segunda-feira, 27 de agosto de 2012


MARIA

1.
Eu gosto é de dar. Dar amor, dar a buceta. É dando que se recebe. Mas nem sou capitalista, dou por altruísmo, dou como a Geni. Sou bonita, sou inteligente e não sei por que haveria de guardar meu corpo contra os homens: La dolce vita está em meus lábios, os de cima e os de baixo. Não sou mulher-objeto. Objeto é uma coisa morta, um corpo morto que se guarda para a castidade, para a religião, para o casamento, para os olhares de aprovação de velhos valores. Não sou mulher-objeto, pois sou muito viva, meu corpo pulsa e vibra.

2.
Cresci sob o ensino do sagrado. Minha mãe me arrastava às missas. Mas geniosa, fui ler mais que minha mãe e estudei as palavras. Aprendi que sagrado, sacro, sacralizar, é oferecer-se em sacrifício e isto me pareceu totalmente cruel. O deus da Bíblia era cruel. Minha mãe, desde aí, não me reconheceu mais.
Ouvi as tias aconselhando as primas sobre ser moça certa. Aprendi que o corpo de menina-moça era tabu. Era sagrado e tabu. E me parecia que as pessoas viviam tristes com isso, mas elas não sabiam.

3.
Na escola não pegava os livros que a professora indicava. Fui salva por um escritor com a sentença “Somente as coisas sagradas devem ser tocadas”. Este escritor que me retirou das profundezas da minha terra & família com seu De Profundis foi condenado à prisão por ato imoral. Eu também estava condenada, mas a ser livre.

4.
Doce fonte no jardim amanhecido
Onde estão os teus pássaros
Que bicam as tuas águas
Em amor, fome e libido?

(...)

Na manhã escolhida
Os pássaros, delicados e brancos
Em doce pranto de alegria desconhecida
Beberam de meus jorros
Despertaram-me a vida

5.
Como mulher estava dessacralizada, estava naturalizada, corporificada na natureza como gaivota que voa e sente fome.

6.
Já não havia mais homens para mim naquela cidade. Comi todos (mas eles diziam me comer). E de todos os paus que bebi nenhum vertia amor de suas entranhas: aqueles homens separavam sexo de amor. Já eu, amei em cada um o instante de nossos corpos.
Houve até um que me queria amor, com flores e galanteio, mas me dizia, sou seu dono, te pertenço. Aqueles homens me queriam  menor, queriam me completar, queriam  me comer, me pertencer. Apenas que: sou mulher despertencida.

7.
A pequena cidade, com suas cadeiras na calçada, suas conversas de portão e sua preguiça, vivia em burburinho.
- Vê o que andam falando? Você é pornográfica, Maria!
- Pai, eles não sabem o que falam. Pornográfico é não amar.
- Quero que saia desta casa!
Mãe baixou os olhos.

8.
Como anjo exilado fui levar minha luz a São Paulo. Completamente desconhecida. Sem olhos tortos, sem cochichos, estava solitária e feliz na multidão de Sampa.
À noite, já saí pra caçar aquele que receberia a mais bela novidade da cidade. Aquele que possuiria de meus êxtases, de meu intenso amor, de minha cruel piedade pelos homens.
No charmoso bar o jazz soa triste e provocante junto aos meus lábios vermelhos de musa impassível sozinha com seu drinque. Ele, com amigos e seu sapato italiano. Como fera dominadora e mentindo a todos a origem interiorana fui até a mesa e ofereci companhia. Espantados mas logo encantados com beleza & ousadia.
Fim da noite:
- Você quer?
- Eu quero – sou exata (não que eu descartasse ser a rainha de todos os homens aquela noite).

9.
O pescador que ante o cardume
Se vê entontecido pela pérola
De minha ostra aberta, reluzente:
- Nademos em nossas águas confluentes
Bebas do meu perfume
E esperes o teu doce deleite
Até que minha pérola no fundo do mar
Enfim se deite

10.
Um dia conheci José. Para minha surpresa José era do interior como eu. Foi para a capital com o mesmo desejo: conhecer Outros. E foi assim no desejo de conhecer o que havia de outros de nós em outro lugar foi que um e outro do mesmo lugar num lugar diferente descobrimos o amor, bregamente o mais profundo e prosaico amor. Estava completa a minha busca.

