Morpheús

Morpheús - Jean Antoine Houdon, 1741/1828

Hoje eu acordei muito cedo.
Acordei antes da cidade, antes da luz.
Acordei antes do som das muitas vozes que falam em mim.
Acordei bom de um sonho bom. Puro e delicado como foi o sonho. Acordei tão bom e puro e delicado que pensei que estava triste. E fiquei cuidando dessa bondade em mim da mesma forma que cuidamos de um passarinho que caiu do ninho, com mãos leves, as palmas em concha, o coração batendo pouco para não assustar. Cuidando dessa bondade e pureza e delicadeza cheio de esperança que houvesse sobrevivência e sabendo que logo haveria um bater frenético de asas e minhas mãos se abririam para dar liberdade ao que não poderia sobreviver em mim, comigo. Durante algumas poucas horas guardei comigo essas sensações que um sonho me deixara.

Aos dezesseis anos vivi um Amor.
Um Amor tão bom e tão puro e tão delicado que eu nem sabia o que era além de ser Amor. Um Amor que fez eu desejar ser o melhor que um ser humano pode ser para ser digno dele. Um Amor que aspirava apenas ser o que era. Um Amor que se alimentava de si mesmo em sua imensidão e em sua força pedia para voar livre em mim, de mim. Um Amor que apenas era, sem querer, sem estar, sem poder, sem desejar, sem reter, sem qualquer outra coisa além de apenas ser Amor. Vivi esse amor com mãos leves e em concha, com o coração batendo pouco para não assustar. Foi assim.

Nessa madrugada acordei de um sonho:
Eu estava em um colégio em que nunca estudei, era um final de tarde e os alunos saiam das aulas. E o colégio foi se esvaziando e silenciando até restar sua arquitetura neoclássica com seus corredores, pátios e jardins. Eu sabia que ainda não haviam saído todas as pessoas. Professores e funcionários eram vultos silentes do outro lado das paredes. Eu não devia estar ali e estava. Estava esperando alguém que eu não sabia quem era até que ele surgiu de traz de uma coluna vindo em minha direção. Ele se chegou com a mesma felicidade de gestos de que me lembro e caminhamos juntos até um pequeno pátio com uma fonte. Riamos e ele contava do dia enquanto eu o observava pensando que depois de todos esses anos ainda éramos os mesmos. Então, ele se aproximou e olhando nos meus olhos revelou silenciosamente seu Amor por mim e reconheceu o meu Amor em mim. E ternamente nos abraçamos e nos beijamos com a delicadeza e o tremor nos lábios do primeiro beijo de Amor. Foi assim.

Hoje eu acordei muito cedo.
Acordei antes da cidade, antes da luz.
Acordei antes do som das muitas vozes que falam em mim.
Acordei imerso nesse Amor bom, puro e delicado. Fiquei cuidando dele o tanto que foi possível com as mãos em concha, sentindo uma felicidade triste e o coração batendo pouco para não assustar.

Murilo Pagani

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