David Colin Onze

ALLIQÂ’

o couro da pele é manto de lã por sobre
o volume de carnes de camela farta
as mãos potentes patas de cordeiro em dia de abate
o hálito bafo de bezerro mamão cheira a grama ainda quando
aparenta galgar montes de cascalho o portentoso jumento montês

eis meu amado do deserto amado de gerações de sóis e ventos
que me chega à noite aos vãos de minha tenda – algo mais sólida
paredes de concreto sacada por sobre a avenida trafegada de motores
mas não por isso menos tenda –
chega-me os pés empoeirados barba grossa do óleo das máquinas
(seus dedos folheiam páginas azeitadas pelo sebo do conhecimento)
sob as unhas a fuligem do dia unhas cortadas faca cega

eis como vem o amado de minha alma cruzando desertos de mar
tocando a caravana de especiarias (seus alunos na Cátedra)
        dedo em riste localizando o fluxo dos anos dos homens
        dos fatos dos hiatos cíclicos
meu homem amado me envolve o torso me lambe o pescoço me enrijece
o talo com o fermento de suores

uma fumaça tênue na meia-luz se esparge
maçãs, tulipa, alecrim

e

sobre o tapiz de cores geométricas
libamos amor às fartas; Mônica Salmaso e Eric Satie assistem


Michel Sleiman
in: Ínula Niúla


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