quinta-feira, 18 de março de 2010

Inferno Astral

19h16min.

“O dia foi ótimo!” pensava Frederico quando guardava os projetos que havia desenvolvido durante o dia. Mais um dia em que conseguiu cumprir suas metas propostas na véspera. Já há dois anos vinha se impondo esse exercício de metas e o que era um esforço no início agora fluía naturamente numa rotina bem equilibrada. Olhou pela janela do escritório no apartamento do décimo sétimo andar em que morava e viu o trânsito congestionado lá embaixo. Sorriu para si mesmo num misto de alívio por não fazer parte daquela turba e satisfação consigo mesmo por ter feito as escolhas certas sobre sua carreira. Free-lance, trabalhando em regime de “home-office”, com uma boa disciplina produtiva, podia dar-se ao luxo de simplesmente fechar a mesa de trabalho e relaxar.
Há três dias chovia insistentemente. Chuvas de rompante. Temporais de março. Hoje, sem chover, o céu azul no final da tarde ventava frio e Frederico sentiu o cheiro de outono. Ele sentia a mudança das estações na ponta do nariz.
Tomar um banho, preparar o jantar, a rotina de sempre, “o que tem na geladeira, fazer o que?”, talvez ligar para um amigo e saírem para comemorar – havia motivos para comemoração: completaria 49 anos em quinze dias; nas últimas vinte e quatro horas recebeu duas ligações com propostas excelentes de trabalho e outra que poderia demandar alguma contrariedade, mas não de todo, ruim. As duas primeiras eram bem vantajosa e a terceira é a que gerava certa contração no peito e estomago por envolver sua ex-mulher.
Desde a separação ele evitava confrontos, cedeu às exigências dela, abriu mão dos bens comuns, pagava a pensão devida e agora ela propunha uma espécie de aproximação, queria “conversar”. No telefone, Raquel não havia especificado nada, ao contrário, parecia mais confusa que de costume, vacilante, mas... Não marcaram o encontro. Frederico se desvencilhou como de costume, Raquel acatou esperar. Eles haviam vivido muita coisa juntos, mas o sentimento desgastou, virou cobrança, ausência, sufocamento, divergência de interesses. Frederico trabalhava demais, Raquel queria viajar.
Nada na geladeira nem no freezer. “Amanhã tenho que fazer compras, esse apartamento está parecendo uma cripta.” Pensou em pedir uma pizza, “de novo”, enquanto caminhava para o banheiro. “Amanhã vou enviar os orçamentos para C., ligar para M. sobre o projeto novo, finalizar e entregar esse último.” Abriu a ducha. Hum, hum, hum... Cantarolava no banho “My Funny Valentine” pensando em Camila. Ou seria em Raquel? “Essa agora, conversar, o que ela quer?” Camila estava em São Paulo a trabalho por uma semana. “Marco com Raquel para quinta-feira?” Hum, hum, hum... “Raquel, não custa nada conversar. Será que consigo falar com Paulo hoje?”
Frederico queria conversar com alguém que soubesse ouvir. Estava cansado das opiniões e conselhos e julgamentos e interesses. Queria falar com alguém isento capaz de ouvir sem ser seu analista que era pago para ouvir. Paulo era seu melhor amigo de décadas, o único, e sabia tudo de sua vida. Sabia de Raquel e de Camila. Incentivava discretamente o relacionamento com Camila apesar da diferença de idade. “Ela te rejuvenesce, cara!” “Nada me rejuvenesce a beira dos 50 anos.” Rebateu na mesa do bar. “Cin-quen-ta, meia década. É muita coisa. Ano que vem. Na verdade já estou vivendo os cinquenta.” Fechou a ducha. “Sem filhos, não plantei uma árvore sequer, não publiquei aquela droga de livro. Onde está o manuscrito? Onde a coragem de enviar para uma editora?” Frederico pensou que seria bom ter publicado um livro e ter tido filhos. “Um já seria bom. Talvez já fosse avô, afinal, já sou tio-avô.” Sentiu um arrepio. O outono entrando pelas janelas abertas do apartamento.

