sábado, 4 de maio de 2013


Cerberus 

Gustave Doré


Eu sou um homem bom.
Não essencialmente, não. Mas por uma ideologia pessoal.

Sou um homem bom e, sem vaidade, mas com orgulho, afirmo isso porque é a verdade e, a mim, custa caro ser bom. Porque ser bom exige de mim um esforço sobre-humano ao qual me dedico vinte e quatro horas por dia, todos os dias da semana, todas as semanas do ano, todos os anos, por anos a fio.

Sou um homem bom porque civilizado, adestrado e em adestramento na complexa arte da convivência em sociedade, porque sou frágil, vulnerável, impotente, incapaz para isolar-me e sobreviver sobre o planeta, porque me submeto às regras e aos limites aceitáveis que me são impostos.

Sou um homem bom porque esforço-me para isso no exercício da compreensão, da compaixão, da observância do meu lugar no tempo e espaço tendo em perspectiva o respeito ao próximo mesmo aquele diametralmente diferente de mim, no exercício  da paciência, da dignidade que todos merecemos.

Sou um homem bom porque aprendi éticas e as cumpro.  

Sou um homem bom porque mantenho sob vigilância, jugo, correntes, encarcerado e incomunicável o animal, a besta que sou em essência. E isso custa. Sei quanto, sei como. Custa a mim e a ninguém mais.

É por serem ignorantes quanto ao perigo que as gentes ultrapassam os limites do aceitável. Tomam por estúpido o compreensivo, por iludível o compassivo, por idiota o paciente, por lasso o respeitoso, por espúrio o digno. É por serem ignorantes quanto ao perigo que as gentes acreditam que tudo poderá e deverá ser suportado por mim, colocando em xeque a resistência das cadeias que as protegem de mim.

É por serem ignorantes quanto ao perigo que as gentes são poupadas, num zelo férreo exercido por mim, de mim.

Que não vejam Cerberus livre. 

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