SOLIDÃO FURIOSA

Será que tudo o que fazemos é pelo medo que temos da solidão? Será por isso que abrimos mão de todas as coisas das quais nos arrependemos no fim da vida? Será por isso que tão raramente dizemos o que pensamos?  Se não for por isso, por que é que insistimos em todos esses casamentos falidos, nas amizades hipócritas, nas tediosas festas de aniversário? O que aconteceria se rompêssemos com tudo isso, se acabássemos com a chantagem insidiosa e nos assumíssemos como somos? Se deixássemos irromper como uma fonte nossos desejos escravizados e a raiva pela escravidão? Pois em que consiste a solidão temida? No silêncio das admoestações que deixam de ser feitas? Na falta da necessidade de se esgueirar, sem respirar, pelo campo minado das mentiras conjugais e das meias verdades complacentes? Na liberdade de não termos ninguém à nossa frente durante as refeições? Na densidade do tempo que se abre quando emudece o tiroteio de convites e combinações com os outros? E tudo isso não serão coisas maravilhosas? Não seria um estado paradisíaco? Por que, então, o medo? Será que, no fim das contas, é um medo que apenas existe porque não refletimos sobre o seu objeto? Um medo que nos foi impingido, sem refletir, por pais, professores e padres? E por que estamos assim tão seguros de que os outros não nos invejariam se vissem como cresceu a nossa liberdade? E que logo tentariam procurar a  nossa companhia?

Amadeu Inácio de Almeida Prado, Um Ourives das Palavras! Lisboa 1975.
In: Trem Noturno para Lisboa, Pascal Mercier.

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