quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Avaliação.

2010.
Este foi um ano singular.
Nem mais fácil nem mais difícil. Singular.
Em 2010 vivi mais do que poderia esperar.

Ano par com força mágica impar.
Ano de viver paradoxos.
Morri para renascer.
Barganhei com a Fortuna.
Conferenciei com meus Demônios.
Retive e deixei ir.
Lembrei e esqueci.
Comi pó e alcei voos.
Ajustei laços e desatei nós.
Completei o místico ciclo de sete vezes sete.
Fiz grandes descobertas sobre mim mesmo e sobre Tudo.
Aprendi grandes lições à custa de muitas lágrimas e muitos risos.
Abracei meu Destino incerto exercitando uma Fé maior que meus Medos.
Encontrei pessoas especiais com quem comunguei e outras, também especiais, com as quais não comunguei, mas que me mostraram que diante das diferenças nossas individualidades se fortalecem.
Esforcei-me por compreender o incompreensível e sei que não fui compreendido nas muitas atitudes que tomei para sobreviver às borrascas.
Atravessei noites, insone; tardes, angustiado; manhãs, aflito; para entender que tudo é vão na Dor; que a Liberdade não nos é outorgada, que o Tempo é um mestre implacável e generoso para quem quer aprender, que o Amor é a energia mais poderosa emanada do centro da Vida que há em cada um de nós, que a Iluminação se dá nas Trevas.
Despojei-me das muitas máscaras dos muitos personagens que criei para revelar-me, com espanto e reverência, a mim mesmo, na essência do que sou: Promessa.

O Sol se dirige ao Norte.
Sigo com Ele.
Que venha 2011! Estou pronto!

domingo, 26 de dezembro de 2010



Vertigem!
O Mundo gira rápido sob meus pés.
Aprumo a coluna
Respiro fundo
Giro com o Mundo...
Perplexo!!!


A perplexidade é um sentimento confuso em si mesmo.
Incômodo para alguns, aflitivo para outros.
Para mim sempre bem vindo mesmo quando diante de situações desagradáveis.

Explico.

A perplexidade me diz que meus olhos ainda não viram tudo; que meus ouvidos ainda não escutaram tudo; que meus sentidos não estão cristalizados; que meu coração pulsa novo diante do inusitado; que meu espírito ainda é jovem; que ainda há muito que aprender; que não perdi a ingenuidade, a candura própria das crianças; que por mais que eu tenha vivido muitas Eras e muitas Vidas não há ranço ou amargor em mim; que um gesto, uma palavra, um sonho ou realidade ainda agitam meu Ser pondo-o em movimento mesmo que vertiginoso; que não estou impermeável ao Universo; que estou em expansão com esse Universo; que um golpe da fatalidade não está banalizado nos meus sentimentos; que a maldade não é minha companheira; que a injustiça não é meu mote; que uma semente que brota me comove tanto quanto um homem que morre; que o Sol sempre nasce novo; que os ciclos são milagres que se repetem; que a Esperança não está aprisionada no vaso de Pandora; que o Amor e o Ódio são legítimos como sentimentos humanos; que a Luz estala e a Treva cala; que há Coragem e Medo em cada respiração; que o Tempo é mestre; que tudo é novo e novidade sempre; que estar vivo é estar perplexo porque a Vida não é banal. A Vida é Espanto!

Sigo perplexo!!!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

PERFIL DO ARTISTA: MURILO PAGANI


Artista visual, designer, aderecista, cenógrafo, encadernador. Esse é Murilo Pagani, grande parceiro da Rota do Papel, que busca em todas as manifestações artísticas uma forma de expressão.

Inquieto e sempre com um interesse artístico em tudo que realizava, Pagani diz que nada foi planejado, as coisas foram acontecendo. O curso de Belas Artes na UFMG, professor de desenho, o primeiro convite para assinar o figurino de um curta, depois para o teatro, o primeiro trabalho como cenógrafo para a peça “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, e assim não parou mais.

A paixão pela encadernação, área de atuação de Murilo na Rota do Papel, veio durante um curso sobre a técnica, indicação de uma amiga que na época disse que tinha tudo a ver com o trabalho desenvolvido por ele. “Fiz o curso de uma semana e fiquei encantado. Mergulhei em pesquisas sobre encadernação, papel, escrita e não parei mais. Algum tempo depois montei um curso de encadernação e já tenho quatorze anos de atuação na área”, enfatiza.

