila quando você for capaz de ver o mundo através do olho da sabedoria e equilibrar o julgamento com compaixão e não duras críticas e outras inadequações.
Fale-me de Şàngó, quando você puder transcender o seu ego e servir aos outros com compaixão.
Fale-me de Ìyàámi quando você for capaz de honrar as mulheres em sua vida e tratá-las bem e abraçar o lado feminino de sua própria alma.
Fale-me de Egbe Ợrùn / Ibeji quando você for capaz de conhecer e distribuir o amor universal.
Fale-me de Òșóòși quando você for capaz de repartir o alimento com o estrangeiro.
Fale-me Ǫbalúwayè quando você for capaz de identificar e cuidar das doenças do corpo e da alma de um semelhante.
Fale-me de Iwa Pele (caráter) quando você puder realmente tratar os outros como você gostaria de ser tratado, porque você percebe…

Não há separação entre você e eu…
Exceto o que está em nossas próprias mentes.

Fale-me de Ọlódùmarè quando você tiver a certeza que a Fonte existe e nos alimenta, que estamos interligados e que ninguém conseguirá cumprir seu destino sozinho.

Se você ainda não se considera capaz de aceitar este ensinamento, você deve retornar ao útero e tentar tudo novamente.?



Autor do texto: desconhecido.
Imagens: Caribé.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Olaf Blecker

- Quando você vai embora?
- Eu não quero ir embora!
- Não perguntei se você quer, perguntei quando?
- O que você diz? O que sabe disso? Não disse que vou.
- Sei que você vai.
- Por que você diz isso, assim?
- Porque sei.
- Desde quando? O que você pode saber?
- Desde sempre. Desde o início, quando vi você pela primeira vez, soube que partiria. Vi nos seus olhos.
- Eu amo você.
- Também sei disso. Eu também amo você. Mas também sei que esse amor não altera sua partida. Nem seu amor, nem meu amor, nem nosso amor por nosso amor.
- E o que eu faço? O que posso fazer?
- Partir.
- Não quero.
- Precisa.
- Por que preciso?
- Porque não pode ser de outro modo, para que você seja.
- E você?
- Eu já sou. 


Se tememos a morte, esse fim certeiro,
por ser o passo derradeiro rumo ao desconhecido,
por que o outro, o outro que amamos,
se amamos quando amamos, e é esse um mistério insondável,
esse outro oculto delicado e inalcançável não nos paralisa?
Que busca esta por lugares na alma do amado
que não nos são acessíveis,
passagens num labirinto que jamais serão percorridas,
que às vezes um som, uma fragrância vêm nos instigar,
aguçar nossos sentidos, alimentar nossos desejos?
Que cobiça? Que vertigem esta? Que fascínio há?

sábado, 26 de março de 2016

Murilo Pagani - Cai a Tarde, 2011

Tarde quente
céu de chumbo
passos na alameda.

Súbito silêncio
estanque a hora
susto o ar.

Mansa chuva fria
hálito morno da terra.


MP
23/03/2016.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016


ÀS VEZES UM DEUS SELVAGEM

Às vezes um deus selvagem se senta à mesa.
Ele é desajeitado e não conhece os modos
Da porcelana, do garfo e mostarda e prataria.
Sua voz faz vinagre do vinho.

Quando o deus selvagem chega à porta,
Você provavelmente o temerá.
Ele lembra a você algo escuro
Que você pode ter sonhado,
Ou o segredo que você não quer que seja partilhado.

Ele não tocará a campainha.
Em vez disso ele raspa com os dedos
Deixando sangue na tinta,
Embora prímulas cresçam
Em círculos aos seus pés.

Você não quer deixá-lo entrar.
Você está muito ocupado.
É muito cedo, ou tarde, e além disso…
Você não pode olhar diretamente para ele
Porque ele faz você querer chorar.

O cão late.
O deus selvagem sorri,
Estende sua mão.
O cão lambe suas feridas
E o conduz para dentro.

O deus selvagem fica na sua cozinha.
Hera cresce pelas prateleiras;
Visco ocupa as luminárias
E corruíras começaram a cantar
Uma velha canção no bico da sua chaleira.

