MARIA

1.
Eu gosto é de dar. Dar amor, dar a buceta. É dando que se recebe. Mas nem sou capitalista, dou por altruísmo, dou como a Geni. Sou bonita, sou inteligente e não sei por que haveria de guardar meu corpo contra os homens: La dolce vita está em meus lábios, os de cima e os de baixo. Não sou mulher-objeto. Objeto é uma coisa morta, um corpo morto que se guarda para a castidade, para a religião, para o casamento, para os olhares de aprovação de velhos valores. Não sou mulher-objeto, pois sou muito viva, meu corpo pulsa e vibra.

2.
Cresci sob o ensino do sagrado. Minha mãe me arrastava às missas. Mas geniosa, fui ler mais que minha mãe e estudei as palavras. Aprendi que sagrado, sacro, sacralizar, é oferecer-se em sacrifício e isto me pareceu totalmente cruel. O deus da Bíblia era cruel. Minha mãe, desde aí, não me reconheceu mais.
Ouvi as tias aconselhando as primas sobre ser moça certa. Aprendi que o corpo de menina-moça era tabu. Era sagrado e tabu. E me parecia que as pessoas viviam tristes com isso, mas elas não sabiam.

3.
Na escola não pegava os livros que a professora indicava. Fui salva por um escritor com a sentença “Somente as coisas sagradas devem ser tocadas”. Este escritor que me retirou das profundezas da minha terra & família com seu De Profundis foi condenado à prisão por ato imoral. Eu também estava condenada, mas a ser livre.

4.
Doce fonte no jardim amanhecido
Onde estão os teus pássaros
Que bicam as tuas águas
Em amor, fome e libido?

(...)

Na manhã escolhida
Os pássaros, delicados e brancos
Em doce pranto de alegria desconhecida
Beberam de meus jorros
Despertaram-me a vida

5.
Como mulher estava dessacralizada, estava naturalizada, corporificada na natureza como gaivota que voa e sente fome.

6.
Já não havia mais homens para mim naquela cidade. Comi todos (mas eles diziam me comer). E de todos os paus que bebi nenhum vertia amor de suas entranhas: aqueles homens separavam sexo de amor. Já eu, amei em cada um o instante de nossos corpos.
Houve até um que me queria amor, com flores e galanteio, mas me dizia, sou seu dono, te pertenço. Aqueles homens me queriam  menor, queriam me completar, queriam  me comer, me pertencer. Apenas que: sou mulher despertencida.

7.
A pequena cidade, com suas cadeiras na calçada, suas conversas de portão e sua preguiça, vivia em burburinho.
- Vê o que andam falando? Você é pornográfica, Maria!
- Pai, eles não sabem o que falam. Pornográfico é não amar.
- Quero que saia desta casa!
Mãe baixou os olhos.

8.
Como anjo exilado fui levar minha luz a São Paulo. Completamente desconhecida. Sem olhos tortos, sem cochichos, estava solitária e feliz na multidão de Sampa.
À noite, já saí pra caçar aquele que receberia a mais bela novidade da cidade. Aquele que possuiria de meus êxtases, de meu intenso amor, de minha cruel piedade pelos homens.
No charmoso bar o jazz soa triste e provocante junto aos meus lábios vermelhos de musa impassível sozinha com seu drinque. Ele, com amigos e seu sapato italiano. Como fera dominadora e mentindo a todos a origem interiorana fui até a mesa e ofereci companhia. Espantados mas logo encantados com beleza & ousadia.
Fim da noite:
- Você quer?
- Eu quero – sou exata (não que eu descartasse ser a rainha de todos os homens aquela noite).

9.
O pescador que ante o cardume
Se vê entontecido pela pérola
De minha ostra aberta, reluzente:
- Nademos em nossas águas confluentes
Bebas do meu perfume
E esperes o teu doce deleite
Até que minha pérola no fundo do mar
Enfim se deite

10.
Um dia conheci José. Para minha surpresa José era do interior como eu. Foi para a capital com o mesmo desejo: conhecer Outros. E foi assim no desejo de conhecer o que havia de outros de nós em outro lugar foi que um e outro do mesmo lugar num lugar diferente descobrimos o amor, bregamente o mais profundo e prosaico amor. Estava completa a minha busca.

11.
Mesmo com o amor na terra e a paz sob as águas que eu vivia com José os frutos pela terra já não eram mais proibidos: poderia se comer de cada tipo, um por dia. Ricardo ate me chamava de Lilith.

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