Página do diário.


Madrugada. 02:26.

Minha irmã liga.
Ela está aflita.
Diz que seu pai está internado.
- Um AVC. É grave. Venha.

Eu já sabia.
Esperava por isso. Sabia que de repente ele sucumbiria à sua maldade essencial. Sabia que ele não sobreviveria à última etapa do seu ciclo nessa vida. Sabia que seria levado.

Você me pergunta se estou bem, se quero que vá comigo.
Digo que preciso fazer isso sozinho. Por mim e por ele.  
Você diz que entende, que se eu precisar...
Digo que telefonarei assim que puder.
Você me olha seu olhar inquieto.
Digo que não se preocupe, estarei bem. Deve ser assim... Eu e ele. Seremos eu e ele.
Digo que quero estar sozinho com ele quando ele morrer. Se estiver consciente, quero que me veja. Quero que ao morrer ele me veja como a sombra da sua consciência lembrando a ele que ele não será perdoado. Que para onde quer que vá não haverá descanso depois dessa existência calamitosa e doentia. Eu estarei livre e ele agrilhoado ao seu fim.
Você me olha seu olhar perplexo.
Depois você compreende.
Digo que telefonarei assim que puder.

Vou ao hospital para me certificar.
Ele está no CTI.
Eu e suas filhas esperamos o boletim médico.

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Durante três dias e três noites estive ao lado dele.
Ninguém mais teve acesso a esse homem que morria.
Nenhuma de suas filhas.
Nenhuma mulher.
As filhas eu barrei, impedi que viessem.
As mulheres não vieram, não o amaram nem o odiaram o suficiente.

No fim, me impus a ele.
Enquanto ele simulou o coma eu estive lá.

Três dias e três noites em que o olhei atentamente.
Três dias e três noites em que me olhei atentamente.
Nenhuma palavra nenhum gesto.
Apenas minha presença opressora sobre o peito daquele homem que vez ou outra arfava sufocado e não tinha forças para me expulsar para longe daquele quarto, para longe de sua vertigem em direção à morte.
Uma agonia silenciosa que testemunhei, também em silêncio.
Depois os aparelhos também silenciaram.
Estávamos livres.


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