Deus Pagão

Domingo passado, nove horas da amanhã, voltando para casa.

Sob o espanto de uma manhã luminosa, levando em conta a borrasca da madrugada, caminhei ao longo de toda a feira de artesanato sem me aventurar nos seus tumultuados intestinos repletos de ávidos consumidores de falsos “hand made”. Estava de espírito e corpo leves observando o sol, a manhã, as cores, os cheiros e os hábitos e modos dos belorizontinos que levantam e saem cedo no domingo fingindo que vão para a praia; livre dos pensamentos tortuosos da última semana e com vislumbres premonitórios de que a seguinte seria de luz como prometia o domingo. Parei numa padaria fora do circuito, tomei um cafezinho e acendi um cigarro enquanto me dirigia ao ponto do ônibus que àquela hora não estava repleto.
- Me arruma um cigarro? – chamou, de longe, um sujeito com voz trôpega sentado no banco da praça.
Tendo, por respeito e cumplicidade ao vício urgente, o hábito de não recusar cigarros a ninguém que me aborde, fui em direção ao homem. Seu aspecto não era dos mais confiáveis e, não fosse a manhã radiosa e meu estado de humor, provavelmente fingiria a rotineira surdez civilizada urbana dos que ignoram os passantes. Ele deveria ter a minha idade aparentando o dobro, mal vestido, embriagado, sujo de dias. Mas... A manhã linda... A demora programada do ônibus... Meu próprio cigarro com tempo... Minha natural disposição para acolhimento de desamparados, idosos, crianças e loucos... Ao me aproximar ouço:
- Vejo que você é educado, você vem até aqui enquanto eu é que deveria ir até você já que eu é que estou pedindo.
- Você não consegue chegar até mim.
Essa frase dita assim de chofre, saiu da minha boca e antes que chegasse aos meus próprios ouvidos já causara insulto a mim mesmo estragando irremediavelmente o resto do dia. Quem dissera isso? De onde ela saíra? De que sombria caverna ela ecoava para fora nesse dia ensolarado? Por que esse soco se eu estendia o cigarro com mão solidária? Era óbvio que ele não poderia se levantar tal à embriaguês, mas havia na frase algo além desse óbvio. Havia a voz de um Deus. Um Deus obscuro, arrogante, prepotente, inclemente, um avesso.
- Obrigado. – Com voz trôpega.
Obrigado? Ele me agradece o insulto!
- Senta aí. Quer que eu fale sobre seu destino?
Como assim? Meu destino? O que ele sabe sobre meu destino? Por que sei que essa conversa vai me fazer perder o ônibus?
- Está molhado. – Respondi já procurando um lugar seco.
Porque eu devia a ele um pedido de desculpa pelo insulto que ele não ouvira? Por que sabia que ele me diria coisas que “devo” ouvir?
- Aqui não. Senta. Eu tenho um poder. Eu tenho cartas. Você escolhe. Tira sete. Não me paga nada. – Com sorriso de quem sabe tudo o que o álcool pode ensinar.
- Nada? – Tudo tem um preço.
- Você não vai me ver de novo. Me paga o que achar justo.
E se o que ele me disser salvar minha vida? E se eu ficar milionário amanhã quais as chances de vê-lo novamente? E se ele me encontrar com o poder que tem? E se ele “sabe” algo do meu destino e me chantagear?
- Quer um trago? – Me indicando um copo ao lado.
- Não, obrigado.
- Escolhe. Escolhe com atenção. Qual seu nome?
Ele não sabe meu nome, duvido. Digo ou minto um nome? Se mentir um nome o destino que ele vai-me dizer não será meu, mas da outra pessoa que estou mentindo. E se ele tem o poder vai saber que estou mentindo e então mentirá sobre o destino do nome mentido.
- Murilo.
- Escolhe.
Escolhi. Escolhi com concentração. A sorte estava lançada. Nas sete cartas amassadas do Tarô Cigano que ele mal articulava com os dedos sujos estava meu destino. Ali naquelas mãos meu destino oscilava da direita para a esquerda até que ele as virou.

Quando criança fui uma criança insuportável. Um chato arrogante, um pernóstico irritante, dotado de uma sabedoria infinita e uma perspicácia cruel sobre as feridas da alma humana. Sobre qualquer situação eu possuía uma opinião formada e estava disposto a defendê-la e a morrer por ela usando todos os argumentos disponíveis à minha limitada linguagem. Eu usava a palavra como espada e feria sem remorsos. Até hoje não sei de onde me vinham tantas certezas. Sem dúvida eu não fui uma criança comum. Inteligente demais, sensível demais, atento demais e impositivo demais. Lembro-me de escutar, além do conveniente para uma criança, as conversas dos adultos e estabelecer relações de causa e efeito e juízos de certo e errado que brotavam de mim com indubitável convicção. Minhas conclusões eram implacáveis, inclementes, irrevogáveis. Concordar ou discordar de determinado tema não estava sujeito a qualquer regra exterior, mas a uma íntima formulação de códigos estritamente pessoais. Eu fora dotado da Liberdade. Meu reduzido universo exterior deveria sucumbir ao meu infinito Universo interior. Mesmo meus pais estavam sob a avaliação e o julgamento constantes e cedo estabeleci a impossibilidade de um diálogo produtivo uma vez que eles não poderiam me alcançar. Eu fora dotado da Solidão dos deuses. “Vou lhe arrancar esse topete no tapa!”, “Pare de olhar desse jeito!”, “Abaixe a cabeça quando eu falar com você!”, “Abaixe o nariz!”, “Cale a boca e não me responda!”, “Tire esses ares da cara!”, “Atrevido!”, “Vou lhe ensinar a dobrar essa espinha!”, “Vou lhe arrancar essa língua!”, “Cuidado, senão faço você engolir esses dentes!”, foram frases constantes na minha infância. As surras por insubordinação, os castigos para que eu “aprendesse” não me vergavam, ao contrário, reforçavam intimamente minhas convicções de que eles não eram capazes de argumentar e usavam a violência para me calar. Eu era um Deus pagão caçado pela Santa Inquisição. Minha voz, calada pela força, ecoava dentro de mim dizendo: “Eles estão errados e ouviram o que mereciam.”, “A Verdade dói, em você, mas neles também.”, “Seja forte, você aguenta, você aguenta tudo.”, “Você está certo.”. Intimamente eu me agigantava e me elevava às montanhas mais altas, aos picos mais altos, às cavernas mais isoladas e geladas e do meu trono de pedra eu observava e julgava as gentes lá embaixo. Eu não cedia. Eu suportava tudo. Eu suportava tudo e todos. Eu suportaria tudo e todos para sempre, como também a inevitabilidade do que me fora conferido pelo Destino.

O sujeito não disse nada de coerente. Ele não tinha O Poder. Ele falhou comigo. Ele não chegou até mim. Dei a ele cinco reais pela consulta. Meu ônibus dobrou a esquina e me despedi. Antes que eu subisse ao ônibus ele ainda gritou:
- Não se esqueça de quem você é!
Uma voz etílica vinda do vale lá embaixo me alcançou.

Murilo Pagani

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