domingo, 9 de novembro de 2014

Melancolía 


Porque a Beleza está na efemeridade,
na transitoriedade de todas as coisas, 
na impermanência da Vida.

MP

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Marc Chagall

Anoitece na Aldeia

Anoitece na aldeia 
e numa animação de fábula
as pessoas recolhem às casas.

Das chaminés, pelos telhados
o fumo já faz parte da noite.

O amarelo das janelas
pontilha o preto.

O vento perdeu-se no bosque
e as crianças, nos cobertores
usufruem do medo.

Pelas imediações da aldeia
os lobos aproximam-se da realidade.


Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in 'O Afastamento Está Ali Sentado'
imagem: Marc Chagall 


Despedida

Amanhece
e no espreguiçar dos olhos
absorvo a tontura do novo dia.

Ao sair do quarto
atravesso o branco sujo da manhã
e vou tomar café com muito açúcar.

Levo um pastel de Tentúgal para a varanda
e mastigo-o ouvindo as harpas da cidade.

E quando tu chegas de roupão
bebendo o teu cacau
explico-te o horizonte com barcos.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in 'O Valete do Sétimo Naipe'


Kevin Slack


Victima de las filias.
Victima de las fobias.
Amar es un instante.
Odiar una eternidad.


Ángel Esteban Álvarez de Sotomayor

quinta-feira, 30 de outubro de 2014



Com vinho, dizendo que é vinho, enche-me a taça,
Pois beber furtivamente não há quem me faça.
Pobre e maldito é o tempo em que sóbrio fico,
Mas quando trôpego pelo vinho torno-me rico.
Não escondas por temor o nome do bem-amado;
O prazer verdadeiro nunca deve ser ocultado.

Abu Nuwas (c.750-810)


Muitas vezes um belo rapaz de lábios rubros
me pergunta sorrindo: – qual a tua religião?
Eu lhe respondo: em teu amor eu encontro minha fé,
meu paraíso, meu Deus e minha eternidade.

Abu Ishaq Ibrahim Ibn Sahl al-Isra’ili al-Ishbili (1212-1251), ou Ibn Sahl de Sevilha


tradução: Paulo Azevedo Chaves
Gabriel Morcillo Raya


Nos banhos públicos


Nos banhos públicos, os mistérios ocultos pelas calças
São revelados.
Tudo se torna radiantemente claro.
Deleite os olhos!
Belas bundas, tóraxes perfeitos,
E ouvirás rapazes pios a se olhar e exclamar
"Deus é grande!”, “Louvado seja Deus!”
Ah, que palácios de deleites são os banhos públicos!
Ainda que os toalheiros, a entrar de vez em quando,
Um pouco estraguem o prazer.

NUWAS, Abu. Carousing with gazelles. Trad. Jaafar Abu Tarab. New York: iUniverse, 2005.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

"The tea drinker" - Geoffrey Laurence, oil on canvas1994


Querido,
o corpo é só o corpo,
o invólucro
do que desejo.
Eu não me apaixono por corpos.
Apaixono-me por Mentes
e Almas.

Mas o corpo é o veículo, instrumento pelo qual a Alma se revela e o Intelecto se manifesta seja num arquear de sobrancelhas, no baixar de pálpebras, no fremir do lábio que ameaça o choro ou a gargalhada, na posição dos dedos da mão que repousa sobre a toalha da mesa, na inclinação da cabeça que recusa, na negligência do corpo atirado lânguido sobre si mesmo depois do sexo.

Já desejei e amei, eternamente, um olhar vago, um silêncio persuasivo, um jeito de tragar o cigarro, um ressonar profundo junto do meu rosto, um timbre de voz ao telefone, um cheiro de pele suada, um roçar de coxas, um virar de páginas durante a leitura,  um hálito, um pressentimento de presença confirmado pelo vulto que avança no hall da escada.

O que desejo e amo são os pequenos gestos inconscientes que deflagram  as Almas.
Os corpos são só os corpos, quaisquer corpos que vacilem na árdua tarefa de conter e deixem derramar as Almas.