11.
Mesmo com o amor na terra e a paz sob as águas que eu vivia com José os frutos pela terra já não eram mais proibidos: poderia se comer de cada tipo, um por dia. Ricardo ate me chamava de Lilith.

Agora

Dançando com o Azul - DDiArte


Agora que agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar

Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais

Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu

Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou aqui

Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra

Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca

Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu

Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu

Agora eu nasço lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar

Arnaldo Antunes

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Homens

Nir Arieli

Às vezes os homens estão beijando. Os homens estão às vezes beijando e às vezes bebendo. Os homens estão às vezes beijando uns aos outros e às vezes então há três deles e um deles está falando e dois deles estão beijando e ambos, ambos os dois que estão beijando, têm seus olhos cheios então de lágrimas neles.

Às vezes os homens estão bebendo e estão amando e um deles está falando e dois estão brigando e um dos dois está tão à frente que então eles estão se amando e estão dizendo todas as coisas um ao outro. Todos os três estão dizendo um ao outro qualquer coisa. Todos os três estão dizendo um ao outro qualquer coisa. Um deles está escutando um outro um. Um deles está escutando dois deles. Um não está escutando eles e ele tem lágrimas então lágrimas de torpor e eles estão todos os três bebendo e dizendo uns aos outros todas as coisas.

Um deles está então cheio dessa coisa muito cheio de lágrimas nele. Ele está muito cheio então e está ganhando tendo o outro derrubado no chão. Ele está cheio então e beijando o outro então certo então de que o outro é um que ouve todas as coisas. Ele está cheio então e o terceiro deles então é um que ele então não chegaria perto. Ele era um cheio então e o terceiro então está ocupando alguma coisa. O um que então é um cheio é um que está precisando então que o terceiro não ocupe coisa alguma. O terceiro está ocupando alguma coisa. O cheio era um cheio e estava partindo quando nem um sabia coisa alguma sabia que ele estava partindo.

Os três se amaram. Dois deles estavam amando.Um deles não estava amando e lembrava de todas as coisas e ocupava alguma coisa. Um deles estava amando e tinha derrubado um outro no chão e estava precisando de que o outro outro não ocupasse coisa alguma. O outro o que foi derrubado no chão estava então amando e estava então sabendo que o cheio estava então amando. Ele estava amando então e o cheio estava amando então e eles eram então os que estavam amando. Eles tinham estado se beijando e o que estava derrubado no chão era um que poderia ter derrubado o cheio no chão.

Outra vez, bem mais tarde cada um deles encontrou um dos três. O um que era um cheio de lágrimas vindo dele enquanto ele estava amando e beijando não encontrou o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele encontrou o outro e não o encontrou outra vez. Ele era um cheio então e estava assim por não querer encontrar o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele era sempre um cheio de alguma coisa. Ele era agora um cheio por não querer encontrar o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele não o encontrou. Ele ficou bem cheio por uma vez tê-lo quase encontrado. Ele era um bem cheio então. Ele não foi então encontrá-lo, àquele que estava então ocupando alguma coisa.

Um dos três encontrou um deles e queria encontrá-lo de novo e estar amando de novo mesmo que eles não chegassem de novo a se beijar e a chorar. Ele encontrou o um que estava então cheio de ser o que não precisa estar amando qualquer um que ele tenha conhecido; o um que quis ser o que não gosta de beijar, que não gosta de qualquer um que tenha sido um. Ele não estava gostando daquele que era então um cheio de ser um a não gostar de qualquer um que tinha sido um. O um que estava encontrando com ele o um que era então um cheio não estava gostando dele, não estava gostando daquele cheio. Ele perdeu algo perdeu ser um gostando do outro ser um cheio de beijar e chorar. Ele perdeu algo, o um que encontrou o outro que então era um cheio perdeu gostar daquele, perdeu o outro sendo um cheio de amar e chorar.

