Therezinha

Eu quero que ela se chame Therezinha, essa mulher que almoça comigo todos os dias. Eu quero que ela seja nordestina das regiões áridas e que tenha conseguido sair da desolação por força de si mesma e de um destino para além da compreensão dela ou dos que deixou. Eu quero que ela tenha sofrido todas as dores possíveis antes de estar aqui, comigo, almoçando.

Eu almoço com Therezinha todos os dias. Eu almoço com ela e ela almoça com o filho. Ela não sabe que almoçamos juntos. Ela está a uma mesa de distância com o filho. Esse filho que beira os trinta anos e que é débil. Sempre à mesma mesa. Ela chega depois de mim. Serve o filho, serve-se, sentam-se e comem.

Eu observo.

Therezinha aparenta uns sessenta anos ou mais. Agora está bem cuidada, mas traz as marcas da dor que eu quero que ela tenha sofrido. Nos olhos, na boca hirta, na pele, nas mãos que ainda não pintaram com as manchas da idade a dor está lá. É vaidosa nas roupas com estampas de cores nordestinas. Faixa também colorida nos cabelos que não tinge e aparecem grisalhos. É enérgica nos movimentos, firme, endurecida, magra como um caniço, uma árvore retorcida da caatinga que não vai morrer nunca. Ela não vai morrer nunca, não antes de alimentar, amparar, zelar, velar e enterrar esse filho que é seu e de uma de suas dores. Esse filho que foi o único que ela quis e que quis quando já era tarde para tê-lo e ele veio sem ser dela, para ela. Para ela olhar para ele e se lembrar do homem que o fez nela e amá-lo por isso, o homem e o filho desse homem.

Therezinha come. Come como um trabalhador braçal. Come o seu peso com voracidade. Come com o apetite da fome ancestral que não a abandona. Ela abandonou a fome há muito, mas a fome não a abandonará, nunca. Essa fome a mantém viva para se alimentar por ela, através dela. Ela alimenta o filho que come pouco apesar de ter o dobro do seu tamanho. Ela pica a carne em seu prato e observa. Ela arruma a comida que ele esparrama para as bordas do prato, para além do prato. Ela recolhe o que lhe cai da boca frouxa. Ela come e cuida para que ele também coma e lamenta que ele coma tão pouco. Ela não entende como ele vive sem a fome que ela tem.

Therezinha fala. Fala entre as garfadas, entre a comida, entre o arroz, o feijão e a farinha. Fala coisas que desconheço de gente que conhece. Fala como se o filho a ouvisse, mas eu o vejo ajustando o volume do aparelho de audição que traz por trás da orelha esquerda. Quando ele não responde às suas perguntas com algum som gutural ela agita as mãos frenéticas entre o prato e a colher e a boca cheia dele. Ele se agita e resmunga. Ele levanta e vai ao banheiro.

Therezinha olha. Olha para o lugar onde o filho estava. Ela olha para o vazio que há ali e seu olhar vê. Enquanto ele está ausente ela não come, ela não fala, apenas vê sua ausência, seu olhar vaga, entre o espaço vago e o tempo suspenso. Ela vê e eu não sei o que ela vê. Ele, o filho, volta.

Todos os dias, almoçamos juntos.

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