MP


domingo, 7 de setembro de 2014



Do inquieto oceano da multidão
veio a mim uma gota gentilmente
suspirando:

- Eu te amo, há longo tempo
fiz uma extensa caminhada apenas
para te olhar, tocar-te,
pois não podia morrer
sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.

- Agora nos encontramos e olhamos,
estamos salvos,
retorna em paz ao oceano, meu amor,
também sou parte do oceano, meu amor,
não estamos assim tão separados,
olha a imensa curvatura,
a coesão de tudo tão perfeito!
Quanto a mim e a ti,
separa-nos o mar irresistível
levando-nos algum tempo afastados,
embora não possa afastar-nos sempre:
não fiques impaciente - um breve espaço
e fica certo de que eu saúdo o ar,
a terra e o oceano,
todos os dias ao pôr do sol
por tua amada causa, meu amor.


Walt Whitman 
[1819-1892]

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

segunda-feira, 21 de julho de 2014



Para Ti 


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos

simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto

domingo, 20 de julho de 2014



Foi lá, pela metade do século XVI, que Thomas More escreveu Utopia.

Foi lá, naquele tempo agora remoto e quase esquecido, que Utopia deixou de ser um ideal a ser alcançado e passou a ser o local do inacessível, o depósito das justificativas para sermos o que somos. 

Foi lá, pela metade do século XVI, que a humanidade percebeu que estava fadada ao fracasso.

MP
Ricardo Bofill, La Muralla Roja, 1973, Calpe, Alicante, Spain

Dos acessos, extravios e disjunções
Que revelam, confundem e bloqueiam
Extensões infinitas de mim, em mim.

MP 


Só por hoje, sem arestas.

Luzes baças.
Penumbras mornas.
Sombras calmas.

Só por hoje, sfumato.

MP

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Encadernações



Os novos cadernos produzidos pela Bottega Pagani foram inspirados pelas ancestrais encadernações semíticas, pelos manuscritos coptas de Nag Hammadi e pelos manuscritos de Timbuktu.
Elaborados com atenção na estrutura e acabamento, os cadernos são exclusivos, confeccionados com papel e linha de algodão, capas em couro, utilizando outros elementos como madeira, osso, madrepérola e metal nos fechamentos e detalhes decorativos.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Aniva Lighthouse, Sakhalin, Sea of Okhotsk, Russia


As teorias sobre a Vida e o Amor são maravilhosas.
As pessoas são sensíveis, inteligentes, maduras, compreensíveis, amorosas e corajosas até verem-se cara a cara com a imensidão da Realidade.

Um farol só é farol à noite e, principalmente, sob tempestades. 

MP

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Sirium myrtifolium


singro
signos

sorvo
pântanos

sangro
sândalos

*
Carlos Moreira
A BELEZA DAS TULIPAS

Agora que a chuva cai
sobre a tarde quase morta
e alguns poemas de Kavafis
se tornam dilacerantes,
reparo na beleza das tulipas
inclinando-se.
Poderia fazer um desenho
mas se por vezes apetece
desistir.
Os versos do luto,
a minha adolescência
tão cheia de raparigas.

Poema de Isabel de Sá
Erosão de Sentimentos, Editorial Caminho, Lisboa, 1997.


UM CORPO QUE SE AMA

Para quem o deseja e quem o ama
um corpo é sempre belo no seu esplendor
e tudo nele é belo porque é sagrado
e, mesmo na mais plena posse, inviolável.

Um corpo que se ama é uma nascente viva
que de cada poro irrompe irreprimível
e toda a sua violência é a energia ardente
que gerou o universo e a fantasia dos deuses.

Tudo num corpo que se ama é adorável
na integridade viva de um mistério
na evidência assombrosa da beleza
que se nos oferece inteiramente nua.

Não há visão mais lúcida do que a do desejo
e só para ela a nudez é sagrada
como uma torrente vertiginosa ou uma oferenda solar.
Esse olhar vê-o inteiro na perfeição terrestre.