O um que era um cheio por ser então um que não quer encontrar o que estava então ocupando alguma coisa, era então um cheio por não querer conhecer qualquer um que tivesse sido. Ele não estava querendo então encontrar o que estava então ocupando alguma coisa. Ele era um cheio então por ter este sentimento então nele. Ele estava chorando um tanto então por estar cheio.

Cada um dos três era um tal, tal eles eram então. Cada um deles, os três deles, queria dizer alguma coisa sendo um tal. Cada um dos três era um tal bebendo e amando e falando. Cada um deles, cada um dos três era um que bebia com o outro amava um dos três, amava dois dos três amava todos os três, beijava um deles, chorava um tanto então. Cada um dos três era um tal. Cada um dos três queria dizer alguma coisa sendo um tal.

O um que estava ocupando alguma coisa era um tal sendo um a beber e a falar e a ouvir e a ocupar então alguma coisa, ocupar sendo um tal, um a beber e a ouvir e a falar, a ocupar completamente sendo um tal.

Ele era um a ocupar alguma coisa. Ele era um a ocupar sendo um tal, um a beber e a amar por escutar e por falar. Ele era um a ocupar sendo um tal a ocupar completamente sendo um tal, a beber e a amar por estar escutando e por estar falando.

Ele era um tencionando essa coisa por ser um tal tencionando ser um a ocupar completamente sendo um tal, amando por escutar, amando por falar, amando por beber. Ele estava ocupando plenamente sendo um tal e estava plenamente tencionando essa coisa por ser um tal, tencionando ser um a amar por ser um a escutar, por ser um a falar, por ser um a beber.

Ele era um tal, ele estava ocupando completamente sendo um tal, ele estava plenamente tencionando ser um tal. Ele estava completamente ocupando um tal e ele estava então ocupando alguma coisa, ele estava então ocupando alguma coisa e ele era então para o cheio, o que então precisava não estar encontrando ele, ele era para aquele um a ocupar alguma coisa onde ele o então cheio precisava ter todas as coisas em volta dele para que pudesse ser um a deixá-las para trás. Ele estava então ocupando alguma coisa o que poderia estar encontrando o que era então o cheio por ser o que precisava não estar encontrando ele, ele estava então ocupando alguma coisa e sendo um então a amar por beber, a amar por escutar, a amar por falar. Ele poderia então estar ocupando alguma coisa e tendo então o que era o cheio por precisar não estar encontrando ele, tendo o cheio então ser o que ele era ao ter um como aquele com quem ele poderia estar se encontrando outra vez, sendo um tencionando ocupar alguma coisa.

Ele era um completamente sendo um tal. Ele era um a tencionar completamente por ser um tal. Ele era um a ocupar alguma coisa por ser um amando por beber, amando por ouvir, amando por falar. Ele estava tencionando sendo um tal. Ele estava tencionando ao ser um tal. Ele era um tal.

O que foi derrubado no chão por ser um que vem amando e beijando e bebendo poderia ter derrubado no chão o que tinha então derrubado ele no chão. Ele poderia ter derrubado no chão o que derrubou ele no chão, e então ele o amou e ele o beijou, e eles então disseram que ambos então sabiam todas as coisas. Ele poderia ter derrubado no chão o que derrubou ele no chão e ele então não estaria amando e beijando e sabendo então todas as coisas. Às vezes, ele era um a derrubar alguém no chão e sendo um então a deixar alguém cair e sendo um então a saber alguma coisa. Ele estava então quando foi derrubado no chão pelo que ele poderia ter derrubado no chão ele estava então amando e beijando e eles estavam então sabendo de todas as coisas. Ele era um tal e era um que estava tencionando ao ser um sendo um tal. Ele era um que vinha sendo um tal e sendo um tal e sendo um a lembrar que se tornou um tal, e sendo um tal, e estando bebendo e beijando e amando ao estar tencionando ao ser um tal e ser então um tal, e ser então um que poderia ter derrubado no chão o outro e ser então o que foi derrubado no chão pelo que ele estava beijando então e amando então e eles estavam então sabendo todas as coisas, ele estava se lembrando que ele era o que era um tal. Eles estavam então sabendo todas as coisas e ele estava então se lembrando de todas as coisas e o outro depois estava cheio então por ser o que não se lembra de coisa alguma por ser o que não precisa estar lembrando de qualquer um ao ser um que tenha sido. Ele era o que tinha derrubado no chão o outro e o outro poderia ter derrubado ele no chão. Ele tinha derrubado no chão o outro e eles estavam então se beijando e amando e sabendo de todas as coisas.