Parceria de Sucesso

E dessa paixão pela encadernação surgiu a parceira com a Rota do Papel, em 2008. “O sucesso foi imediato e passamos a atender pedidos com personalização e exclusividade, sempre nos adequando ao desejo e ao sonho dos clientes”, lembra o artista.

Os cursos oferecidos pela Rota e ministrados por Murilo na área de encadernação são:

• A encadernação à Bradel, técnica de origem alemã desenvolvida pelo francês Alexis-Pierre Bradel durante o século XVIII, comumente conhecida como encadernação clássica francesa.

• A encadernação com costura aparente, baseada nos modelos coptas e medievais de elaboração dos codex.

• A encadernação ao estilo oriental, conhecida como encadernação japonesa que na verdade é chinesa e consiste da montagem a partir de folhas soltas.

• As três possibilidades são aplicadas tanto para cadernos como para álbuns.

Na área de cartonagem os cursos oferecidos são diversos modelos de luvas, estojos, caixas e pastas.

O artista esclarece e enfatiza que a arte de encadernação é diferente da técnica de encapar. “Encadernar é proteger, preservar, cuidar, guardar. A história da humanidade está encadernada. Através da proteção, da preservação, do cuidado e da guarda temos acesso ao conhecimento. Guardar para poder mostrar.”, finaliza o artista.









terça-feira, 16 de novembro de 2010

Artesania do Papel em Minas Gerais
X Feira de Papel

Nos dias 26, 27 e 28 de novembro, sexta, sábado e domingo será realizada no Mercado Distrital do Cruzeiro a X Feira de Papel em Minas Gerais.

Este evento será um encontro de papeleiros, não só aqueles que fazem seu próprio papel artesanalmente, mas todos aqueles que fazem um artesanato cuidadoso e de beleza incontestável com papel industrial.

Um dos objetivos principais da Artesania do Papel sempre foi a divulgação de Minas Gerais como um estado que oferece uma produção diversa e de muita qualidade no setor papeleiro. Esta tarefa a Feira de Papel vem cumprindo, oferecendo ao público produtos de papelaria artesanal, papel reciclado, papel marmorizado, produtos de design, encadernações artesanais (álbuns, agendas, livros de assinatura), cartões, convites, cartonagem, objetos, origamis, esculturas, desenho e gravuras em papel artesanal, papier mâché, quillings, obras de arte e tudo que a imaginação pode criar com esta matéria prima.

Outro objetivo da Artesania do Papel é o de contribuir para o crescimento de todos os seus integrantes, na medida em que a exposição e comercialização dos produtos estimula a produção em termos de qualidade e criatividade, propiciando o desenvolvimento de cada um. Para isso reunimos vinte artesãos/stands fixos, que acreditam na Feira de papel e trabalham por ela, participando sempre e se comprometendo para o alto nível de sua realização. Não temos patrocínio e estes vinte artesãos são o suporte para que possamos comercializar nossos produtos duas vezes no ano, com cartazes, convites, divulgação e infraestrutura.

Quanto à montagem da X Feira de papel este ano, estamos inovando. Durante o último semestre nos reunimos em oficinas, desenhamos e planejamos nossos espaços e artesanalmente, tendo como suporte estrutural nossa matéria prima, utilizamos o papel na construção dos stands. Um trabalho de equipe que se revelou extremamente gratificante na troca de experiências e criatividade.

A X Feira de Papel contará com a participação de vinte expositores e espera a visita de 3.000 pessoas durante os três dias do evento. A abertura será na sexta-feira, dia 27 às 14h00min. No sábado seu funcionamento será de 09h00min as 20h00min e no domingo de 09h00min as 13h00min.

