Inferno Astral

19h16min.

“O dia foi ótimo!” pensava Frederico quando guardava os projetos que havia desenvolvido durante o dia. Mais um dia em que conseguiu cumprir suas metas propostas na véspera. Já há dois anos vinha se impondo esse exercício de metas e o que era um esforço no início agora fluía naturamente numa rotina bem equilibrada. Olhou pela janela do escritório no apartamento do décimo sétimo andar em que morava e viu o trânsito congestionado lá embaixo. Sorriu para si mesmo num misto de alívio por não fazer parte daquela turba e satisfação consigo mesmo por ter feito as escolhas certas sobre sua carreira. Free-lance, trabalhando em regime de “home-office”, com uma boa disciplina produtiva, podia dar-se ao luxo de simplesmente fechar a mesa de trabalho e relaxar.
Há três dias chovia insistentemente. Chuvas de rompante. Temporais de março. Hoje, sem chover, o céu azul no final da tarde ventava frio e Frederico sentiu o cheiro de outono. Ele sentia a mudança das estações na ponta do nariz.
Tomar um banho, preparar o jantar, a rotina de sempre, “o que tem na geladeira, fazer o que?”, talvez ligar para um amigo e saírem para comemorar – havia motivos para comemoração: completaria 49 anos em quinze dias; nas últimas vinte e quatro horas recebeu duas ligações com propostas excelentes de trabalho e outra que poderia demandar alguma contrariedade, mas não de todo, ruim. As duas primeiras eram bem vantajosa e a terceira é a que gerava certa contração no peito e estomago por envolver sua ex-mulher.
Desde a separação ele evitava confrontos, cedeu às exigências dela, abriu mão dos bens comuns, pagava a pensão devida e agora ela propunha uma espécie de aproximação, queria “conversar”. No telefone, Raquel não havia especificado nada, ao contrário, parecia mais confusa que de costume, vacilante, mas... Não marcaram o encontro. Frederico se desvencilhou como de costume, Raquel acatou esperar. Eles haviam vivido muita coisa juntos, mas o sentimento desgastou, virou cobrança, ausência, sufocamento, divergência de interesses. Frederico trabalhava demais, Raquel queria viajar.
Nada na geladeira nem no freezer. “Amanhã tenho que fazer compras, esse apartamento está parecendo uma cripta.” Pensou em pedir uma pizza, “de novo”, enquanto caminhava para o banheiro. “Amanhã vou enviar os orçamentos para C., ligar para M. sobre o projeto novo, finalizar e entregar esse último.” Abriu a ducha. Hum, hum, hum... Cantarolava no banho “My Funny Valentine” pensando em Camila. Ou seria em Raquel? “Essa agora, conversar, o que ela quer?” Camila estava em São Paulo a trabalho por uma semana. “Marco com Raquel para quinta-feira?” Hum, hum, hum... “Raquel, não custa nada conversar. Será que consigo falar com Paulo hoje?”
Frederico queria conversar com alguém que soubesse ouvir. Estava cansado das opiniões e conselhos e julgamentos e interesses. Queria falar com alguém isento capaz de ouvir sem ser seu analista que era pago para ouvir. Paulo era seu melhor amigo de décadas, o único, e sabia tudo de sua vida. Sabia de Raquel e de Camila. Incentivava discretamente o relacionamento com Camila apesar da diferença de idade. “Ela te rejuvenesce, cara!” “Nada me rejuvenesce a beira dos 50 anos.” Rebateu na mesa do bar. “Cin-quen-ta, meia década. É muita coisa. Ano que vem. Na verdade já estou vivendo os cinquenta.” Fechou a ducha. “Sem filhos, não plantei uma árvore sequer, não publiquei aquela droga de livro. Onde está o manuscrito? Onde a coragem de enviar para uma editora?” Frederico pensou que seria bom ter publicado um livro e ter tido filhos. “Um já seria bom. Talvez já fosse avô, afinal, já sou tio-avô.” Sentiu um arrepio. O outono entrando pelas janelas abertas do apartamento.

20h35min. O trânsito ainda lá embaixo.

