Cerberus 

Gustave Doré


Eu sou um homem bom.
Não essencialmente, não. Mas por uma ideologia pessoal.

Sou um homem bom e, sem vaidade, mas com orgulho, afirmo isso porque é a verdade e, a mim, custa caro ser bom. Porque ser bom exige de mim um esforço sobre-humano ao qual me dedico vinte e quatro horas por dia, todos os dias da semana, todas as semanas do ano, todos os anos, por anos a fio.

Sou um homem bom porque civilizado, adestrado e em adestramento na complexa arte da convivência em sociedade, porque sou frágil, vulnerável, impotente, incapaz para isolar-me e sobreviver sobre o planeta, porque me submeto às regras e aos limites aceitáveis que me são impostos.

Sou um homem bom porque esforço-me para isso no exercício da compreensão, da compaixão, da observância do meu lugar no tempo e espaço tendo em perspectiva o respeito ao próximo mesmo aquele diametralmente diferente de mim, no exercício  da paciência, da dignidade que todos merecemos.

Sou um homem bom porque aprendi éticas e as cumpro.  

Sou um homem bom porque mantenho sob vigilância, jugo, correntes, encarcerado e incomunicável o animal, a besta que sou em essência. E isso custa. Sei quanto, sei como. Custa a mim e a ninguém mais.

É por serem ignorantes quanto ao perigo que as gentes ultrapassam os limites do aceitável. Tomam por estúpido o compreensivo, por iludível o compassivo, por idiota o paciente, por lasso o respeitoso, por espúrio o digno. É por serem ignorantes quanto ao perigo que as gentes acreditam que tudo poderá e deverá ser suportado por mim, colocando em xeque a resistência das cadeias que as protegem de mim.

É por serem ignorantes quanto ao perigo que as gentes são poupadas, num zelo férreo exercido por mim, de mim.

Que não vejam Cerberus livre. 

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