Ele era um cheio e tinha derrubado no chão o outro. Ele era um cheio e era um tal. Ele era um tal e estava se lembrando de ter tencionado ao ser um tal. Ele não estava se lembrando de todas as coisas.

Ele tinha sido um tal um tal a amar. Ele tinha estado beijando então e bebendo então com lágrimas então surgindo nele. Ele tinha lágrimas ocupando ele quando ele estava se lembrando, quando ele não estava se lembrando sendo um tal. Ele era um cheio por ser um com lágrimas transbordando dele. Ele era um cheio por estar se lembrando, ele era um cheio por não estar se lembrando de ser um tal. Ele era um cheio de lágrimas inchando ele. Ele era um cheio de lágrimas escapando dele. Ele era um cheio de lágrimas sobrando nele. Ele era um que poderia ser um cheio por querer ter derrubado alguém no chão e ser um a chorar então. Ele poderia se lembrar de alguma coisa. Ele se lembrou de alguma coisa. Ele não se lembraria de todas as coisas. Ele seria um tal e seria um cheio estando completo então por ser um tal. Ele era um cheio por ser um a derrubar no chão o outro e admirar então o que tinha sido derrubado por ele. Ele estava sendo um tal. Ele estava tencionando alguma coisa ao ser um tal. Intencionava-se ao ser um tal.

Intencionava-se ao ser um tal e tantos se lembraram daquilo, se lembraram de que ele era um tal e de que se intencionava aquela coisa, intencionava-se ao ser um tal.

Ele era um tal e tinha tencionado ao ser um tal, intencionado ser um tal ao ser um tal. Ele estava se lembrando dessa coisa se lembrando de que ele era um tal. Ele se lembrou dessa coisa, ele se lembrou de que ele tinha tencionado ao ser um tal.

Ele estava tencionando outra vez ao ser um tal e estava se lembrando de que ele tinha mencionado outra vez que ele era um tal. Ele estava se lembrando outra vez de que ele era um tal e ele estava se lembrando outra vez de que ele estava tencionando. Ele era um tal.

Ele era um tal e estava se lembrando daquela coisa sendo um cheio. Ele era um cheio sendo um tal. Ele era um cheio se lembrando de ser um tal.

Ele era um cheio se lembrando de que ele não estava encontrando qualquer um que tenha sido. Ele era um cheio se lembrando de que ele poderia encontrar qualquer um que tenha ocupado alguma coisa. Ele era um cheio por estar chorando. Ele era um cheio. Ele estava se lembrando de alguma coisa ao ser um cheio. Ele estava se lembrando de ser um tal.

Ele estava se lembrando de ser um tal. Ele estava se lembrando de alguma coisa. Ele estava se lembrando de ter tencionando ao ser um tal. Ele era um tal. Qualquer um era um não se esquecendo outra vez de que ele era um tal. Ele era um não se esquecendo outra vez de que ele era um tal. Ele era um não derrubando um outro no chão e sendo então o cheio por não se tornar um a jamais fazer uma tal coisa. Ele era um cheio sendo um outra vez então não encontrando qualquer um que ele não tenha derrubado no chão. Ele era um cheio sendo um então encontrando outra vez o um que ele não chegou a derrubar no chão e sendo um não encontrando aquele outra vez. Ele era um tal. Ele estava se lembrando de alguma coisa.

Nem um dos três encontrou coisa algum de nem um  outro deles. Qualquer um deles era um encontrando um outro. Qualquer um dos três era um tal.

Qualquer um dos três estava tencionando ser um tal. Qualquer um dos três era um tencionando alguma coisa sendo um tal. Qualquer um dos três estava sendo um a ser um tal. Cada um dos três era um sendo um do seu jeito. Cada um dos três era de um jeito diferente dos outros três. Cada um dos três era um tal.

Gertrude Stein
(03/02/1874 – 27/07/1946)
tradução de Marília Garcia e Valeska de Aguirre

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...