Ficha:
Artesania do Papel em Minas Gerais
X Feira de Papel

26- novembro -2010 – sexta-feira de 14 h as 20 h.
27- novembro -2010 – sábado de 09 h as 20 h.
28- novembro -2010 – domingo de 09h as 13h.
Mercado Distrital do Cruzeiro
Rua Ouro Fino, 452 ou Rua Opala s/no
Bairro Cruzeiro – Belo Horizonte – MG

Vera Queiroz
Artesania do Papel em Minas Gerais
(31) 3467-1013 // (31) 9984 1348







segunda-feira, 15 de novembro de 2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Therezinha

Eu quero que ela se chame Therezinha, essa mulher que almoça comigo todos os dias. Eu quero que ela seja nordestina das regiões áridas e que tenha conseguido sair da desolação por força de si mesma e de um destino para além da compreensão dela ou dos que deixou. Eu quero que ela tenha sofrido todas as dores possíveis antes de estar aqui, comigo, almoçando.

Eu almoço com Therezinha todos os dias. Eu almoço com ela e ela almoça com o filho. Ela não sabe que almoçamos juntos. Ela está a uma mesa de distância com o filho. Esse filho que beira os trinta anos e que é débil. Sempre à mesma mesa. Ela chega depois de mim. Serve o filho, serve-se, sentam-se e comem.

Eu observo.

Therezinha aparenta uns sessenta anos ou mais. Agora está bem cuidada, mas traz as marcas da dor que eu quero que ela tenha sofrido. Nos olhos, na boca hirta, na pele, nas mãos que ainda não pintaram com as manchas da idade a dor está lá. É vaidosa nas roupas com estampas de cores nordestinas. Faixa também colorida nos cabelos que não tinge e aparecem grisalhos. É enérgica nos movimentos, firme, endurecida, magra como um caniço, uma árvore retorcida da caatinga que não vai morrer nunca. Ela não vai morrer nunca, não antes de alimentar, amparar, zelar, velar e enterrar esse filho que é seu e de uma de suas dores. Esse filho que foi o único que ela quis e que quis quando já era tarde para tê-lo e ele veio sem ser dela, para ela. Para ela olhar para ele e se lembrar do homem que o fez nela e amá-lo por isso, o homem e o filho desse homem.

Therezinha come. Come como um trabalhador braçal. Come o seu peso com voracidade. Come com o apetite da fome ancestral que não a abandona. Ela abandonou a fome há muito, mas a fome não a abandonará, nunca. Essa fome a mantém viva para se alimentar por ela, através dela. Ela alimenta o filho que come pouco apesar de ter o dobro do seu tamanho. Ela pica a carne em seu prato e observa. Ela arruma a comida que ele esparrama para as bordas do prato, para além do prato. Ela recolhe o que lhe cai da boca frouxa. Ela come e cuida para que ele também coma e lamenta que ele coma tão pouco. Ela não entende como ele vive sem a fome que ela tem.

Therezinha fala. Fala entre as garfadas, entre a comida, entre o arroz, o feijão e a farinha. Fala coisas que desconheço de gente que conhece. Fala como se o filho a ouvisse, mas eu o vejo ajustando o volume do aparelho de audição que traz por trás da orelha esquerda. Quando ele não responde às suas perguntas com algum som gutural ela agita as mãos frenéticas entre o prato e a colher e a boca cheia dele. Ele se agita e resmunga. Ele levanta e vai ao banheiro.

Therezinha olha. Olha para o lugar onde o filho estava. Ela olha para o vazio que há ali e seu olhar vê. Enquanto ele está ausente ela não come, ela não fala, apenas vê sua ausência, seu olhar vaga, entre o espaço vago e o tempo suspenso. Ela vê e eu não sei o que ela vê. Ele, o filho, volta.

Todos os dias, almoçamos juntos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Âmbar



Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
Como se eu fosse um morro iluminado
Por um âmbar elétrico
Que vazasse dos prédios
E banhasse a Lagoa
Até São Conrado
E ganhasse as Canoas
Aqui do outro lado
Tudo plugado
Tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos
.....................................

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Coleção Pinacoteca

O artista Murilo Pagani elaborou uma linha especial de cadernos para o Café com Letras.
As peças são únicas, por isso corra se quiser adquirir o seu.

Elaborados especialmente para o Café com Letras, os cardenos da Coleção Pinacoteca foram desenvolvidos pelo artista Murilo Pagani. Ele utilizou de técnicas de encadernação usadas nos livros da idade média. Mas o destaque mesmo vai para as capas que são pinturas de grandes artistas. Na contra capa de cada caderno, a história sobre as artes que ilustram as capas.