20h35min. O trânsito ainda lá embaixo.

No quarto pegou o telefone. Paulo não atendeu. “Já deve estar na badalação, em plena terça-feira! Como ele consegue? Eu não tenho mais esse pique.” Novo telefonema para a pizzaria. Desistiu. “Pizza de novo, não. Ah! A lista de compras!” Hum, hum, hum... Camila. Caminhou nu até a sala. “Droga! Não peguei nenhum DVD.” Até a cozinha. “Dona Dalva vem amanhã para a faxina, vou pedir para ela deixar alguma coisa pronta na geladeira.” Até o escritório. “Os orçamentos para C. não, amanhã. Onde guardei o manuscrito?” Hum, hum, hum... Procurando. Raquel. “Por que não tivemos filhos? Por que ela quer conversar agora depois de três anos? O orçamento. Não. As metas, por hoje chega de trabalho. Onde Paulo se meteu?” Vagando pelo apartamento. Hum, hum, hum... “My funny Valentine, sweet comic Valentine, you make me smile with my heart…” Até o quarto. “My heart, sweet comic heart…” Em frente ao espelho. “Cinquenta, até que estou bem para um cinquentão.” Camila. “Ela chega no domingo. A que horas mesmo? Será que ela vem direto para cá? O que ela viu em mim? Emagreci. Essa barriga. Preciso fazer ginástica. Um filho, mantém a gente jovem, exercita. Camila tem idade para ser minha filha.” – pensou rindo. “Amanhã vou ligar para Raquel”. De volta à cozinha, na geladeira se certificando. “Nada, droga!” De volta à sala, olhando no relógio. “A locadora já está fechada.” Pegou o telefone, nova ligação e nada. “Esse puto desse Paulo, deve estar comendo outra cliente.” De volta ao escritório anotou na agenda. Orçamentos para C., ligar para M., compras de supermercado, Dona Dalva, ligar para Raquel, ligar para Camila, finalizar e entregar o projeto. “Onde pus o manuscrito? O que Raquel está querendo conversar? Está esfriando. Cinquenta. Não vou comemorar. Idade idiota. Camila. Tem idade para ser minha filha. Filha, filho. Funny. Pizza de novo? Novos projetos. Não tenho mais esse pique. Avô, tio-avô. Paulo.” Pegou o telefone. Largou o telefone. “Amanhã tudo de novo. Raquel, Camila, Dona Dalva, orçamentos, trabalho, novos projetos, supermercado, Paulo, cinquenta. Amanhã. O que tem amanhã?”

22h40min. Silêncio lá fora.

“O que fiz nesses cinquenta anos que tenha valido a pena? Por que essa sensação de frustração? O que realizei dos sonhos que tive há trinta anos? Por que sinto que minha vida foi conduzida não por mim mesmo, mas por outras forças indistinguíveis? Quantos manuscritos arquivados sabe onde? Por que um filho ficou fora dos meus planos quando não haviam sequer planos estabelecidos e depois quando começaram a existir um filho não foi uma opção? Por que fracassei com Raquel? Por que falharei com Camila? Onde estão meus irmãos e meus sobrinhos e sobrinhos-netos? Por que não tenho outro telefone de amigo que não seja o Paulo? Para que se vive uma vida que não resulta em nada? Sem livros, sem filhos, sem árvore? Por que uma existência insípida? Quantos mais nessa cidade? A mesma mediocridade? Espectador de um mundo também medíocre. Meio século de nada significativo. Nem meu trabalho tem relevância. Por que quinze anos de terapia se todas as angustias continuam aqui sem saída? De que adiantaram todos esses dias nesses cinquenta anos? Não sei nada de mim exceto meu nome. O que sei eu? O que sei desse outono que começa na ponta do meu nariz? O que será depois no inverno? O que sei desse vento frio que varre o apartamento?”

