Felicidade

Quero contar que hoje vi a felicidade. Sim, a felicidade plena, definitiva.

Saindo do banco ainda sob o efeito de extratos, saldos, débitos, créditos e contas a pagar vi, saindo de uma loja de presentes em frente, uma senhora. Até aí nada demais não fosse o intenso e radiante olhar que ela me lançou acompanhado de um sorriso mais brilhante que a estrela Vênus. Em seguida olhou para um lado, depois para o outro, como se indecisa de qual a melhor direção tomar e optando por descer a rua seguiu à esquerda de si mesma. Ponto. Deveria ser só isso. Eu deveria contar só isso. O encontro fortuito com o olhar radiante e feliz de uma senhora. A Felicidade plena naquele olhar, naquele sorriso.

Mas as coisas não são simples assim. Nunca ficam assim.

Antes de continuar devo fazer uma confissão grave: Eu sigo as pessoas na rua. Pronto falei. Faço isso. Não por maldade ou segundas intenções – que segundas intenções eu poderia ter para com a tal senhora? – mas por puro interesse pelas pessoas. Sigo qualquer um. Quer dizer, qualquer um que desperte em mim uma irrefreável curiosidade. Homem, mulher, jovem, velho, criança. Bem, sigo as pessoas e, como estava com tempo livre no meio da tarde, sem tomar a decisão conscientemente atravessei a rua e bati no encalço da tal senhora impulsionado apenas por seu sorriso e é claro por minha curiosidade.

Distinta, como quase não se veem mais pessoas distintas. Bem vestida sem luxo. Cabelos brancos bem penteados sob um chapéu Panamá modelo Santos Dumont com um lenço vermelho preso à aba – um pouco “nonsense” no conjunto, mas perfeito sob o sol das três horas e com a aura de férias que emanava dos gestos livres. A blusa branca leve e bem cortada com estampado floral, saia ampla num tom de areia molhada combinando com os sapatos baixos entretecidos com palha. Brincos de pérola, nas mãos livres um par de alianças avisando a viuvez, na outra um solitário também de pérola.

Caminhava com a coluna ereta de uma bailarina, leve, como uma criança compenetrada que sai sozinha na praça, adulta em si mesma, passos calmos e firmes. De quando em quando parava para ver um detalhe numa vitrine, para acenar sorrisos para outra senhora passante, para olhar para o céu com olhos molhados de luz, para olhar surpresa pequenos lugares comuns. Caminhava assim em férias, toda sorrisos e brilhos de olhos. Caminhava embalada por música própria, que eu diria um “minuetto”, com trejeitos graciosos.

Fizemos, ela e eu, o trajeto no entorno do quarteirão observando o dia, o céu, a rua, as pessoas. Ela e eu embalados pela melodia que vinha dela me contagiando e pintando a tarde com cores intensas e ao mesmo tempo suaves. Descompromissados do todo e de tudo. Às vezes ela parava e se voltava na minha direção e percebendo-me sorria delicada ao que eu correspondia cortes. Fizemos, ela e eu, o trajeto no entorno do quarteirão uma vez. Depois outra. Depois mais outra ainda. Ela dançando e eu seu enamorado compondo um “pas de deux” silencioso. Ela não estranhando minha companhia e eu já estranhando tantas voltas ao quarteirão quando, subitamente uma jovem senhora passou arfante por mim.

- Mamãe! – abordando a senhora num tom de alívio, reprimenda, constrangimento, contrariedade e alegria, misturados.

- Por onde a senhora andou? Está bem? O que foi? Onde esteve? Estou procurando há um tempão. Já dei três voltas no quarteirão. Eu disse para a senhora não sair sozinha. A senhora sabe que não pode sair sozinha. Onde esteve? Está bem? Tudo bem?

Tudo dito de chofre sem esperar por respostas que a senhora/mamãe não intencionava dar. Passada a efervescência e observando melhor a senhora/mãe como se conferisse sua integridade física...

- A senhora “pegou” o chapéu! Vamos voltar para a loja.

Relutância no olhar da senhora/mamãe.

- Mamãe...

- ... ... ...

- Está bem. Vamos ficar com o chapéu, assim está bem? Isso. Agora vamos. Nós temos que pagar por ele. Isso, vamos por aqui. Assim.

Passaram por mim e seguiram as duas braços dados em direção à loja de onde eu a vira sair.

Neste instante fui fulminado por um raio. A compreensão atingiu-me com um violento golpe. A um só tempo latejaram-me as têmporas, minha nuca contraiu-se, meu estomago revirou-se. Tudo estava claro: o chapéu nonsense, as pérolas, o caminhar dançante, a liberdade dos gestos, o mirar-se sem reconhecimento nas vitrines, as voltas ao quarteirão, os sorrisos, o brilho no olhar... Tudo estava explicado. Tudo claro. Eu fora fulminado pela certeza inequívoca de que a senhora/mamãe era louca.

Em algum momento em sua vida a senhora/mamãe decidira ser feliz.

Feliz para sempre. Alguma coisa, alguém ou fato deve tê-la conduzido a essa felicidade. A viuvez, ou sucessivas outras perdas, ou a inadequação reconhecida diante da Vida, ou um cansaço definitivo da razão, ou...

Ou uma simples decisão de ser plena e definitivamente feliz para sempre.

Jamais saberei.

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