Especificações:

Formato A5 (22 x 15cm) com 96 folhas.
Miolo em papel 90g/m2, aprovado pelo Programa Brasileiro de Certificação Florestal.

Ficou interessado?
Então corra, pois as peças são únicas e limitadas. (31) 2555-1610.

domingo, 24 de outubro de 2010

Palestra inspiradora sobre a relação do artista com o processo de criação.
.


Faça sua opção de tradução no idioma desejado.

sábado, 23 de outubro de 2010

Show



Let the show begin
It's a sorry sight
Let it all deceive
Now I'm
Pains in me that I've never found

Let the show begin
Let the clouds roll
There's a life to be found in this world
And now I see it's all but a game
That we hope to achieve
What we can
What we will
What we did suddenly

But it's all just a show
A time for us and the words we'll never know
And daylight comes and fades with the tide
And I'm here to stay

But it's all just a show
A time for us and the words we'll never know
And daylight comes and fades with the tide
I'm here to stay

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Impenitência

Vivem em mim todos os Pecados Capitais.
Avareza, Gula, Inveja, Ira, Luxúria, Preguiça e Soberba.
Banqueteio com eles, durmo com eles, regozijo com eles.
Não há Virtude que os combata ou expulse de mim.

Também burlei quase todos os dez mandamentos.
Os que não infringi estão passíveis de sê-lo.
Por uma condição essencialmente amoral do meu ser.
Não há braço da Lei que me alcance.

Chapinho na lama secular.
Degrado meu corpo, minha alma, meu espírito.
Caio gargalhando de desgraça em miséria.
Não há mão que se estenda para meu amparo.

Do Mal que há em mim sei o segredo mais sórdido.
Na Escuridão que há em mim qualquer fulgor é corrompido.
E o mais grave: Eu minto. Minto sempre.
Eu minto mesmo quando digo a Verdade.


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Felicidade

Quero contar que hoje vi a felicidade. Sim, a felicidade plena, definitiva.

Saindo do banco ainda sob o efeito de extratos, saldos, débitos, créditos e contas a pagar vi, saindo de uma loja de presentes em frente, uma senhora. Até aí nada demais não fosse o intenso e radiante olhar que ela me lançou acompanhado de um sorriso mais brilhante que a estrela Vênus. Em seguida olhou para um lado, depois para o outro, como se indecisa de qual a melhor direção tomar e optando por descer a rua seguiu à esquerda de si mesma. Ponto. Deveria ser só isso. Eu deveria contar só isso. O encontro fortuito com o olhar radiante e feliz de uma senhora. A Felicidade plena naquele olhar, naquele sorriso.

Mas as coisas não são simples assim. Nunca ficam assim.

Antes de continuar devo fazer uma confissão grave: Eu sigo as pessoas na rua. Pronto falei. Faço isso. Não por maldade ou segundas intenções – que segundas intenções eu poderia ter para com a tal senhora? – mas por puro interesse pelas pessoas. Sigo qualquer um. Quer dizer, qualquer um que desperte em mim uma irrefreável curiosidade. Homem, mulher, jovem, velho, criança. Bem, sigo as pessoas e, como estava com tempo livre no meio da tarde, sem tomar a decisão conscientemente atravessei a rua e bati no encalço da tal senhora impulsionado apenas por seu sorriso e é claro por minha curiosidade.

Distinta, como quase não se veem mais pessoas distintas. Bem vestida sem luxo. Cabelos brancos bem penteados sob um chapéu Panamá modelo Santos Dumont com um lenço vermelho preso à aba – um pouco “nonsense” no conjunto, mas perfeito sob o sol das três horas e com a aura de férias que emanava dos gestos livres. A blusa branca leve e bem cortada com estampado floral, saia ampla num tom de areia molhada combinando com os sapatos baixos entretecidos com palha. Brincos de pérola, nas mãos livres um par de alianças avisando a viuvez, na outra um solitário também de pérola.

Caminhava com a coluna ereta de uma bailarina, leve, como uma criança compenetrada que sai sozinha na praça, adulta em si mesma, passos calmos e firmes. De quando em quando parava para ver um detalhe numa vitrine, para acenar sorrisos para outra senhora passante, para olhar para o céu com olhos molhados de luz, para olhar surpresa pequenos lugares comuns. Caminhava assim em férias, toda sorrisos e brilhos de olhos. Caminhava embalada por música própria, que eu diria um “minuetto”, com trejeitos graciosos.

