Matthias Grünewald 
(1470-1528)

O ano talvez fosse 1968 ou 1969. O mês, março ou abril, não tenho certeza. Eu teria 7 ou 8 anos. Mas a semana era Santa, com certeza. O dia, sexta-feira. Manhã.

Naquela época as manhãs de outono em Belo Horizonte já eram frias e minhas lembranças desse dia têm esse tom cinza pálido próprio das fotografias em preto e branco antigas.  

Fui levado por meu pai, para a avenida que margeava meu quarteirão e era a principal do bairro onde morava, para assistir à malhação do Judas.  

Eu não sabia o que estava por vir. Longe de mim, àquela época, qualquer ideia do que fosse a malhação do Judas, muito menos conceitos como linchamento e suas implicações éticas; justiça com as próprias mãos; lei de talião e menos ainda o que fosse catarse. Toda compreensão é sempre pós-trauma, toda compreensão é o resultado da reflexão, algumas vezes dolorosa, sobre o que já foi. Muitas são as vidas vividas depois da vida para que se compreenda a vida vivida.

Lembro que saímos de casa e descemos a nossa rua até a avenida. As pessoas, muitas pessoas, também saíam de suas casas e tomavam um rumo específico. Seguíamos o fluxo, alimentado pela chegada de mais e mais pessoas.

Em determinado momento paramos. E foi aí e ali, naquele momento e lugar, que parte do que sou hoje nasceu, cresceu e hoje me define, me recorta como indivíduo.

Na clareira cercada pelas pessoas haviam erigido uma forca. Improvisada. Um poste de madeira com uma trave no topo. Não sei exatamente como aquela estrutura se sustentava no calçamento, não sei nada dessa engenharia primitiva. Isso não me interessa agora como não me interessou à época. Estava lá. O instrumento. Alto. No centro.   

As pessoas aguardavam, se juntavam e esfregavam as mãos, ansiosas, friorentas. Eu sentia a tensão. Sentia também que fazia parte daquilo, sentia que algo importante estava por acontecer e me orgulhava de participar, também sentia medo, instintivamente eu temia. Sentia a força, sentia que algo poderoso emanava daqueles homens, mulheres e crianças. Sentia que era perigoso, também.

Então, tudo começou. Houve um alvoroço numa extremidade à esquerda de onde eu estava com meu pai. Uma brecha, uma ruptura no círculo humano que se abriu. Por essa fenda passaram algumas pessoas sustentando um homem. Um homem de chapéu. Vestido com um terno roto, sapatos velhos, um mendigo, talvez o homem do saco. Ele não se sustentava sozinho, na verdade ele tropeçava sobre os próprios pés inertes seu corpo desconjuntado. As pessoas começaram a rir e gritar. Os homens que o sustentavam começaram a bater nele e a exibi-lo para as outras pessoas. Enquanto uns seguravam o sujeito, outros batiam. Batiam com as próprias mãos e depois com um pedaço de pau que alguém do meio da multidão ofereceu. Depois outras pessoas apareceram e se juntaram para o espancamento. Então ele caiu e foi chutado. Seu corpo inerte não reagia, ele não gritava, enquanto era agredido e jogado de um lado para o outro dentro do círculo formado pela turba. Ele rolava e era rolado aos pontapés.

Em mim o horror já estava instalado. Eu estava petrificado, paralisado pelo pânico. Não conseguia me mover. Como o homem, não conseguia reagir. Eu não compreendia aquilo, a violência. A ferocidade que dominava as pessoas, a bestialidade que as possuía e era direcionada para aquele homem fraco e indefeso fustigado por muitos e sem ninguém que viesse em seu socorro. Toda aquela explosão de violência, brutalidade e ódio que transformava aquelas pessoas em assassinos.

O corpo violentado foi finalmente erguido, uma corda passada em seu pescoço, a outra ponta atirada para o alto da forca e ele foi içado. Içado até o ponto mais alto. Pessoas batiam nele com pedaços de pau. Ele girava lá no alto. E foi assim que eu vi. Não era um homem. Não era de verdade. Era um simulacro.

Depois trouxeram um galão, cheio de madeira e papel, jogaram gasolina e atearam fogo. As chamas cresceram e começaram a lamber as pernas do simulacro.

Não sei como saímos dali. Não sei o que houve depois.

Muito mais tarde as coisas ganharam forma e sentido. Muito mais tarde a compreensão trouxe certo alívio à angústia. Muito mais tarde, me compadeci de Judas e seus simulacros. Muito mais tarde fez sentido o linchamento, a lei de talião. Muito mais tarde entendi a importância da catarse que encontra inúmeros canais de manifestação.

Ainda hoje guardo a lembrança e os sentimentos paradoxais de pertencer e ser excluído, de me orgulhar e temer, de me emocionar e terrificar. Ainda hoje me horroriza a violência, a brutalidade, a injustiça, a ilegalidade, a irracionalidade, a bestialidade, o descontrole, a truculência, o instinto sobrepujando a razão.


Ainda hoje não posso me ver cercado por gente.      

MP

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