quarta-feira, 11 de novembro de 2015



Que rei sou eu? 
(Uma valsa facebookiana)

Marco Michelangelo

Um rei, um tolo, um gay, o Bozo, o Chacrinha ou o He-Man
Um João-bobo, uma Maria-vai-com-as-outras, um Zé-ninguém
O que sou hoje não quero mais ser
O que fui ontem, amanhã serei
Um puto, um santo, o Elvis, Silvio Santos, Ringo Star, Jorge ben
O estranho, ovelha negra do rebanho, Chapolin o X-man
Ideologias por quais eu passei
fizeram meu corpo uma jaula sem lei
Eu já fui tantos que hoje nem sei:
Príncipe, playboy, plebeu, deus e rei
Pop star de all star e calça xadrez
Roqueiro, hippie, brega, chique , beatnick, fora da lei
Católico, caubói, rebelde, gogo boy, um lorde inglês.

Tive no Orkut, oitocentos amigosd
mas eu nunca estava comigo
Triste e sozinho, me sentia assim
Como o Macaulay Culkin no "Esqueceram de mim" 

sábado, 31 de outubro de 2015



Das coisas que só eu sei - e ninguém mais –
e sobre as quais dou fé e testemunho
por serem verdades inteiras.


I
Do perfume amargo das contas de madeira.
Guardadas numa caixa forrada com papel de florzinhas.
Separadas por tamanho e cor.


II
Do sabor rosa adocicado da cápsula de vitaminas.
O vidro ao alcance da criança.
A cápsula chupada até doçura virar amargor.


III
Da cortina malva, penumbra de sesta.
Mãos sob o virol bordado e o prazer malvado.
A carne túmida e macia, o gozo seco.


IV
Do frescor ‘old english lavender water’.
Sentado no fundo do armário de casacos, frincha de luz.
Vultos adultos, conversas veladas, saberes ilícitos.


V
De tardes achocolatadas pela fábrica de cigarros.
Brisa doce e morna das dezessete horas.
Reconfortante nos Invernos, asfixiante nos Verões.

VI
Do castanho úmido de pelos pubianos.
Tarde de outono, domingo na casa da avó.
O tio de short na volta da pelada, campinho de terra.


VII
Do giro regular da caixa de música dourada.
Maquinismo japonês. Melodia romântica.
Fryderyk Franciszek Chopin, Nocturne No 1 in B Flat Minor: Larghetto.


VIII
Da levedura nos dados de miolo de pão.
A avó à mesa posta no café da manhã, modelagem.
Enfileirados na janela. Secos e murchos.


IX
Do segredo atrás da cortina do chuveiro.
O tio adolescente estende a mão, creme perolado.
̶  Fiz pensando em você.


X
Do toque macio na casca da goiabeira.
Muda forte em quintal estreito.
O único fruto pendurado na ponta do galho, pro vizinho.

Murilo Pagani
outubro/2015







quinta-feira, 30 de julho de 2015


Poder

a quem incomoda
um beijo
um carinho
uma foda?

é a palavra
a imagem
a mensagem
a lembrança do ato
o viril retrato
do pau que abre
caminho
o cheiro que exala
o gozo
a rola que rala
o duto
o cu do mundo
sem mapa
a dama que
se desnuda
a cona dada
sem drama
a penugem
que aveluda
a cercania do furo
o fotograma do
momento impuro
poluto ato
sem recato
e puto?

ou o desespero absoluto
de saber
que alguém fode
sem culpa?

que alguém pode
decidir sozinho
se chupa o pinto
se abre a boceta
se mete sem medo
se dá sem dono
se o dedo avança
se a língua explora
se fora ou dentro
se goza na coxa
se a roxa cabeça
do pau avança
se faz criança
ou é por trás
se cruza com moça
ou com rapaz
se quase morre
se falta o ar
se perde o sono
se some a fala
se resta o falo
se tira e bota
se nota o volume
se vê que escorre
o leite quente
se vai pra frente
que atrás vem gente
se chupa a bala
se sente o gosto
se engole a gala? 

será por ver
que alguém pode ter
e exercer
esse poder
de simplesmente
impunemente
divinamente
(quando quer e
quando é querer)
foderfoderfoder?

sem ter que levar
a cruz
sem ter que assinar
contrato
sem ter que passar
recibo
sem perder o fino
trato
sem deixar de ser
doutor
sem ter que jurar
amor?

a ninguém devo favor
nem senhor me dá licença
nenhuma crença me amarra
nenhuma farra me escapa
nenhum mapa me norteia
nenhuma ceia me farta
nenhuma carta me rege
nem me protege algum deus
meus gozos são todos meus

a quem enfim
incomoda
o meu desejo
a minha porra
a minha foda?


