domingo, 30 de junho de 2013

Cântico negro



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio
(1901-1969)

sábado, 22 de junho de 2013

Epifania aos 7

Henry Scott Tuke (1858-1929)

Não tinha completado ainda sete anos quando aquele sentimento mudou sua vida para sempre. Era manhã de domingo. O pai o levara a uma partida de futebol na várzea e, faceiro, o apresentara a cada companheiro do time. Ao final do jogo, os homens subiram para a carroceria coberta do caminhão improvisada em vestiário, e começaram a trocar de roupa, alegres, atléticos, repartindo o cheiro dos corpos, as risadas, as pernas, as vozes que ribombavam como trovoada no espaço pequeno, Embora esquecido na ponta de um banco de madeira, o menino sentia-se confortável.

De tempo em tempo o pai o alcançava com um olhar soberano, assegurando que tudo estava bem dentro do seu campo magnético. Então aconteceu. Foi surpreendido por aquele sentimento, que dava a impressão de que o peito se alargava  e alguma coisa, vaga como um segredo remoto, um cheiro de terra molhada, um sopro criador, o irmanava àqueles homens, aguçava seus sentidos  e fazia sentir como era bom estar entre eles. O corpo bambeou, ficou mole. Tão mole que escorregou para o assoalho da carroceria  e ali ficou: bicho acocorado, os olhinhos verdes tateando os vãos, as sinuosidades dos corpos elásticos, os pés cintilantes sobre a tralha esquecida pelo chão.

Quanto durou? Talvez segundos. Minutos. Até a face começar a arder, a cabeça estontear. Como nas vezes que ficava atrás da porta, respiração presa, ouvindo conversa de adultos, temendo ser descoberto. De repente já não se sentia mais protegido. Nem pelo olhar paterno  que agora lhe parecia solene, quase acusador, como se pudesse enxergar aquela luz em seu peito. Na volta,  o pai quis saber por que estava calado. Ele fingiu sono.  Como explicar o que ele não sabia?  Sentia, tinha certeza de que houvera um acontecimento.  E que trouxera do campo alguma coisa que o tornara diferente, mudara seu modo  de olhar. Não conseguia, no entanto, definir a coisa. De tantas pontas que tinha. Era macia, prazerosa e tão densa que podia apalpá-la nas pontas do seu corpo. Mas também suspeitava que fosse proibida e perigosa.

Foi sua primeira epifania. Eduardo _ esse é o nome do menino_ tem sido meu companheiro de estrada há quase 20 anos e já me contou essa história incontáveis vezes. Sempre a pedido. A última ocasião que lhe pedi foi na saída de uma sessão de cinema, após termos visto “Cashback”, comédia romântica na qual o diretor inglês Sean Ellis. Com humor tipicamente gay, fala de sua enorme paixão pelas mulheres. A narrativa é repleta de flashbacks. O mais impressionante deles conta quando Ben,  personagem principal, ainda menino, ali pelos sete anos, vê uma jovem sueca sair nua  do banheiro e caminhar tranquilamente até o quarto. Ele fica em êxtase. Foi a primeira epifania: descobriu que pelo resto da vida estaria apaixonado pela beleza do corpo feminino.

Quase todos os meninos  passam por esse momento mágico, seguido por certo desconforto, sabor grosso de culpa, como se tivessem adentrado num terreno inadvertido ou manipulassem inflamáveis.  A diferença é que  entre os heterossexuais os garotos descobrem cedo que devem se orgulhar disso: logo estarão contando aos outros meninos, falando do seu alumbramento com o primeiro sutiã, a primeira penugem antevista por um vão da porta.

Os gays, por sua vez,  tendem a  ocultar o momento da anunciação. E frequentemente o esquecem. Sabem detalhes de outras epifanias, como o primeiro toque, a primeira transa. Mas raramente lembram detalhes da primeira delas. Talvez seja por isso que me agrada tanto ouvir a história do Eduardo.

E você, leitor, lembra aquele momento inocente quando sentiu que sua vida nunca mais seria a mesma?

Roldão Arruda


Roldão Arruda é jornalista e escritor.
Autor de “Dias de Ira” e co-autor de “Soldados não Choram”.
Esse texto foi publicado, originalmente, na revista JÚNIOR nº 09


Matthias Grünewald 
(1470-1528)

O ano talvez fosse 1968 ou 1969. O mês, março ou abril, não tenho certeza. Eu teria 7 ou 8 anos. Mas a semana era Santa, com certeza. O dia, sexta-feira. Manhã.

Naquela época as manhãs de outono em Belo Horizonte já eram frias e minhas lembranças desse dia têm esse tom cinza pálido próprio das fotografias em preto e branco antigas.  