Fizemos, ela e eu, o trajeto no entorno do quarteirão observando o dia, o céu, a rua, as pessoas. Ela e eu embalados pela melodia que vinha dela me contagiando e pintando a tarde com cores intensas e ao mesmo tempo suaves. Descompromissados do todo e de tudo. Às vezes ela parava e se voltava na minha direção e percebendo-me sorria delicada ao que eu correspondia cortes. Fizemos, ela e eu, o trajeto no entorno do quarteirão uma vez. Depois outra. Depois mais outra ainda. Ela dançando e eu seu enamorado compondo um “pas de deux” silencioso. Ela não estranhando minha companhia e eu já estranhando tantas voltas ao quarteirão quando, subitamente uma jovem senhora passou arfante por mim.

- Mamãe! – abordando a senhora num tom de alívio, reprimenda, constrangimento, contrariedade e alegria, misturados.

- Por onde a senhora andou? Está bem? O que foi? Onde esteve? Estou procurando há um tempão. Já dei três voltas no quarteirão. Eu disse para a senhora não sair sozinha. A senhora sabe que não pode sair sozinha. Onde esteve? Está bem? Tudo bem?

Tudo dito de chofre sem esperar por respostas que a senhora/mamãe não intencionava dar. Passada a efervescência e observando melhor a senhora/mãe como se conferisse sua integridade física...

- A senhora “pegou” o chapéu! Vamos voltar para a loja.

Relutância no olhar da senhora/mamãe.

- Mamãe...

- ... ... ...

- Está bem. Vamos ficar com o chapéu, assim está bem? Isso. Agora vamos. Nós temos que pagar por ele. Isso, vamos por aqui. Assim.

Passaram por mim e seguiram as duas braços dados em direção à loja de onde eu a vira sair.

Neste instante fui fulminado por um raio. A compreensão atingiu-me com um violento golpe. A um só tempo latejaram-me as têmporas, minha nuca contraiu-se, meu estomago revirou-se. Tudo estava claro: o chapéu nonsense, as pérolas, o caminhar dançante, a liberdade dos gestos, o mirar-se sem reconhecimento nas vitrines, as voltas ao quarteirão, os sorrisos, o brilho no olhar... Tudo estava explicado. Tudo claro. Eu fora fulminado pela certeza inequívoca de que a senhora/mamãe era louca.

Em algum momento em sua vida a senhora/mamãe decidira ser feliz.

Feliz para sempre. Alguma coisa, alguém ou fato deve tê-la conduzido a essa felicidade. A viuvez, ou sucessivas outras perdas, ou a inadequação reconhecida diante da Vida, ou um cansaço definitivo da razão, ou...

Ou uma simples decisão de ser plena e definitivamente feliz para sempre.

Jamais saberei.

domingo, 22 de agosto de 2010

Quem é seu amante?

Muitas pessoas têm um amante e outras gostariam de ter um. Há também as que não têm, e as que tinham e perderam. Geralmente são essas últimas as que veem ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insônia, apatia, pessimismo, crises de choro ou as mais diversas dores.
Elas me contam que suas vidas transcorrem de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar seu tempo livre. Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente perdendo a esperança. Antes de me contarem tudo isto, elas já haviam visitado outros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: “Depressão”, além da inevitável receita do antidepressivo do momento. Assim, após escutá-las atentamente, eu lhes digo que elas não precisam de nenhum antidepressivo; digo-lhes que elas precisam de um AMANTE! É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem meu conselho. Há as que pensam: “Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa dessas?” Há também as que, chocadas e escandalizadas, se despedem e não voltam nunca mais. Àquelas, porém, que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico o seguinte:
AMANTE é “aquilo que nos apaixona”. É o que toma conta do nosso pensamento antes de pegarmos no sono e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir. O nosso AMANTE é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida. Às vezes encontramos o nosso amante em nosso parceiro, outras, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis. Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no esporte, no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente, na boa mesa, no estudo ou no prazer obsessivo do passatempo predileto… Enfim, é “alguém” ou “algo” que nos faz “namorar” a vida e nos afasta do triste destino de “ir levando”. E o que é “ir levando”? Ir levando é ter medo de viver. É o vigiar a forma como os outros vivem, é o se deixar dominar pela pressão, perambular por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastar-se do que é gratificante, observar decepcionado cada ruga nova que o espelho mostra, é se aborrecer com o calor ou com o frio, com a umidade, com o sol ou com a chuva. Ir levando é adiar a possibilidade de desfrutar o hoje, fingindo se contentar com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã. Por favor, não se contente com “ir levando”; procure um amante, seja também um amante e um protagonista… DA SUA VIDA! Acredite: o trágico não é morrer; afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver; por isso, e sem mais delongas, procure um Amante… A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo Transcendental: “PARA ESTAR SATISFEITO, ATIVO E SENTIR-SE JOVEM E FELIZ, É PRECISO NAMORAR A VIDA.”.

