Ânfora de Pandora

Não entendam mal. Eu amo meu corpo.
Não é uma questão de desamor, ou mau-amor, ou falta de amor por ele – embora eu não quisesse ter nascido nele ou em qualquer outro. Eu o respeito, admiro, cuido, entendo e até me submeto a ele. Eu o amo. É o que tenho e me tolera.
A questão é um estranhamento, talvez. É uma “coisa” que, a mim, parece não estar certa. Quando olho no espelho a imagem que me devolve o olhar não sou eu. É sempre um estranho de quem, de dentro, me olho e cumprimento: – Bom dia!
Não é o caso de ele ser inválido no sentido convencional de corpo humano ou não ser saudável. É válido e competente, funciona cada uma de suas partes, faz tudo direito. Uma cabeça com todos os sentidos agrupados e alertados com um cérebro dentro fazendo o que pode. Um tronco com vísceras automatizadas e bem sintonizadas umas com as outras. Dois braços fortes com mãos nas extremidades que trabalham arduamente. Um genital que além de cumprir suas necessárias funções acha de me proporcionar prazer. Um par de pernas com pés na base que sustentam e caminham para espanto da engenharia. É um corpo bom e forte. Já suportou muito de mim e do mundo, por mim e pelo mundo e ninguém sabe o quanto. É um milagre! Como qualquer outro corpo.
Nem é o caso de ser feio. O Feio e o Belo possuem seus próprios critérios relativizados de harmonia e o Homem é esse estúpido animal agrilhoado aos rótulos quase sempre descartáveis de tempos em tempos. Então ele não é feio nem belo na acepção vulgar do olhar. Não é um Praxíteles, está longe de um Michelangelo e, ainda bem, não é um Giacometti. É um corpo no espaço que, com visão atenta e mente bem aberta, poderia ser comparado ao “Urinol” de Duchamp. Um corpo/matéria, existente.
Penso que é certa incompatibilidade entre a forma e o conteúdo. Possivelmente uma incongruência entre o que é e o que poderia ser. Um desvio do caminho que não chega a lugar algum ou que vai dar num muro sem passagens. Provavelmente a palavra procurada seja limite. Um corpo é uma forma limitada. Qualquer corpo é uma forma limitada contendo o que nela não se contém.
Não sei explicar.
Há nele coisas, ou antes, não há nele coisas que me causam incomodo. Por exemplo:
Por que não estica? Por que não expande e agiganta titânica cordilheira? Himalaia ou Andes. Por que não retrai até cair numa fresta de assoalho? Desaparecendo entre uma tábua e outra para, encontrado mil anos à frente por arqueólogos, causar estranheza e admiração. Por que não esparrama poça clara e limpa, espelho de água sobre areia dura? Miragem no deserto de Atacama. Por que não afunda oceano? Fossa no Pacífico Sul morada de seres luminescentes. Por que não voa? Éolo insensato e temperamental.
Há outras que me impacientam:
Por que não vê para além dos olhos o que a mente adivinha? Por que ouve o que não quer com mais atenção que o que deveria ouvir? Por que fala quando deve calar e vice-versa? Por que recolhe o afago mais vezes que desfere golpes? Por que agrilhoa todos os sentimentos bons ou maus e os transforma em tumores malignos? Por que o pensamento é “incapturável” pela palavra que sai trôpega tentando conciliação? Por que seu rastro é fundo, sujo e não leve e luminoso? Por que o imaterial que há nele não o extrapola?
Há outras tantas coisas ainda que me atordoam:
Por que essa forma limite quando há outras tantas possibilidades? Por que o dentro é mais vasto que o de fora e é tão invisível para nós mesmos? Por que não está onde deveria estar quando era, é ou será necessário? Por que o tempo o atravessa e não é capturado nas suas redes de veias, vasos, nervos, músculos e tecidos? Por que ama de viés no avesso do amor? Por que deseja e desapega há um só tempo e depois fica oco de si? Por que se despedaça e uma vez reconstituído esquece a dor? Por que o cilício à seda?
Por que não rebenta em fúria, grito, lágrimas, abscesso, bile negra, onda, tempestade e vendaval?
Por que não rebenta em complacência, gargalhada, saliva, orgasmo, nascente, flor e fruto?
Por que não rebenta, ovo primordial, em Eros “quadricefálico” impondo-se o desaparecimento?
Por que essa ânfora de Pandora? Por que não rebenta a tampa?

Murilo Pagani

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