Alessandro Sbampato

quarta-feira, 10 de junho de 2015

"Passion Play", 2009 - Geoff Ault

Por Favor Meu Amo

Allen Ginsberg

Por favor meu amo deixa eu tocar teu rosto
por favor meu amo deixa eu me ajoelhar a teus pés
por favor meu amo deixa eu baixar tua calça azul
por favor meu amo deixa eu contemplar o teu ventre de dourados pelos
por favor meu amo deixa eu tirar tua cueca devagarzinho
por favor meu amo deixa eu desnudar tuas coxas para meus olhos
por favor meu amo deixa eu tirar minha roupa sob a tua cadeira
por favor meu amo deixa eu beijar teus tornozelos tua alma
por favor meu amo deixa eu colar meus lábios na tua coxa dura lisa musculosa
por favor meu amo deixa eu grudar o ouvido no teu estômago
por favor meu amo deixa eu abraçar tua bunda branca
por favor meu amo deixa eu lamber tua virilha de pelos louros e macios
por favor meu amo deixa eu tocar coma língua teu cu rosado
por favor meu amo deixa eu esfregar o rosto no teu saco,
por favor meu amo, por favor, olha nos meus olhos,
por favor meu amo me manda deitar no chão,
por favor meu amo manda eu lamber tua pica grossa
por favor meu amo põe tuas mãos ásperas no meu crânio careca cabeludo
por favor meu amo aperta a minha boca contra o coração do teu pau
por favor meu amo aperta o meu rosto contra o teu ventre, me puxa
lentamente com teus polegares fortes
até tua dureza muda chegar à minha garganta
até eu engolir & sentir o gosto do teu pau-tronco cheia de veias carne quente delicada por favor
Meu amo empurra meus ombros me olha bem nos olhos & me faz
debruçar sobre a mesa
por favor meu amo agarra minhas coxas e levanta minha bunda até a tua cintura
por favor meu amo tua mão áspera no meu pescoço palma da outra mão na minha bunda
por favor meu amo me levanta, meus pés apoiados em cadeiras, até meu cu sentir o hálito do teu cuspe e teu polegar girando
por favor meu amo manda eu dizer Por Favor Meu Amo Me Fode agora Por Favor
Meu amo lubrifica meu saco e bocapeluda com doces vaselinas
por favor meu amo unta teu caralho com cremes brancos
por favor meu amo encosta a ponta do teu pau nas pregas do buraco do meu eu
por favor meu amo enfia devagar, teus cotovelos envolvendo o meu peito
teus braços alisando o meu ventre, teus dedos tocam no meu pênis
por favor meu amo mete em mim um pouco, mais um pouco, mais um pouco
por favor meu amo enfia esse troço no meu cu bem fundo
& por favor meu amo meu faz rebolar para entrar a pica-tronco até o fim
até minhas nádegas aninharem tuas coxas, minhas costas arqueadas,
até eu ficar só solto no ar, tua espada enfiada latejando dentro de mim
por favor meu amo tira um pouco e lentamente esfrega em mim
por favor meu amo enterra fundo outra vez, e tira fora até a cabeça
por favor por favor meu amo me fode outra vez com o teu ser, me fode Por Favor
Meu amo enfia até machucar o meu macio o
Macio por favor meu amo faz amor com meu cu, dá corpo ao centro & me fode direitinho como uma garota
me abraça com carinho por favor meu amo eu me entrego a vós
& enterra no meu ventre o mesmo doce lenho quente
que dedilhaste em tua solidão em Denver ou no Brooklin ou fodeste uma donzela num estacionamento em Paris
por favor meu amo entra em mim com teu veículo, corpo de gotas de amor, suor de foda corpo de ternura, Me fode assim de quatro mais depressa
por favor meu amo me faz gemer sobre essa mesa
Gemer Ó meu amo por favor me fode assim
nesse teu ritmo de roça-enfia & tira-e-roça & enterra até o fim
até meu cu ficar mole cachorro sobre mesa ganindo de terror prazer de ser amado
Por favor meu amo me chama de cachorro, arrombando, me esculhamba
& fode mais violento, meus olhos escondidos por tuas mãos que agarram meu crânio
& enterra fundo com força brutal arrebentando a macieza úmida de peixe
& pulsa cinco segundos esguichando sêmen quente
& mais & mais, enfiando fundo enquanto eu grito o teu nome ah eu te amo
por favor meu Amo.


GINSBERG, Allen. A Queda da América. Tradução: Paulo Henriques Brito. Porto Alegre: L&PM, 1987. Coleção Olho da Rua, pg. 88-90.

domingo, 18 de janeiro de 2015

96 years old by Eskil Hesselroth

Céu límpido, Sol radiante.
A aragem move folhas e um sino eólico.
Há um suave aroma de sândalo  derramado no ar.
Ouço música indiana tradicional, sitar e tabla.

Sinto-me em Paz.
Sem euforias, ou comoções, sem ansiedades ou medos,
envolvido por esse sentimento de quietude.

Sinto-me, subitamente, com noventa e seis anos
e lamento não ter um vidro com cápsulas de Seconal.

sábado, 17 de janeiro de 2015


Poema Vertigem
  
Eu sou a viagem de ácido 
nos barcos da noite 
Eu sou o garoto que se masturba 
na montanha 
Eu sou o tecno pagão 
Eu sou o Reich, Ferenczi & Jung 
Eu sou o Eterno Retorno 
Eu sou o espaço cibernético 
Eu sou a floresta virgem 
das garotas convulsivas 
Eu sou o disco-voador tatuado 
Eu sou o garoto e a garota 
Casa Grande & Senzala 
Eu sou a orgia com o 
garoto loiro e sua namorada 
de vagina colorida 
(ele vestia a calcinha dela 
& dançava feito Shiva 
no meu corpo) 
Eu sou o nômade de Orgônio 
Eu sou a Ilha de Veludo 
Eu sou a Invenção de Orfeu 
Eu sou os olhos pescadores 
Eu sou o Tambor do Xamã 
(& o Xamã coberto 
de peles e andrógino) 
Eu sou o beijo de Urânio 
de Al Capone 
Eu sou uma metralhadora em 
estado de graça 
Eu sou a pomba-gira do Absoluto"

Ilha Comprida, 1991
Roberto Piva

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...