Dr. Jorge Bucay - Psicólogo -
tradução do original “Hay que buscarse um Amante”

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

"Agosto"

Perturbazione (2004)

Agosto
è il mese più freddo dell’anno
L’inverno si sposta sei mesi in avanti
e non è il polo sud
qui non è il polo sud

Agosto
La sveglia che rompe il silenzio
Qualcuno è in vacanza
e lei suona per ore
che freddo che fa

Agosto
ti affacci su un cuore malato
le cinque di sera ed è già buio pesto
l’inverno d’agosto

Il ghiaccio
si posa e ricopre le cose
l’attesa del caldo congela anche i morti
che freddo che fa

Se non è vero che hai paura
non è vero che ti senti solo
non è vero che fa freddo
allora perché tremi in questo agosto?

Agosto
è scritto sul tuo calendario
forse hai dormito sei mesi
ma sei così stanco
tanto stanco

Agosto
è il mese più freddo dell’anno
nell’altro emisfero lo chiamano inverno
l’agosto

sexta-feira, 18 de junho de 2010


Morre o escritor José Saramago

Morreu nesta sexta-feira (18) o escritor português e prêmio Nobel de literatura José Saramago, aos 87 anos, na cidade de Tías, Lanzarote, Espanha, onde morava desde 1993.

José Saramago havia tido uma noite tranquila e a morte ocorreu por volta das 8h desta sexta-feira, após tomar seu café da manhã ao lado da mulher, a tradutora Pilar del Río. Eles estavam conversando quando o escritor começou a sentir-se mal e logo depois faleceu. Nos últimos anos, ele foi hospitalizado em várias oportunidades, principalmente deivdo a problemas respiratórios.

José de Sousa Saramago nasceu na aldeia portuguesa de Azinhaga, província de Ribatejo, no dia 16 de novembro de 1922, embora no registro oficial conste o dia 18. Filho dos camponeses sem terra José de Sousa e Maria da Piedade, mudou-se para Lisboa aos 2 anos, onde viveu grande parte de sua vida.

O escritor deveria ter sido registrado com o mesmo nome do pai, mas o tabelião acrescentou o apelido pelo qual o chefe da família era conhecido na aldeia, Saramago, que também dá nome a uma planta que serve de alimento para os pobres em tempos difíceis.

Saramago concluiu os estudos secundários em uma escola técnica, mas não pode cursar a universidade por dificuldades financeiras. Sua primeira experiência profissional foi como mecânico. Fascinado pela literatura desde jovem, visitava com grande freqüência a Biblioteca Municipal Central Palácio Galveias, na capital portuguesa. Foi só aos 19 anos, com dinheiro emprestado de um amigo, que conseguiu comprar pela primeira vez um livro.

Além de mecânico, o escritor português trabalhou como desenhista, funcionário público, editor, tradutor e jornalista. Durante doze anos, foi funcionário de uma editora, onde ocupou os cargos de diretor literário e de produção.

Publicou o seu primeiro romance, Terra do Pecado, em 1947. Em 1955, começou a fazer traduções de autores como Hegel, Tolstói e Baudelaire para aumentar os rendimentos. Seu próximo livro, Clarabóia, foi rejeitado pela editora e permanece inédito até hoje.

