Das coisas que só eu sei - e ninguém mais –
e sobre as quais dou fé e testemunho
por serem verdades inteiras.


I
Do perfume amargo das contas de madeira.
Guardadas numa caixa forrada com papel de florzinhas.
Separadas por tamanho e cor.


II
Do sabor rosa adocicado da cápsula de vitaminas.
O vidro ao alcance da criança.
A cápsula chupada até doçura virar amargor.


III
Da cortina malva, penumbra de sesta.
Mãos sob o virol bordado e o prazer malvado.
A carne túmida e macia, o gozo seco.


IV
Do frescor ‘old english lavender water’.
Sentado no fundo do armário de casacos, frincha de luz.
Vultos adultos, conversas veladas, saberes ilícitos.


V
De tardes achocolatadas pela fábrica de cigarros.
Brisa doce e morna das dezessete horas.
Reconfortante nos Invernos, asfixiante nos Verões.

VI
Do castanho úmido de pelos pubianos.
Tarde de outono, domingo na casa da avó.
O tio de short na volta da pelada, campinho de terra.


VII
Do giro regular da caixa de música dourada.
Maquinismo japonês. Melodia romântica.
Fryderyk Franciszek Chopin, Nocturne No 1 in B Flat Minor: Larghetto.


VIII
Da levedura nos dados de miolo de pão.
A avó à mesa posta no café da manhã, modelagem.
Enfileirados na janela. Secos e murchos.


IX
Do segredo atrás da cortina do chuveiro.
O tio adolescente estende a mão, creme perolado.
̶  Fiz pensando em você.


X
Do toque macio na casca da goiabeira.
Muda forte em quintal estreito.
O único fruto pendurado na ponta do galho, pro vizinho.

Murilo Pagani
outubro/2015







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