Digo-lhe que é bom estar aqui, que é bom você ter vindo. Digo também que desejava muito revê-lo depois daquela festa.
Você diz que não sabe. Que teve medo. Que talvez não tivesse telefonado, talvez não tivesse vindo.
Digo que também tive medo e que é por causa das inúmeras encarnações. Que é ancestral esse medo e que é, também, o que nos coloca aqui, um diante do outro.
Você sorri, ri muito alto. Nervoso e aliviado. Não acredita nisso.
Rimos juntos. Estamos felizes, é visível.
Coloco minha mão sobre a sua sobre a mesa. Esqueço-a assim. Sobre o calor da sua.

O garçom chega, o pedido:
Um café. Apenas um café.
Um suco de abacaxi com hortelã.
Ele anota. Sai.

Olho você. Olho-o. Permaneço olhando-o em silêncio. Não me canso.
Você olha o movimento no café. Olha sem ver. Não vê meu olhar. Sabe.

Desenho você.
Meu ofício.
Seus cabelos em desalinho.
Sua pele clara, colorida pelo calor da tarde.
A angulação da mandíbula.
A boca farta.
O nariz levemente aquilino.
Seus olhos ambarinos sob a luz da tarde.

Você me vê olhando-o. Pede para não olhá-lo assim.
Assim como?
Assim... Com essa intensidade. É intimidador. Como uma devassa.
Digo que não é intencional. Que não posso evitar o desejo de vê-lo até a exaustão do olhar.

O garçom volta com o café e o suco. Ele sorri desculpando-se pela interrupção. Serve. Olha-nos alternadamente e depois minha mão sobre a sua. Ele sabe.
Não me movo.
Você também não se move.
Ele para de sorrir, parece encabulado. Sai.

Nós nos olhamos e rimos dele.

Você diz que esta é, também, a razão do medo.
As pessoas?
Não. Nós.
Nós?
Sim. Não temos limites. Será sempre assim. Sem limite. Impudente. Temerário. Assustador.
Digo que não pode ser diferente. Que é inevitável. Que é assim, sempre, ou não é. Que não posso fazer a escolha de viver com você o que quer que seja e que poderá ser nossa consumição se não for assim. Que vamos morrer dessa intensidade.
Você diz: Eu sei.

MP

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