Eu não tenho muito”, você diz
E lhe dá a sua pior comida.
Ele se senta à mesa, sangrando.
Ele tosse para fora raposas.
Há lontras em seus olhos.

Quando sua esposa chama,
Você fecha a porta e
Diz para ela que está tudo bem.
Você não quer que ela veja
O estranho hóspede à sua mesa.

O deus selvagem pede uísque
E você serve um copo a ele,
E então outro para você.
Três cobras estão se aninhando
Em sua laringe. Você tosse.

Ó, espaço sem limites.
Ó, mistério eterno.
Ó, ciclos infinitos de morte e nascimento.
Ó, milagre da vida.
Ó, a maravilhosa dança disso tudo.

Você tosse de novo,
Expectorando as cobras e
Fazendo descer o uísque,
Imaginando como você ficou tão velho
E aonde foi parar a sua paixão.

O deus selvagem pega uma bolsa
Feita de toupeira e pele de rouxinol.
Ele tira dela uma flauta dupla,
Ergue uma sobrancelha
E todos os pássaros começam a cantar.

A raposa salta para os seus olhos.
Lontras correm vindas da escuridão.
As cobras se derramam por seu corpo.
Seu cão uiva e no andar de cima
Sua esposa exulta e chora ao mesmo tempo.

O deus selvagem dança com seu cão.
Você dança com os pardais.
Um gamo branco puxa um banquinho
E brada hinos de encantamentos.
Um pelicano salta de cadeira a cadeira.

Ao longe, guerreiros brotam de suas tumbas.
Ouro antigo cresce como grama nos campos.
Todos sonham com as palavras de canções há muito esquecidas.
As colinas ecoam e as pedras cinzentas ressoam
Com risos e loucura e dor.

No meio da dança,
A casa decola do chão.
Nuvens ascendem pelas janelas;
Relâmpagos batem seus punhos na mesa.
A lua se debruça à janela.

O deus selvagem aponta para o seu flanco.
Você está sangrando em abundância.
Você está sangrando há muito tempo,
Talvez desde que você nasceu.
Há um urso na ferida.

Porque você me deixou para morrer?”
Pergunta o deus selvagem e você diz:
Eu estava ocupado sobrevivendo.
As lojas estavam todas fechadas;
Eu não sabia como. Sinto muito.”

Escute-os:

A raposa no seu pescoço e
As cobras em seus braços e
A corruíra e o pardal e o gamo…
As grandes bestas inomináveis
Em seu fígado e seus rins e seu coração…

Há uma sinfonia de uivos.
Uma cacofonia de dissensão.
O deus selvagem acena com a cabeça e
Você acorda no chão segurando uma faca,
Uma garrafa e um punhado de pelo negro.

Seu cão dorme sobre a mesa.
Sua esposa se agita, lá em cima.
Suas faces estão molhadas de lágrimas;
Sua boca está dolorida de risos ou gritos.
Um urso negro está sentado junto ao fogo.

Às vezes um deus selvagem se senta à mesa.
Ele é desajeitado e não conhece os modos
Da porcelana, do garfo e mostarda e prataria.
Sua voz faz vinagre do vinho
E traz os mortos à vida.

(Escrito por Tom Hirons, traduzido e postado por Ricardo Silva em Fevereiro de 2016 com permissão do autor

sábado, 20 de fevereiro de 2016


Esse filme fala, antes de tudo, de amor. Para ser mais exato: de amor próprio. A palavra BICHA vem sendo usada de forma errada, como xingamento. Quando, na verdade, deveríamos tomar como elogio.

"Ser bicha é correr o risco de ser agredido pela ignorância. Resistimos para nos proteger, resistimos para vencer."
"Ser bicha é ser livre."
"Não vamos deixar que nos vençam, Não mesmo!"

Criado, dirigido e editado por Marlon Parente.
Com Bruno Delgado, Igor Ferreira, Ítalo Amorim, João Pedro Simões, Orlando Dantas e Peu Carneiro. 

Todos os depoimentos contidos nesse filme são experiências vividas pelos próprios participantes.
Recife - PE

domingo, 10 de janeiro de 2016

Filippo Rizzi


Luz baça,
Friagem de junho,
Manhã de domingo,
Café coado no bule de ágate azul.

Meu avô à mesa do varandão.

MP

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...