segunda-feira, 30 de setembro de 2013



Nada pode ser feito. Nada.
Quanto ao fruto. De sua pele, de sua carne, de sua semente.
Nada pode ser feito quanto à salvação do fruto. Sua integridade.
O fruto estará inevitavelmente perdido quando a seiva que corre silenciosa no interior da árvore estiver envenenada da raiz ao gomo apical, seu rebento.


MP

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

“As Três Parcas”, Vieira Lusitano (1699-1783)


Enquanto isso...

As Moiras tecem, tecem, tecem...
Indiferentes, fiam.
No fundo da gruta, seus bordados brilham.
Átropos, a Velha, empunha, firme, a tesoura.

MP

domingo, 22 de setembro de 2013

João Bosco de Almeida, 150x235cm


O Mar sempre esteve em minha vida.
Sempre presente e sempre uma promessa.

Adivinho o Mar.
Adivinho o sabor.
Adivinho o mergulho.
Adivinho a temperatura.
Adivinho o prazer e o medo dessas águas.

Adivinho você acenando seu olhar,
seu sorriso a me ver,
enquanto adivinho você ir e vir,
como o Mar,
promessa.

MP.



É possível viver à margem.
Toda minha vida vivida assim.

Na possibilidade de.

MP
Digo-lhe que é bom estar aqui, que é bom você ter vindo. Digo também que desejava muito revê-lo depois daquela festa.
Você diz que não sabe. Que teve medo. Que talvez não tivesse telefonado, talvez não tivesse vindo.
Digo que também tive medo e que é por causa das inúmeras encarnações. Que é ancestral esse medo e que é, também, o que nos coloca aqui, um diante do outro.
Você sorri, ri muito alto. Nervoso e aliviado. Não acredita nisso.
Rimos juntos. Estamos felizes, é visível.
Coloco minha mão sobre a sua sobre a mesa. Esqueço-a assim. Sobre o calor da sua.

O garçom chega, o pedido:
Um café. Apenas um café.
Um suco de abacaxi com hortelã.
Ele anota. Sai.

Olho você. Olho-o. Permaneço olhando-o em silêncio. Não me canso.
Você olha o movimento no café. Olha sem ver. Não vê meu olhar. Sabe.

Desenho você.
Meu ofício.
Seus cabelos em desalinho.
Sua pele clara, colorida pelo calor da tarde.
A angulação da mandíbula.
A boca farta.
O nariz levemente aquilino.
Seus olhos ambarinos sob a luz da tarde.

Você me vê olhando-o. Pede para não olhá-lo assim.
Assim como?
Assim... Com essa intensidade. É intimidador. Como uma devassa.
Digo que não é intencional. Que não posso evitar o desejo de vê-lo até a exaustão do olhar.

O garçom volta com o café e o suco. Ele sorri desculpando-se pela interrupção. Serve. Olha-nos alternadamente e depois minha mão sobre a sua. Ele sabe.
Não me movo.
Você também não se move.
Ele para de sorrir, parece encabulado. Sai.

Nós nos olhamos e rimos dele.

Você diz que esta é, também, a razão do medo.
As pessoas?
Não. Nós.
Nós?
Sim. Não temos limites. Será sempre assim. Sem limite. Impudente. Temerário. Assustador.
Digo que não pode ser diferente. Que é inevitável. Que é assim, sempre, ou não é. Que não posso fazer a escolha de viver com você o que quer que seja e que poderá ser nossa consumição se não for assim. Que vamos morrer dessa intensidade.
Você diz: Eu sei.

MP
Enquanto espero por você neste lugar, tento não ser visível.

Observo o movimento desordenado das pessoas.
Elas não sabem que observo. Elas não sabem que você vem me ver. Elas não sabem que vou lhe ver. Elas não sabem que espero.
Ignoram tudo, sempre, as pessoas.

Espero. São quatro horas da tarde.
No mezanino, onde estou, vejo, vigio a porta. Você chega e passa pelas pessoas que circulam ao seu redor.
Desejo que nada se mova, para que você possa vir ao meu encontro sem dificuldades.
Tudo para. O mundo para. Você para, no lobby.

Observo você que não sabe que o observo. Ainda não.
Seu olhar varre o primeiro piso com cuidado. Faz isso uma segunda vez.
Subitamente não olha mais. Você deixa de ver, procurar. Você ergue seu olhar em minha direção. Sabendo.
Agora você sabe que observo e espero. Agora, sabe.

Você sorri.
Todo o dia estala sob essa luz que é seu sorriso. As pessoas desaparecem, esmagadas sob essa luz.
Eu devolvo o sorriso. Estamos salvos do mundo.
Estamos imersos onde  nada mais importa. Estamos juntos. Você e eu.

Seu olhar e seu sorriso vêm para mim, trazem você para mim.

MP

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...