quinta-feira, 22 de maio de 2014

Sirium myrtifolium


singro
signos

sorvo
pântanos

sangro
sândalos

*
Carlos Moreira
A BELEZA DAS TULIPAS

Agora que a chuva cai
sobre a tarde quase morta
e alguns poemas de Kavafis
se tornam dilacerantes,
reparo na beleza das tulipas
inclinando-se.
Poderia fazer um desenho
mas se por vezes apetece
desistir.
Os versos do luto,
a minha adolescência
tão cheia de raparigas.

Poema de Isabel de Sá
Erosão de Sentimentos, Editorial Caminho, Lisboa, 1997.


UM CORPO QUE SE AMA

Para quem o deseja e quem o ama
um corpo é sempre belo no seu esplendor
e tudo nele é belo porque é sagrado
e, mesmo na mais plena posse, inviolável.

Um corpo que se ama é uma nascente viva
que de cada poro irrompe irreprimível
e toda a sua violência é a energia ardente
que gerou o universo e a fantasia dos deuses.

Tudo num corpo que se ama é adorável
na integridade viva de um mistério
na evidência assombrosa da beleza
que se nos oferece inteiramente nua.

Não há visão mais lúcida do que a do desejo
e só para ela a nudez é sagrada
como uma torrente vertiginosa ou uma oferenda solar.
Esse olhar vê-o inteiro na perfeição terrestre.

Antônio Ramos Rosa
In A Rosa Intacta (Edição Labirinto, 2007)


terça-feira, 20 de maio de 2014

Autoportrait Jean Cocteau

De um “nós” nada restou, nada.
Do que fomos juntos não sobrou absolutamente nada.
Nenhuma história. Nenhuma lembrança. Nenhum vestígio.

Prefiro esquecer todas as coisas boas que vivemos para que elas não me façam odiar tudo pelo o que de ruim passamos. 

MP

sexta-feira, 16 de maio de 2014



Enquanto você passeia seu olhar sobre os vestígios de mim
- esses rastros incoerentes, vacilantes, equivocados de mim,
aquilo que negligencio pela falta do que considero valor –
e sorri

Meu corpo é a aflição da sua ausência
latejando em minhas têmporas
pressionando minha garganta
aniquilando cada músculo
doendo em cada nervo
ardendo minha pele
41° C

Até você não olhar mais...

Murilo Pagani
Tomasz Zaczeniuk


nada aprender
nem ensinar:
seguir: e só

além de si
além do pôr
do sol e de

miras e miragens
nadas e paisagens:
ser só o que

passa: pássaro
sobre a página:
poema e banzo

de não ser daqui
nem de acolá:
sem lei sem rei sem lar

ser só em si
o rio que segue
para o mar



Carlos Moreira 

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...