No quarto pegou o telefone. Paulo não atendeu. “Já deve estar na badalação, em plena terça-feira! Como ele consegue? Eu não tenho mais esse pique.” Novo telefonema para a pizzaria. Desistiu. “Pizza de novo, não. Ah! A lista de compras!” Hum, hum, hum... Camila. Caminhou nu até a sala. “Droga! Não peguei nenhum DVD.” Até a cozinha. “Dona Dalva vem amanhã para a faxina, vou pedir para ela deixar alguma coisa pronta na geladeira.” Até o escritório. “Os orçamentos para C. não, amanhã. Onde guardei o manuscrito?” Hum, hum, hum... Procurando. Raquel. “Por que não tivemos filhos? Por que ela quer conversar agora depois de três anos? O orçamento. Não. As metas, por hoje chega de trabalho. Onde Paulo se meteu?” Vagando pelo apartamento. Hum, hum, hum... “My funny Valentine, sweet comic Valentine, you make me smile with my heart…” Até o quarto. “My heart, sweet comic heart…” Em frente ao espelho. “Cinquenta, até que estou bem para um cinquentão.” Camila. “Ela chega no domingo. A que horas mesmo? Será que ela vem direto para cá? O que ela viu em mim? Emagreci. Essa barriga. Preciso fazer ginástica. Um filho, mantém a gente jovem, exercita. Camila tem idade para ser minha filha.” – pensou rindo. “Amanhã vou ligar para Raquel”. De volta à cozinha, na geladeira se certificando. “Nada, droga!” De volta à sala, olhando no relógio. “A locadora já está fechada.” Pegou o telefone, nova ligação e nada. “Esse puto desse Paulo, deve estar comendo outra cliente.” De volta ao escritório anotou na agenda. Orçamentos para C., ligar para M., compras de supermercado, Dona Dalva, ligar para Raquel, ligar para Camila, finalizar e entregar o projeto. “Onde pus o manuscrito? O que Raquel está querendo conversar? Está esfriando. Cinquenta. Não vou comemorar. Idade idiota. Camila. Tem idade para ser minha filha. Filha, filho. Funny. Pizza de novo? Novos projetos. Não tenho mais esse pique. Avô, tio-avô. Paulo.” Pegou o telefone. Largou o telefone. “Amanhã tudo de novo. Raquel, Camila, Dona Dalva, orçamentos, trabalho, novos projetos, supermercado, Paulo, cinquenta. Amanhã. O que tem amanhã?”

22h40min. Silêncio lá fora.

“O que fiz nesses cinquenta anos que tenha valido a pena? Por que essa sensação de frustração? O que realizei dos sonhos que tive há trinta anos? Por que sinto que minha vida foi conduzida não por mim mesmo, mas por outras forças indistinguíveis? Quantos manuscritos arquivados sabe onde? Por que um filho ficou fora dos meus planos quando não haviam sequer planos estabelecidos e depois quando começaram a existir um filho não foi uma opção? Por que fracassei com Raquel? Por que falharei com Camila? Onde estão meus irmãos e meus sobrinhos e sobrinhos-netos? Por que não tenho outro telefone de amigo que não seja o Paulo? Para que se vive uma vida que não resulta em nada? Sem livros, sem filhos, sem árvore? Por que uma existência insípida? Quantos mais nessa cidade? A mesma mediocridade? Espectador de um mundo também medíocre. Meio século de nada significativo. Nem meu trabalho tem relevância. Por que quinze anos de terapia se todas as angustias continuam aqui sem saída? De que adiantaram todos esses dias nesses cinquenta anos? Não sei nada de mim exceto meu nome. O que sei eu? O que sei desse outono que começa na ponta do meu nariz? O que será depois no inverno? O que sei desse vento frio que varre o apartamento?”

23h50min.

Frederico tomou duas das capsulas bicolores que o médico receitou. Deitou nu sobre as cobertas com as janelas do apartamento abertas. Olhos abertos, no escuro, para a luz da cidade que reverberava no teto, ainda teve um último pensamento antes de a droga fazer efeito. “Amanhã, amanhã...”

Murilo Pagani

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