Perdão e Esquecimento

Palavra nova, datada do século XIII, perdão significa: “remissão de pena ou de ofensa ou de dívida; desculpa; indulto; ato pelo qual uma pessoa é desobrigada de cumprir o que era de seu dever ou obrigação por quem competia exigi-lo.”.

Dizem através das chamadas Sagradas Escrituras, que teria sido empregada pela primeira vez por Cristo no ensinamento da oração Pai Nosso onde, dirigindo-se ao Pai dizia: “... e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores;...” (Matheus, 6 - v.12) e uma segunda vez durante o espólio aos pés da cruz dirigindo-se também ao Pai com: “Pae, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas, 23 - v.34) Como teria Cristo usado uma palavra inventada no século XIII é o que me pergunto. Como me pergunto também porque o “perdoa-nos as nossas dívidas” foi substituído por “perdoa-nos as nossas ofensas”. Seria porque perdoar ofensas onera menos aos cofres da Igreja que perdoar dívidas? Bem, são decisões do Concílio de Trento que não vêm ao caso agora.

O fato é que a palavra perdão nascida expressão latina exclamativa na Idade Média (perdonet 'que ele perdoe') substantivou-se e agora anda fácil pelas bocas, pelas mensagens virtuais propagadas em tons proféticos, professorais, existenciais. Virou moda, estilo de sabedoria que nos aproxima de Deus, atitude beata que nos eleva em amor acima dos desgraçados perdoados. Perdão é chave que abre as portas para uma infinita paz interior, desde que bem azeitada com o Esquecimento (palavra também novíssima com datação no séc. XIV – mais uma medieval). Sim, porque Perdão sem Esquecimento não conta. Obliterar-se, não por influência do mal de Alzheimer, é santo e milagroso remédio para a alma e auxiliar inequívoco do Perdão.

Ponho-me em alerta! Quando expandimos demais o conceito do Perdão e a amnésia por ele sugerida corremos sérios perigos. No âmbito do universal perdoamos e esquecemos os desvios das Igrejas através da história, perdoamos e esquecemos os desmandos políticos, perdoamos e esquecemos as atrocidades cometidas pela ânsia de poder, perdoamos e esquecemos a miséria infligida aos menos favorecidos pela ganância dos abastados; nem precisamos exemplificar cada um deles. Na esfera mais limitada dos relacionamentos interpessoais perdoamos e esquecemos o desamor, o ódio (que é diferente do desamor), a incompreensão, a negligência, a tortura psicológica, as anomalias de caráter e outros congêneres.

Penso que o Perdão humilha quem pede, glorifica quem dá, ambos aos extremos. Sobre o abismo aberto entre quem é perdoado e quem perdoa estende-se uma ponte de neblina cuja ilusão desfaz-se sob um mínimo raio de lucidez. O Perdão impede a compreensão das lições profundas que os erros nos dão porque o Esquecimento não ensina, não cumula Sabedoria. De um lado o perdoado não é confrontado, ficando isento da responsabilidade adquirida por seus atos; de outro, o perdoador cínico infla seu ego no orgulho da magnanimidade ou amnésico dispõe-se ignorante, quando não estúpido, para a Vida.

Não me falha a memória, Cristo suplica ao Pai o perdão que ele não ousou dar, ciente de que ali, naquele momento, não havia vítimas ou algozes, mas um Destino que se cumpria; que havia uma lição a ser apreendida; que se houvesse um Perdão dado a alguém ele, o Perdão, deveria vir do Pai que é o único capaz de concedê-lo e esquecer sem prejuízo. Então ele chora e clama: “Eli, Eli, lama sabachthani; isto é, Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (Matheus, 27 - v.46).

Eu acredito no perdão segundo uma definição mais simples encontrada também nos dicionários: “uma fórmula de civilidade com que se pede desculpa” – aliás, desculpa também é outra fórmula mágica para o alívio da consciência (culpa essa, mais judaica que cristã). Perdoa-se um pisão involuntário no pé, perdoa-se um esbarrão, perdoa-se um traque no elevador, perdoa-se o involuntário, o acidental, o irrefletido. O Perdão amplo demais me intimida. Não sou e nem pretendo ser magnânimo. Não sou tão Bom assim. Falta-me a prepotência necessária para perdoar. Não sou um desmemoriado reinventando a roda todos os dias. Em minha escuridão ancestral, Nêmesis e Tisífone (Vingança e Retaliação) estão vivas e murmuram: “- Olho por olho, dente por dente, toma a justiça nas tuas próprias mãos!”. Mas fui bem ensinado pela Vida e faço ouvidos moucos às velhas.

Não Perdoo. Não Esqueço. Não peço Perdão. Que se cumpra o Destino!

Murilo Pagani - 12/04/2010

Comentários