23h50min.

Frederico tomou duas das capsulas bicolores que o médico receitou. Deitou nu sobre as cobertas com as janelas do apartamento abertas. Olhos abertos, no escuro, para a luz da cidade que reverberava no teto, ainda teve um último pensamento antes de a droga fazer efeito. “Amanhã, amanhã...”

Murilo Pagani

sexta-feira, 12 de março de 2010

Toda Sexta Feira

Para fechar uma semana com muito axé Cheiro abraço.


Adriana Calcanhotto por Belô Velloso

quinta-feira, 11 de março de 2010

Anúncio Classificado

Procura-se por podólogo com referência,
cuidadoso e vasta experiência em calos.
Boa remuneração. Horário integral.
É que em meus sapatos doem-me dois enormes, até batizados.
Um eu chamo de Vida e o outro de Viver.
Marcar entrevista com Murilo.

Murilo Pagani

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ânfora de Pandora

Não entendam mal. Eu amo meu corpo.
Não é uma questão de desamor, ou mau-amor, ou falta de amor por ele – embora eu não quisesse ter nascido nele ou em qualquer outro. Eu o respeito, admiro, cuido, entendo e até me submeto a ele. Eu o amo. É o que tenho e me tolera.
A questão é um estranhamento, talvez. É uma “coisa” que, a mim, parece não estar certa. Quando olho no espelho a imagem que me devolve o olhar não sou eu. É sempre um estranho de quem, de dentro, me olho e cumprimento: – Bom dia!
Não é o caso de ele ser inválido no sentido convencional de corpo humano ou não ser saudável. É válido e competente, funciona cada uma de suas partes, faz tudo direito. Uma cabeça com todos os sentidos agrupados e alertados com um cérebro dentro fazendo o que pode. Um tronco com vísceras automatizadas e bem sintonizadas umas com as outras. Dois braços fortes com mãos nas extremidades que trabalham arduamente. Um genital que além de cumprir suas necessárias funções acha de me proporcionar prazer. Um par de pernas com pés na base que sustentam e caminham para espanto da engenharia. É um corpo bom e forte. Já suportou muito de mim e do mundo, por mim e pelo mundo e ninguém sabe o quanto. É um milagre! Como qualquer outro corpo.
Nem é o caso de ser feio. O Feio e o Belo possuem seus próprios critérios relativizados de harmonia e o Homem é esse estúpido animal agrilhoado aos rótulos quase sempre descartáveis de tempos em tempos. Então ele não é feio nem belo na acepção vulgar do olhar. Não é um Praxíteles, está longe de um Michelangelo e, ainda bem, não é um Giacometti. É um corpo no espaço que, com visão atenta e mente bem aberta, poderia ser comparado ao “Urinol” de Duchamp. Um corpo/matéria, existente.
Penso que é certa incompatibilidade entre a forma e o conteúdo. Possivelmente uma incongruência entre o que é e o que poderia ser. Um desvio do caminho que não chega a lugar algum ou que vai dar num muro sem passagens. Provavelmente a palavra procurada seja limite. Um corpo é uma forma limitada. Qualquer corpo é uma forma limitada contendo o que nela não se contém.
Não sei explicar.
Há nele coisas, ou antes, não há nele coisas que me causam incomodo. Por exemplo:
Por que não estica? Por que não expande e agiganta titânica cordilheira? Himalaia ou Andes. Por que não retrai até cair numa fresta de assoalho? Desaparecendo entre uma tábua e outra para, encontrado mil anos à frente por arqueólogos, causar estranheza e admiração. Por que não esparrama poça clara e limpa, espelho de água sobre areia dura? Miragem no deserto de Atacama. Por que não afunda oceano? Fossa no Pacífico Sul morada de seres luminescentes. Por que não voa? Éolo insensato e temperamental.
Há outras que me impacientam:
Por que não vê para além dos olhos o que a mente adivinha? Por que ouve o que não quer com mais atenção que o que deveria ouvir? Por que fala quando deve calar e vice-versa? Por que recolhe o afago mais vezes que desfere golpes? Por que agrilhoa todos os sentimentos bons ou maus e os transforma em tumores malignos? Por que o pensamento é “incapturável” pela palavra que sai trôpega tentando conciliação? Por que seu rastro é fundo, sujo e não leve e luminoso? Por que o imaterial que há nele não o extrapola?
Há outras tantas coisas ainda que me atordoam:
Por que essa forma limite quando há outras tantas possibilidades? Por que o dentro é mais vasto que o de fora e é tão invisível para nós mesmos? Por que não está onde deveria estar quando era, é ou será necessário? Por que o tempo o atravessa e não é capturado nas suas redes de veias, vasos, nervos, músculos e tecidos? Por que ama de viés no avesso do amor? Por que deseja e desapega há um só tempo e depois fica oco de si? Por que se despedaça e uma vez reconstituído esquece a dor? Por que o cilício à seda?
Por que não rebenta em fúria, grito, lágrimas, abscesso, bile negra, onda, tempestade e vendaval?
Por que não rebenta em complacência, gargalhada, saliva, orgasmo, nascente, flor e fruto?
Por que não rebenta, ovo primordial, em Eros “quadricefálico” impondo-se o desaparecimento?
Por que essa ânfora de Pandora? Por que não rebenta a tampa?