O escritor só publicaria um novo livro, Os Poemas Possíveis, (1966), dezenove anos depois do primeiro. Entre 1972 e 1973, foi comentarista político do Diário de Lisboa, coordenando durante alguns meses o suplemento cultural do jornal. Em um espaço de cinco anos, publicou sem grande repercussão mais dois livros de poesia, Provavelmente Alegria (1970) e O Ano de 1993 (1975).

O escritor fez parte da primeira diretoria da Associação Portuguesa de Escritores. Entre abril e novembro de 1975 foi diretor-adjunto do Diário de Notícias, quando os militares portugueses, reagindo ao que consideravam os excessos da Revolução dos Cravos, demitiram diversos funcionários. A partir de 1976, o escritor português passou a viver exclusivamente de seu trabalho literário.

No ano seguinte, o autor voltou a escrever romances, gênero que o tornou mundialmente conhecido. A partir desta época, sua produção literária cresce consideravelmente, mas é em 1980 que Saramago dá uma grande guinada em sua produção literária, com a publicação de Levantado do Chão.

Segundo diversos críticos, a obra marca o início do estilo que o consagrou, destacado por frases e períodos extensos, que as vezes ocupam mais de uma página e são pontuados de maneira anti-convencional. Os diálogos entre os personagens costumam aparecer inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma a extinguir o uso de travessões em seus livros.

Com a censura do governo português à apresentação do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) para o Prêmio Literário Europeu sob alegação de que a obra ofendia os católicos, o escritor mudou-se para a ilha de Lanzarte, nas Canárias.

Em 1993, Saramago começou a escrever um diário, Cadernos de Lanzarote, em cinco volumes. Dois anos depois, publicou o romance O Ensaio Sobre a Cegueira, que foi transformado em filme em 2008, com direção assinada por Fernando Meirelles.

No mesmo ano em que publicou Ensaio Sobre a Cegueira, recebeu o prêmio Camões e em 1998, foi laureado com o prêmio Nobel de literatura, o primeiro dado a um escritor de língua portuguesa.

"Estava no aeroporto prestes a embarcar quando chegou a notícia de que tinha ganho o Prêmio Nobel. Houve um momento de alegria, os meus editores de Madrid, que estavam comigo, abraçaram-me. Depois encaminhei-me na direção da saída e, por mais estranho que pareça, era um corredor muito comprido e deserto. Eu com a minha malinha de mão, com a minha gabardina no braço, passei de repente da alegria enormíssima da notícia que tinha recebido, para a solidão mais completa. Naquele momento a sensação que tive, claro que eu dava por mim numa grande alegria, era uma espécie de serenidade: pronto aconteceu", afirmou o escritor sobre o prêmio.

Considerado por especialistas um mestre no tratamento da língua portuguesa, em 2003 o escritor português foi considerado pelo crítico norte-americano Harold Bloom como o mais talentoso romancista vivo. Seus livros foram traduzidos para mais de vinte línguas, como sueco, romeno e húngaro.

Comunista ferrenho, Saramago teve sua carreira pontuada por polêmicas causadas por suas opiniões sobre religião, terrorismo e conflitos. Em entrevista ao jornal O Globo, Saramago criticou a posição de Israel no conflito contra os palestinos, afirmando que "os judeus não merecem a simpatia pelo sofrimento por que passaram durante o Holocausto".

A Anti-Defamation League (ADL), um grupo judaico que defende direitos civis, caracterizou estes comentários como sendo anti-semitas.

O ano de 2004 destaca-se pela publicação de Ensaio Sobre a Lucidez. No ano seguinte, Saramago escreveu As Intermitências da Morte, em que divaga sobre a vida, a morte, o amor e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência, fazendo uma crítica a sociedade moderna.

O escritor lançou também As Pequenas Memórias, em 2006, A Viagem do Elefante, 2008, e Caim, no fim do ano passado. O último retorna ao tema da religião em um romance que lembra seu controvertido O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), obra que despertou forte polêmica em Portugal, país de grande tradição católica.

No início do ano, José Saramago lançou uma nova edição do livro A Jangada de Pedra (1986), que teve toda a sua renda revertida para as vítimas do terremoto no Haiti.

Atualmente estava preparando um livro sobre a indústria do armamento. "Não será sobre o Corão, mas será sobre algo tão importante quanto todos os corões do mundo: por que não há greves na indústria do armamento. Uma greve na qual os operários digam: 'Não construímos mais armas'", afirmou, em entrevista em novembro.

