Adriana é uma moça de quem gosto muito. Gosto muito e muito, desde quando a vi pela primeira vez. Foi empatia imediata. Primeiro por causa do sorriso dela, um sorriso sem limites, daqueles que duram depois de terem acabado; segundo porque o brilho nos olhos dela é um farol em noite de tempestade, promessa de refúgio em terra firme, chocolate com canela, manta sobre os pés, colo em frente à lareira; e terceiro porque a luz dela é “Orange”, não laranja, porque “Orange” (com maiúscula mesmo) define melhor essa cor redonda como a fruta e luminosa como o Sol, cítrica, doce, fresca, intensa, pura, tudo a um só tempo. Então resolvi que gosto muito dela. Ela é casada, mãe e recentemente avó. Uma avó “Orange” como nunca vi outra em toda minha vida.
Adriana tem um blog que se chama Samba no Varal . Lê-lo é reencontrar Adriana e quase ouvir sua voz, é ver sua cor reverberando na atmosfera. Recomendo para quem quer ficar leve ou recompor-se de um dia de doação de sangue.
Foi na segunda semana de abril, em que eu estava precisando muito me recompor de grande perda de sangue, que me deparei com o seguinte texto:

14/04/2010

CREPÚSCULO

Paramos no meio do caminho:
Quase amigos.
Quase irmãos.
Quase pais.
Quase sãos.
Quase aprendizes.
Quase professores.
Quase amantes.
Quase amores...

Escrito por Adriana às 14h10min

Fiquei tão atônito que não tive forças nem para fazer um pequeno comentário.
Não sei se Eu ou Ela (num dia de usar cor complementar) ou ambos estávamos “blue” naquela semana, ou se foi só uma impressão minha, mas o fato é que não consegui me descolar do texto e passei os últimos dez dias meditando muito sobre ele.
Adriana veja como você me intriga quando fica "blue".

A questão do “Quase”

Toda a Vida é um “quase”.
O mundo é um “quase”.
Somos todos uns “quase”.
“Quase” qualquer coisa.
A madrugada é “quase” manhã, a manhã é “quase” dia, o meio dia é “quase” tarde, a tarde é “quase” crepúsculo, o crepúsculo é “quase” noite, a meia noite é “quase” madrugada...
O botão é “quase” flor, a flor é “quase” fruto, o fruto é “quase” semente, a semente é “quase” botão...
A lagarta é “quase” casulo, o casulo é “quase” borboleta...
Tudo que nos rodeia está sempre num estado de latência infinita. Tudo é um vir a ser. Nada está pronto ou é definitivo. Oscilamos à beira de... Sempre. Então, e apenas nesse caso, o “quase” é conclusivo.
Aí reside nossa angústia e mortificação. Não aceitamos este estado de latência. Queremos o permanente e a permanência está fora do nosso alcance. Hoje, nem a morte é o ponto final que chegamos há imaginar um dia, chamamos de passagem, transmutação.
Esquecemos-nos de que a madrugada em si mesma é um espetáculo porque estamos ansiosos pelo dia. Esquecemos-nos de apreciar o momento da flor em cor e em perfume porque temos fome do fruto que virá – no seu tempo. Matamos a lagarta porque ela devora nosso jardim antes de ser casulo e depois borboleta voando sobre nossas flores.
Vivemos o desejo de, esquecendo o desejo em si.
Vivemos o sonho de, esquecendo o sonho em si.
Vivemos a promessa de, esquecendo a promessa em si.
O “Quase” é o Presente de que prescindimos para vivermos o Futuro que um dia será outro “Quase”. Nossas vidas são sucessões de “quases”.
Algumas vezes ocorrem inversões estranhas e acontece de a luz do crepúsculo ser “quase” a luz da aurora ou vice-versa e ficamos confusos. “Quase” confusos.

Murilo Pagani - 24/04/2010

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