Antônio Ramos Rosa
In A Rosa Intacta (Edição Labirinto, 2007)


terça-feira, 20 de maio de 2014

Autoportrait Jean Cocteau

De um “nós” nada restou, nada.
Do que fomos juntos não sobrou absolutamente nada.
Nenhuma história. Nenhuma lembrança. Nenhum vestígio.

Prefiro esquecer todas as coisas boas que vivemos para que elas não me façam odiar tudo pelo o que de ruim passamos. 

MP

sexta-feira, 16 de maio de 2014



Enquanto você passeia seu olhar sobre os vestígios de mim
- esses rastros incoerentes, vacilantes, equivocados de mim,
aquilo que negligencio pela falta do que considero valor –
e sorri

Meu corpo é a aflição da sua ausência
latejando em minhas têmporas
pressionando minha garganta
aniquilando cada músculo
doendo em cada nervo
ardendo minha pele
41° C

Até você não olhar mais...

Murilo Pagani
Tomasz Zaczeniuk


nada aprender
nem ensinar:
seguir: e só

além de si
além do pôr
do sol e de

miras e miragens
nadas e paisagens:
ser só o que

passa: pássaro
sobre a página:
poema e banzo

de não ser daqui
nem de acolá:
sem lei sem rei sem lar

ser só em si
o rio que segue
para o mar



Carlos Moreira 

terça-feira, 29 de abril de 2014

O AMOR



Se chovesse (sempre) trezentos e sessenta e cinco dias por ano,
e as nuvens no céu se repetissem na cor,
na forma, na velocidade, e na lentidão;
e se o sol permanecesse robusto e alto, constante
como o último andar de um edifício (bem construído),
de calor assim assim mas repetindo assim assim
de calor da véspera;
se o mau e o bom tempo fossem uma linha única,
paralela aos dias; se o verão e o inverno
em vez de dois fossem um,
como uma pedra é um, e uma árvore é um,
se, enfim, quem amas permanecesse amado por ti,
hoje exactamente como ontem,
e daqui a trinta anos exactamente como hoje;
então não existiria o tempo,
e os relógios de pulso seriam pulseiras ruidosas,
mecânicas de mais para estarem tão próximas da mão
capaz de tocar com leveza.
E se não há tempo
.........................não podemos trair.

Gonçalo M. Tavares
em "1"

domingo, 30 de março de 2014

As 7 mortes de Pedro, o menino que coleciona crânios de vaca.



Juízo Final
Nelson Cavaquinho

O sol... há de brilhar mais uma vez
A luz... há de chegar aos corações
Do mal... será queimada a semente
O amor... será eterno novamente

É o Juízo Final,
a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver,
a maldade desaparecer.

domingo, 16 de março de 2014



Chega um tempo em que a Vida
- com seus paradoxos - esgota.
Chega um tempo em que a Vida
- com seus sobressaltos - cansa.
Chega um tempo em que a Vida
- com suas armadilhas - mutila.
Chega um tempo em que a Vida
- com suas artimanhas - estraga.
Chega um tempo em que a Vida
- com seus jogos - arruína.
Chega um tempo em que a Vida
- egoísta - deixa de ser para ti.

Então, esvazia as gavetas,
limpa os fundos de armários,
deita fora as inutilidades cotidianas,
desata as dores,
desfia as lembranças,
desembaraça as saudades,
desfaz as malas,
beija a face dos teus afetos,
abre portas e janelas,
liberta a esperança e
deixa tua casa, teu bairro,
tua cidade, teu país...

E volta.

terça-feira, 4 de março de 2014

“Parágrafo 175”






“Paragraph 175”
Produção e Direção: Rob Epstein e Jeffrey Friedman
Direção de pesquisa e Produtor Associado: Klaus Müller
Depoimentos de: Gad Beck, Pierre Seel, Heinz F., Annette Eick, Albrecht Becker, Heinz Dörmer.


Sobre o documentário “Paragraph 175”

O que a história tem a nos dizer?
O que aprendemos realmente com ela?
Por quais caminhos seguimos, depois de tudo, para esbarrarmos com as mesmas paisagens e perspectivas assustadoras, terríveis?
Será nosso destino a amnésia e suas trágicas consequências?