Murilo Pagani

terça-feira, 9 de março de 2010

Deus Pagão

Domingo passado, nove horas da amanhã, voltando para casa.

Sob o espanto de uma manhã luminosa, levando em conta a borrasca da madrugada, caminhei ao longo de toda a feira de artesanato sem me aventurar nos seus tumultuados intestinos repletos de ávidos consumidores de falsos “hand made”. Estava de espírito e corpo leves observando o sol, a manhã, as cores, os cheiros e os hábitos e modos dos belorizontinos que levantam e saem cedo no domingo fingindo que vão para a praia; livre dos pensamentos tortuosos da última semana e com vislumbres premonitórios de que a seguinte seria de luz como prometia o domingo. Parei numa padaria fora do circuito, tomei um cafezinho e acendi um cigarro enquanto me dirigia ao ponto do ônibus que àquela hora não estava repleto.
- Me arruma um cigarro? – chamou, de longe, um sujeito com voz trôpega sentado no banco da praça.
Tendo, por respeito e cumplicidade ao vício urgente, o hábito de não recusar cigarros a ninguém que me aborde, fui em direção ao homem. Seu aspecto não era dos mais confiáveis e, não fosse a manhã radiosa e meu estado de humor, provavelmente fingiria a rotineira surdez civilizada urbana dos que ignoram os passantes. Ele deveria ter a minha idade aparentando o dobro, mal vestido, embriagado, sujo de dias. Mas... A manhã linda... A demora programada do ônibus... Meu próprio cigarro com tempo... Minha natural disposição para acolhimento de desamparados, idosos, crianças e loucos... Ao me aproximar ouço:
- Vejo que você é educado, você vem até aqui enquanto eu é que deveria ir até você já que eu é que estou pedindo.
- Você não consegue chegar até mim.
Essa frase dita assim de chofre, saiu da minha boca e antes que chegasse aos meus próprios ouvidos já causara insulto a mim mesmo estragando irremediavelmente o resto do dia. Quem dissera isso? De onde ela saíra? De que sombria caverna ela ecoava para fora nesse dia ensolarado? Por que esse soco se eu estendia o cigarro com mão solidária? Era óbvio que ele não poderia se levantar tal à embriaguês, mas havia na frase algo além desse óbvio. Havia a voz de um Deus. Um Deus obscuro, arrogante, prepotente, inclemente, um avesso.
- Obrigado. – Com voz trôpega.
Obrigado? Ele me agradece o insulto!
- Senta aí. Quer que eu fale sobre seu destino?
Como assim? Meu destino? O que ele sabe sobre meu destino? Por que sei que essa conversa vai me fazer perder o ônibus?
- Está molhado. – Respondi já procurando um lugar seco.
Porque eu devia a ele um pedido de desculpa pelo insulto que ele não ouvira? Por que sabia que ele me diria coisas que “devo” ouvir?
- Aqui não. Senta. Eu tenho um poder. Eu tenho cartas. Você escolhe. Tira sete. Não me paga nada. – Com sorriso de quem sabe tudo o que o álcool pode ensinar.
- Nada? – Tudo tem um preço.
- Você não vai me ver de novo. Me paga o que achar justo.
E se o que ele me disser salvar minha vida? E se eu ficar milionário amanhã quais as chances de vê-lo novamente? E se ele me encontrar com o poder que tem? E se ele “sabe” algo do meu destino e me chantagear?
- Quer um trago? – Me indicando um copo ao lado.
- Não, obrigado.
- Escolhe. Escolhe com atenção. Qual seu nome?
Ele não sabe meu nome, duvido. Digo ou minto um nome? Se mentir um nome o destino que ele vai-me dizer não será meu, mas da outra pessoa que estou mentindo. E se ele tem o poder vai saber que estou mentindo e então mentirá sobre o destino do nome mentido.
- Murilo.
- Escolhe.
Escolhi. Escolhi com concentração. A sorte estava lançada. Nas sete cartas amassadas do Tarô Cigano que ele mal articulava com os dedos sujos estava meu destino. Ali naquelas mãos meu destino oscilava da direita para a esquerda até que ele as virou.

