32

Descemos juntos no Paraíso.
Viramos os últimos bares, eu e Pedro, bebendo cerveja com Steinheger, depois conhaque à medida que a noite esfriava.
Falávamos como se nos conhecêssemos há anos. Há vidas quem sabe.
Quando todos os bares fecharam e o dia começava a nascer nos lados da aclimação, convidei-o para vir até o apartamento onde eu morava há menos de um mês, desde que Lídia se fora.
Não havia quase nada lá. Um colchão, roupas espalhadas, discos, livros, uma garrafa de vodca ou uísque pela metade.
Sentados no chão, ficamos bebendo, fumando, ouvindo uma velha fita de Bola de Nieve que, não sei por que, ele trazia no bolso.
Cada vez mais clara, a luz da manhã varava as folhas de jornal que eu colara nas vidraças. Feito uma cortina de crimes, intrigas e miséria.
Tínhamos quase a mesma idade, nenhum dinheiro, mulher ou filho. Ríamos sem parar das nossas vidas e das alheias.
Bola de Nieve cantava yo era como una barca solitária en el mar y surgiste en mi vida. Ficávamos cada vez mais bêbados.
Tentei levantar para fazer café, mos Pedro tornou a encher os copos. E me puxou para junto dele, contando que morava longe, que não queria voltar para casa naquela noite, que brigara com o irmão, a cunhada, Os sobrinhos.
A voz de Pedro era rouca e lenta. Mais rouca e mais lenta por causa da bebida, dos cigarros, das palavras muitas, da manhã nascendo.
Comecei a cochilar enquanto ele perguntava se podia ficar ali, se podia ficar comigo. Claro que sim, era tão simples.
Quase dormi, não lembro. Quando acordei, ele me beijava.
O beijo de Pedro não era desses de amigo bêbado, encharcado de álcool e solidariedade masculina, carência etílica ou desespero cúmplice.
A língua de Pedro dentro da minha boca era a língua de um homem sentindo desejo por outro homem.
Ele era bonito. Todo claro, quase dourado.
Tentei afastá-lo, repetindo que nunca tinha feito aquilo. Eu gostava de mulher, eu tinha medo. Todos os medos de todos os riscos e desregramentos.
Ele beijava minha boca, minha faces, meus olhos, meus cabelos, minhas mãos, meu pescoço, meu peito, minha barriga.
Eu parecia uma donzela assustada.
Eram ásperas demais as barbas amanhecidas roçando uma na outra, os músculos duros dos braços, das pernas, os cabelos raspados na nuca, os pelos no peito. O cheiro, os toques, todo o resto: inteiramente diverso do amor de uma mulher, que era o que eu conhecia.
Pouco e mal, e quase sem prazer, mas era assim que tinham me ensinado que devia ser. Assim eu conhecia o amor das mulheres.
No meu ouvido, Pedro repetia que não podíamos fugir daquilo, que estávamos predestinados, que fora um encontro mágico, que precisava de mim para não morrer de solidão e abandono e tristeza. Eu deixava que repetisse todas essas coisas de fotonovela, de melodrama, de latino América, que continuasse a me beijar.
Dormimos juntos vestidos, abraçados.
Quando acordei, pelo apartamento não havia outro vestígio dele além dos filtros brancos dos cigarros que fumava, no cinzeiro cheio.
Eu não sabia se voltaria a encontrá-lo, eu não sabia se queria que voltasse. Eu estava aterrorizado pela ideia de gostar de outro homem.
Ele voltou, dias depois.
Quando Pedro voltou, estava anoitecendo. E foi como se todas as luzes da casa se acendessem ao mesmo tempo.
E nós jantamos juntos, fomos ao cinema, ao teatro, ouvimos música, sentamos nos bares, acendemos os cigarros e enchemos os copos um do outro. Durante semanas fizemos todas essas coisas que as pessoas fazem quando querem ficar juntas, vivendo uma a vida da outra.
Depois voltávamos para casa e ele sempre tornava a me beijar, insistindo que fôssemos para a cama.
Tú no sospechas cuando me estás mirando, ele cantava com Bola de Nieve.
Durante meses, os dois em pé, os paus duros apertados um contra o outro na porta de saída. De madrugada, eu conseguia mandá-lo embora para a Luz, Tiradentes, Ponte Pequena, nunca soube onde.
Eu deitava sozinho, sem lavar as mãos ou o rosto, para guardar seu cheiro. E me masturbava noite após noite, até ficar esfolado, pensando no corpo e na cara de Pedro, em todas as formas de penetrar e ser penetrado por ele.
Eu não cedia, eu tinha medo.
Certa noite, talvez tivéssemos bebido demais, Ou não bebido nada, talvez estivéssemos, eu e Pedro, exaustos daquele jogo que não era jogo, ele deitou na minha cama, me puxou para o seu lado. Eu rolei por cima, pelo lado, por baixo dele, morto de riso.
Ele tirou minha roupa, lambeu todo meu corpo, me virou de bruços e me possuiu como um homem possui outro homem.
Eu senti primeiro dor, depois medo, depois prazer. Como sente um homem penetrado pela primeira vez por outro homem. Mas nojo não, nem desprezo ou vergonha.
Só alegria, eu senti com Pedro. Uma alegria que era o avesso daquela que tinham me treinado para sentir.
Na manhã seguinte, ficamos o dia todo na cama, ouvindo Bola de Nieve, pedindo pizzas e cigarros e cervejas por telefone.
Quando anoiteceu, e começava a chover, eu lambi todo o seu corpo, virei-o de bruços e o penetrei também. Como jamais possuíra nenhuma mulher real, nem mesmo Lídia, nenhum ser de fantasia, na palma da minha mão.
Tinha sardas miúdas nos ombros, manchas de ouro. Gosto de sal, cheiro de terra molhada pela primeira rajada de chuva, um triângulo de pelos nas costas, logo abaixo da cintura.
Mordi sua nuca, ele gemeu.
Passamos dias assim, Pedro e eu, um dentro do outro. O cheiro, os líquidos, os ruídos das vísceras. O que era de quem, dentro e fora, nós não sabíamos mais.
As secreções, as funduras.
Os dias se interrompiam quando ele ia embora. Recomeçavam apenas no mesmo segundo em que tornava a chegar.
Não sei quanto tempo durou. Só comecei a contar os dias a partir daquele dia em que ele não veio mais.
Desde esse dia, perdi meu nome. Perdi o jeito de ser que tivera antes de Pedro, não encontrei outro.
Eu queria que voltasse, não conseguia viver outra vez uma vida assim sem Pedro.
Nos meses seguintes, não havia nenhum sinal dele pelas ruas, os hospitais, paradas de ônibus, estações de metrô, uma por uma, tarde da noite, amanhecendo nas padarias.
Por vezes, na rua, alguém de costas parecia com ele.
Parei de trabalhar. Parei de ser e de fazer qualquer outra coisa além de esperar que ele voltasse.
Mas Pedro não voltou, eu não voltei.
As luzes da casa nunca mais tornaram a acender com sua chegada.

Caio Fernando Abreu
In: Onde Andará Dulce Veiga?



Meus sinceros agradecimentos a Bruno Latorre.

Comentários