Essas pessoas estavam lá. É perceptível que nenhuma delas sabia exatamente o que estava acontecendo. Foram enredadas, tragadas pelos acontecimentos. Testemunhas do horror a que homens são capazes de submeter outros homens. Testemunhas da leviandade com que negamos as evidências, os sinais de que estão contra nós. E que podem nos destruir. Testemunhas de que mesmo a sobrevivência, depois de tudo, está gravada, para sempre, na carne, na alma e no espírito, com dor - mas apenas na carne, na alma e no espírito dos que sobrevivem (?).

Nós estamos aqui.
O que estamos fazendo efetivamente para impedir que a história se repita, que os mesmos acontecimentos passem sobre nossas vidas nos atropelando e aniquilando?

Murilo Pagani


'Painting in Fresco in the Sepulchres of Thebes'
In: “Travels to discover the source of the Nile, in the years 1768-1773" by James Bruce
Sou o poeta do corpo

Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma,
As aventuras do Céu estão em mim e as penas do Inferno estão em mim,
As primeiras enxerto e reforço em mim mesmo, as últimas traduzo para uma nova língua.

Sou o poeta da mulher e do homem.
E digo que é tão grande ser mulher como ser homem.
E digo que não há nada maior que a mãe dos homens.

Canto o canto do crescimento ou do orgulho,
Já baixamos bastante a cabeça, já imploramos,
Provo que a medida é apenas desenvolvimento.

Já excedeste o resto? És o Presidente?
É uma ninharia, eles excederão isso e muito mais.
Eu sou o que caminha entre a crescente e terna noite,
Convoco a terra e o mar meio abraçado pela noite.

Aperta-me, noite, no teu peito nu - aperta-me, noite magnética e abundante!
Noite silenciosa e sonolenta - louca e nua noite de Verão!

Sorri, oh voluptuosa terra fresca!
Terra das árvores adormecidas e cintilantes!
Terra do sol-posto - terra das montanhas cobertas de névoa!
Terra do fluir vítreo da lua cheia e azul!
Terra de luz e sombra derramadas sobre a maré do rio!
Terra de límpidas nuvens pálidas resplandecendo para mim!
Terra de braços arrebatados ao longe - rica terra de macieiras em flor!
Sorri, que aí vem o teu amante.

Pródiga, deste-me amor - e assim te dou amor!
Oh, indizível e apaixonado amor.


Walt Whitman

Portrait of an old man in the nude [Walt Whitman] by Thomas Eakins (1885)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A Palavra

"E aí... Eu gosto de livro.
Porque eu acho o livro um objeto...
Gosto de pegar, gosto de ter perto de mim, gosto que durma comigo.
Gosto de botar junto do meu travesseiro, às vezes boto aqui no meu colo...
Livro é bonito."


Maria Bethânia

É por Ti que Vivo

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'


Hotel de Dream, Edmund White

Veio para ler



Veio para ler. Estão abertos
dois, três livros: historiadores e poetas.
Mas, apenas leu dez minutos,
e deixou-os. No canapé
está meio adormecido. Pertence inteiramente aos livros -
mas tem vinte e três anos, e é muito bonito;
e, hoje à tarde, o amor passou
em sua carne ideal, em seus lábios.
Em sua carne, que é toda beleza,
o calor erótico passou;
sem pudor ridículo pela forma do deleite...

in: Poemas de K. Kaváfis.
Odysseus, 2006.


imagem: Antonio Canova. “Sleeping Endymion”. 1819
Fui


Nunca me contuve. Me di completamente y fui.
Me di a aquellos placeres que eran casi realidad
y estaban em mi mente;
me di a las vibrantes noches
y bebí um vino fuerte
como sólo los valientes beben del placer.

1905

In: Poemas Eróticos, Konstantinos Kaváfis
Trad.: Harold Alvarado Tenorio

Arquitrave Editores - 1982

imagem: Yannis Tsarouchis, 1957.

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...