"The tea drinker" - Geoffrey Laurence, oil on canvas1994


Querido,
o corpo é só o corpo,
o invólucro
do que desejo.
Eu não me apaixono por corpos.
Apaixono-me por Mentes
e Almas.

Mas o corpo é o veículo, instrumento pelo qual a Alma se revela e o Intelecto se manifesta seja num arquear de sobrancelhas, no baixar de pálpebras, no fremir do lábio que ameaça o choro ou a gargalhada, na posição dos dedos da mão que repousa sobre a toalha da mesa, na inclinação da cabeça que recusa, na negligência do corpo atirado lânguido sobre si mesmo depois do sexo.

Já desejei e amei, eternamente, um olhar vago, um silêncio persuasivo, um jeito de tragar o cigarro, um ressonar profundo junto do meu rosto, um timbre de voz ao telefone, um cheiro de pele suada, um roçar de coxas, um virar de páginas durante a leitura,  um hálito, um pressentimento de presença confirmado pelo vulto que avança no hall da escada.

O que desejo e amo são os pequenos gestos inconscientes que deflagram  as Almas.
Os corpos são só os corpos, quaisquer corpos que vacilem na árdua tarefa de conter e deixem derramar as Almas.

MP


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