-                   Nada.
-                   O que você quer?
-                   Já disse.
-                   Quer dormir?
-                   Não.
-                   Quer falar?
-                   Talvez...
-                   Sobre o que?
-                   Já não vale o esforço.
-                   Não é possível não fazer nada.
-                   Por quê?
-                   Porque é inútil.
-                   Sim, e o que tem? Quero só isso. Não querer mais. Não quero verbos, só substantivos. Uns poucos. Não quero nem querer isso, os olhos fechados e o  silêncio. A imobilidade. Essa penumbra. Seu corpo junto ao meu.
-                   Você quer que eu o ame?
-                   Não. Não mais do que já me ama quando apenas me olha e me vê. Dentro e apesar da vertigem à que esse olhar o conduz e você ainda insiste em ver. Você me ama o bastante.
-                   O que faço então?
-                   Nada. Você pode ficar ou ir, se quiser. Mas seria bom se ficasse.
-                   Você sabe que não posso.
-                   Sei. Sempre soube. Você não pode.
-                   Mas quero.
-                   Sim, você quer. Você fica.
-                   Até quando?
-                   Até que já não seja importante e você possa. Porque você precisa dessa interdição que o fixa ao mundo quando você sabe bem que o mundo não se importa.
-                   O que ou quem importa? Quem se importa?
-                   Ninguém, na verdade ninguém nem nada.
-                   O quê então? O quê importa?
-                   Isso que há aqui.
-                   E o que é isso?
-                   Isso é você e o seu desejo por mim e por todas as coisas. Sou eu, que não desejo. São nossos corpos estirados aqui sob essa tarde abandonada e esquecida pelos outros. Isso é essa tarde assim. Somos nós dois sem razão para sermos além de nós mesmo.
-                   Você se lembra? Lembra-se da primeira vez?
-                   Não. Foi há muitas gerações. E essa imensidão transborda. Assim, essa é a primeira vez sempre. Sempre a primeira vez. Como naquela outra tarde desta mesma estação no café da praça quando você passou por mim e me viu vendo você ir. E depois tomamos café. Eu com açúcar. Você puro. E fizemos sexo até você não poder mais ficar. Como hoje.
-                   Mas eu fiquei.
-                   Sim. Você tem ficado sempre desde então porque não podemos mais.     
-                   Você disse que não se lembrava.
-                   Não.
-                   O que você vê com seus olhos fechados?
-                   Vejo você como está agora, me vendo vê-lo por dentro, de dentro.
-                   Quando você faz assim eu poderia matá-lo.
-                   Eu sei. Já esperei por isso também. Algumas vezes. No início. Depois deixei de esperar por esse assassínio. Compreendi que você não me ama tanto. Não a esse ponto.    
-                   Mas poderia.
-                   Sim, ainda há essa possibilidade. Sempre há.

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