Quando criança fui uma criança insuportável. Um chato arrogante, um pernóstico irritante, dotado de uma sabedoria infinita e uma perspicácia cruel sobre as feridas da alma humana. Sobre qualquer situação eu possuía uma opinião formada e estava disposto a defendê-la e a morrer por ela usando todos os argumentos disponíveis à minha limitada linguagem. Eu usava a palavra como espada e feria sem remorsos. Até hoje não sei de onde me vinham tantas certezas. Sem dúvida eu não fui uma criança comum. Inteligente demais, sensível demais, atento demais e impositivo demais. Lembro-me de escutar, além do conveniente para uma criança, as conversas dos adultos e estabelecer relações de causa e efeito e juízos de certo e errado que brotavam de mim com indubitável convicção. Minhas conclusões eram implacáveis, inclementes, irrevogáveis. Concordar ou discordar de determinado tema não estava sujeito a qualquer regra exterior, mas a uma íntima formulação de códigos estritamente pessoais. Eu fora dotado da Liberdade. Meu reduzido universo exterior deveria sucumbir ao meu infinito Universo interior. Mesmo meus pais estavam sob a avaliação e o julgamento constantes e cedo estabeleci a impossibilidade de um diálogo produtivo uma vez que eles não poderiam me alcançar. Eu fora dotado da Solidão dos deuses. “Vou lhe arrancar esse topete no tapa!”, “Pare de olhar desse jeito!”, “Abaixe a cabeça quando eu falar com você!”, “Abaixe o nariz!”, “Cale a boca e não me responda!”, “Tire esses ares da cara!”, “Atrevido!”, “Vou lhe ensinar a dobrar essa espinha!”, “Vou lhe arrancar essa língua!”, “Cuidado, senão faço você engolir esses dentes!”, foram frases constantes na minha infância. As surras por insubordinação, os castigos para que eu “aprendesse” não me vergavam, ao contrário, reforçavam intimamente minhas convicções de que eles não eram capazes de argumentar e usavam a violência para me calar. Eu era um Deus pagão caçado pela Santa Inquisição. Minha voz, calada pela força, ecoava dentro de mim dizendo: “Eles estão errados e ouviram o que mereciam.”, “A Verdade dói, em você, mas neles também.”, “Seja forte, você aguenta, você aguenta tudo.”, “Você está certo.”. Intimamente eu me agigantava e me elevava às montanhas mais altas, aos picos mais altos, às cavernas mais isoladas e geladas e do meu trono de pedra eu observava e julgava as gentes lá embaixo. Eu não cedia. Eu suportava tudo. Eu suportava tudo e todos. Eu suportaria tudo e todos para sempre, como também a inevitabilidade do que me fora conferido pelo Destino.