Fui levado por meu pai, para a avenida que margeava meu quarteirão e era a principal do bairro onde morava, para assistir à malhação do Judas.  

Eu não sabia o que estava por vir. Longe de mim, àquela época, qualquer ideia do que fosse a malhação do Judas, muito menos conceitos como linchamento e suas implicações éticas; justiça com as próprias mãos; lei de talião e menos ainda o que fosse catarse. Toda compreensão é sempre pós-trauma, toda compreensão é o resultado da reflexão, algumas vezes dolorosa, sobre o que já foi. Muitas são as vidas vividas depois da vida para que se compreenda a vida vivida.

Lembro que saímos de casa e descemos a nossa rua até a avenida. As pessoas, muitas pessoas, também saíam de suas casas e tomavam um rumo específico. Seguíamos o fluxo, alimentado pela chegada de mais e mais pessoas.

Em determinado momento paramos. E foi aí e ali, naquele momento e lugar, que parte do que sou hoje nasceu, cresceu e hoje me define, me recorta como indivíduo.

Na clareira cercada pelas pessoas haviam erigido uma forca. Improvisada. Um poste de madeira com uma trave no topo. Não sei exatamente como aquela estrutura se sustentava no calçamento, não sei nada dessa engenharia primitiva. Isso não me interessa agora como não me interessou à época. Estava lá. O instrumento. Alto. No centro.   

As pessoas aguardavam, se juntavam e esfregavam as mãos, ansiosas, friorentas. Eu sentia a tensão. Sentia também que fazia parte daquilo, sentia que algo importante estava por acontecer e me orgulhava de participar, também sentia medo, instintivamente eu temia. Sentia a força, sentia que algo poderoso emanava daqueles homens, mulheres e crianças. Sentia que era perigoso, também.

Então, tudo começou. Houve um alvoroço numa extremidade à esquerda de onde eu estava com meu pai. Uma brecha, uma ruptura no círculo humano que se abriu. Por essa fenda passaram algumas pessoas sustentando um homem. Um homem de chapéu. Vestido com um terno roto, sapatos velhos, um mendigo, talvez o homem do saco. Ele não se sustentava sozinho, na verdade ele tropeçava sobre os próprios pés inertes seu corpo desconjuntado. As pessoas começaram a rir e gritar. Os homens que o sustentavam começaram a bater nele e a exibi-lo para as outras pessoas. Enquanto uns seguravam o sujeito, outros batiam. Batiam com as próprias mãos e depois com um pedaço de pau que alguém do meio da multidão ofereceu. Depois outras pessoas apareceram e se juntaram para o espancamento. Então ele caiu e foi chutado. Seu corpo inerte não reagia, ele não gritava, enquanto era agredido e jogado de um lado para o outro dentro do círculo formado pela turba. Ele rolava e era rolado aos pontapés.

Em mim o horror já estava instalado. Eu estava petrificado, paralisado pelo pânico. Não conseguia me mover. Como o homem, não conseguia reagir. Eu não compreendia aquilo, a violência. A ferocidade que dominava as pessoas, a bestialidade que as possuía e era direcionada para aquele homem fraco e indefeso fustigado por muitos e sem ninguém que viesse em seu socorro. Toda aquela explosão de violência, brutalidade e ódio que transformava aquelas pessoas em assassinos.

O corpo violentado foi finalmente erguido, uma corda passada em seu pescoço, a outra ponta atirada para o alto da forca e ele foi içado. Içado até o ponto mais alto. Pessoas batiam nele com pedaços de pau. Ele girava lá no alto. E foi assim que eu vi. Não era um homem. Não era de verdade. Era um simulacro.

Depois trouxeram um galão, cheio de madeira e papel, jogaram gasolina e atearam fogo. As chamas cresceram e começaram a lamber as pernas do simulacro.

Não sei como saímos dali. Não sei o que houve depois.

Muito mais tarde as coisas ganharam forma e sentido. Muito mais tarde a compreensão trouxe certo alívio à angústia. Muito mais tarde, me compadeci de Judas e seus simulacros. Muito mais tarde fez sentido o linchamento, a lei de talião. Muito mais tarde entendi a importância da catarse que encontra inúmeros canais de manifestação.

Ainda hoje guardo a lembrança e os sentimentos paradoxais de pertencer e ser excluído, de me orgulhar e temer, de me emocionar e terrificar. Ainda hoje me horroriza a violência, a brutalidade, a injustiça, a ilegalidade, a irracionalidade, a bestialidade, o descontrole, a truculência, o instinto sobrepujando a razão.


Ainda hoje não posso me ver cercado por gente.      

MP

domingo, 9 de junho de 2013

O Poema do Semelhante



O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,

Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.

Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.

Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
É mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.

O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.

O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente

Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.

Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança

Elisa Lucinda

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...