Março

Março é um mês impossível.

Em Março o Sol em Peixes.
Sol submerso no reino de Netuno.
Sol nebuloso e aquoso, sem intensidades, com luz diluída no abissal.
Sol vapor. Mor-março.

Em Março, cujo nome não me propõe nenhum significado, caio em águas profundas.

Penso que Março tenha algo haver com "um" marco, com mau arco, com umbral, com passagem estática, estreita, gigantesca, está ali para ser passada por baixo, nunca por cima, porque Março é profundo embora raso.
Mês de águas abismais que se levantam na linha do horizonte, que os olhos não alcançam, e avançam sobre a orla numa onda com ressaca de existir desejando se extinguir e extinguir, por vingança, o Verão das areias. Mês de águas quentes que caem diretamente do Sol, encharcado numa confusão de ser água ou fogo. Águas indecisas, incapazes em si mesmas, súbitas. Águas enchentes, “esvaziantes”. Enxurradas de lamas, vazantes de mágoas e medos.

Ou Março é "o" marco? Um ponto final que se interpõe no início do ano em dúvida de ser o último ou o primeiro mês do ano astrológico ou o terceiro mês no ano gregoriano. Nem Inverno nem Primavera para os povos do norte, nem Verão nem Outono para os do sul.
Mês achatado ou queloide? Ferida por curar ou escara? Alma exposta ou recolhida em cisma? Mês de desamparos revelados, velados, desvelados em vigílias. Sombra inquieta. Insone. Velório. Noturno sem ambição de alvorada. Jejum compulsório dos sentidos. Quaresma, esta flor roxa e enlutada exilada da Primavera. Procissão ondulante descendo ladeiras e ladeiras em curvas. Sinos mudos no alto da paróquia. Mês de limites extremos, beira de abismo com passo incerto e olhos baços.

Foi num mês de Março que raspei meus cabelos para sempre. Para por fim e para recomeçar. Tornei-me órfão e unigênito telúrico expatriado em minha Terra, sem salvo-conduto. Em marços me deserdei. Abri mãos e desisti, e também as lavei reconhecendo minha incapacidade em continuar sendo eu mesmo sem me violentar e aviltar quem sou me perguntando quem sou com pouca esperança de resposta. Em marços salguei e comi de minha carne e a vomitei e a evacuei exaurido de mim, e ceguei meus olhos e cortei minha língua e ensurdeci meus ouvidos. Exortei meus Demônios para conferências de pactos de venda e troca e extinção de débitos da Alma. Em marços rasguei e queimei cartas, bilhetes, agendas e fotos. Exilei amigos. Bani ou matei rivais. Envenenei Amores e amantes com baba biliosa viscosa, fétida e pútrida. Refugiei-me de mim e do mundo. Em marços bati-me em guerra com inimigos invisíveis muito maiores que minha capacidade de imaginá-los para perder ou vencer conforme decidisse o Destino.

Março é um mês necessário.

Em marços de pálidas manhãs, como hoje, abri os olhos ao acordar, livre de mim mesmo e livre para mim mesmo num estranho paradoxo de Ser que só pertence a Março.

Murilo Pagani

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