O sujeito não disse nada de coerente. Ele não tinha O Poder. Ele falhou comigo. Ele não chegou até mim. Dei a ele cinco reais pela consulta. Meu ônibus dobrou a esquina e me despedi. Antes que eu subisse ao ônibus ele ainda gritou:
- Não se esqueça de quem você é!
Uma voz etílica vinda do vale lá embaixo me alcançou.

Murilo Pagani

sábado, 6 de março de 2010

Março

Março é um mês impossível.

Em Março o Sol em Peixes.
Sol submerso no reino de Netuno.
Sol nebuloso e aquoso, sem intensidades, com luz diluída no abissal.
Sol vapor. Mor-março.

Em Março, cujo nome não me propõe nenhum significado, caio em águas profundas.

Penso que Março tenha algo haver com "um" marco, com mau arco, com umbral, com passagem estática, estreita, gigantesca, está ali para ser passada por baixo, nunca por cima, porque Março é profundo embora raso.
Mês de águas abismais que se levantam na linha do horizonte, que os olhos não alcançam, e avançam sobre a orla numa onda com ressaca de existir desejando se extinguir e extinguir, por vingança, o Verão das areias. Mês de águas quentes que caem diretamente do Sol, encharcado numa confusão de ser água ou fogo. Águas indecisas, incapazes em si mesmas, súbitas. Águas enchentes, “esvaziantes”. Enxurradas de lamas, vazantes de mágoas e medos.

Ou Março é "o" marco? Um ponto final que se interpõe no início do ano em dúvida de ser o último ou o primeiro mês do ano astrológico ou o terceiro mês no ano gregoriano. Nem Inverno nem Primavera para os povos do norte, nem Verão nem Outono para os do sul.
Mês achatado ou queloide? Ferida por curar ou escara? Alma exposta ou recolhida em cisma? Mês de desamparos revelados, velados, desvelados em vigílias. Sombra inquieta. Insone. Velório. Noturno sem ambição de alvorada. Jejum compulsório dos sentidos. Quaresma, esta flor roxa e enlutada exilada da Primavera. Procissão ondulante descendo ladeiras e ladeiras em curvas. Sinos mudos no alto da paróquia. Mês de limites extremos, beira de abismo com passo incerto e olhos baços.

Foi num mês de Março que raspei meus cabelos para sempre. Para por fim e para recomeçar. Tornei-me órfão e unigênito telúrico expatriado em minha Terra, sem salvo-conduto. Em marços me deserdei. Abri mãos e desisti, e também as lavei reconhecendo minha incapacidade em continuar sendo eu mesmo sem me violentar e aviltar quem sou me perguntando quem sou com pouca esperança de resposta. Em marços salguei e comi de minha carne e a vomitei e a evacuei exaurido de mim, e ceguei meus olhos e cortei minha língua e ensurdeci meus ouvidos. Exortei meus Demônios para conferências de pactos de venda e troca e extinção de débitos da Alma. Em marços rasguei e queimei cartas, bilhetes, agendas e fotos. Exilei amigos. Bani ou matei rivais. Envenenei Amores e amantes com baba biliosa viscosa, fétida e pútrida. Refugiei-me de mim e do mundo. Em marços bati-me em guerra com inimigos invisíveis muito maiores que minha capacidade de imaginá-los para perder ou vencer conforme decidisse o Destino.

Março é um mês necessário.

Em marços de pálidas manhãs, como hoje, abri os olhos ao acordar, livre de mim mesmo e livre para mim mesmo num estranho paradoxo de Ser que só pertence a Março.

Murilo Pagani

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...