Saramago no cinema

Em 2008, o cineasta Fernando Meirelles fez o filme Ensaio sobre a Cegueira (Blindness), baseado no livro homônimo do escritor, lançado em 1995. A produção abriu o Festival de Cannes do ano em que foi lançada.

No elenco estão os veteranos Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover, Gael García Bernal e a brasileira Alice Braga. O filme foi gravado em Toronto (Canadá), Montevidéu (Uruguai) e São Paulo (Brasil).

Família

Saramago casou-se pela primeira vez em 1944 com Ilda Reis, com quem teve uma filha, Violante, que nasceu em 1947. O escritor permaneceu casado com Ilda por 26 anos.

Após se divorciar, em 1970, iniciou um relacionamento com a escritora portuguesa Isabel da Nóbrega, que duraria até 1986.

Em 1988, o prêmio Nobel de Literatura casou-se novamente com a jornalista e tradutora espanhola María Del Pilar Del Río Sánchez, com quem permaneceu até a sua morte.

Obras publicadas

Poesia
Os Poemas Possíveis, 1966
Provavelmente Alegria, 1970
O Ano de 1993, 1975

Crônica
Deste Mundo e do Outro, 1971
A Bagagem do Viajante, 1973
As Opiniões que o DL Teve, 1974
Os Apontamentos, 1976
Viagens a Portugal, 1981

Diários
Cadernos de Lanzarote I, 1994
Cadernos de Lanzarote II, 1995
Cadernos de Lanzarote III, 1996
Cadernos de Lanzarote IV
Cadernos de Lanzarote V

Teatro
A Noite, 1979
Que Farei Com Este Livro?, 1980
A Segunda Vida de Francisco de Assis, 1987
In Nomine Dei, 1993
Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido, 2005

Conto
Objeto Quase, 1978
Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, 1979
O Conto da Ilha Desconhecida, 1997

Romance
Terra do Pecado, 1947
Manual de Pintura e Caligrafia, 1977
Levantado do Chão, 1980
Memorial do Convento, 1982
O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984
A Jangada de Pedra, 1986
História do Cerco de Lisboa, 1989
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991
Ensaio sobre a Cegueira, 1995
A Bagagem do Viajante, 1996
Todos os Nomes, 1997
A Caverna, 2000
O Homem Duplicado, 2002
Ensaio Sobre a Lucidez, 2004
As Intermitências da Morte, 2005
As Pequenas Memórias, 2006
A Viagem do Elefante, 2008
Caim, 2009

Prêmios

Portugal
Prêmio da Associação de Críticos Portugueses por A Noite, 1979
Prêmio Cidade de Lisboa por Levantado do Chão, 1980
Prêmio PEN Clube Português por Memorial do Convento, 1982 e O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984
Prêmio Literário Município de Lisboa por Memorial do Convento, 1982
Prêmio da Crítica (Associação Portuguesa de Críticos) por O Ano da Morte de Ricardo Reis
Prêmio Dom Dinis por O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1986
Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1992
Prêmio Consagração SPA (Sociedade Portuguesa de Autores), 1995
Prêmio Camões, 1995

Itália
Prêmio Grinzane-Cavour por O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1987
Prêmio Internacional Ennio Flaiano por Levantado do Chão, 1992

Inglaterra
Prêmio do jornal The Independent por O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1993

Internacionais
Prêmio Internacional Literário Mondello (Palermo), pelo conjunto da obra, 1992
Prêmio Literário Brancatti (Zafferana/Sicília), pelo conjunto da obra, 1992
Prêmio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (APE), 1993
Prêmio Consagração SPA (Sociedade Portuguesa de Autores), 1995
Prêmio Nobel da Literatura, 1998


http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI4504165-EI13419,00-Morre+o+escritor+portugues+Jose+Saramago+aos+anos.html


Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

(Jose Saramago In OS POEMAS POSSÍVEIS,
Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)


sexta-feira, 4 de junho de 2010

Homo Erectus


Animação feita por Rodrigo Burdman num conto de Marcelino Freire.
Loc do Paulo Cesar Pereio.
São Paulo, Brasil 2009.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Television is a drug.


Inspirada pelo poema "Television" de Todd Alcott, Beth Fulton criou esse vídeo.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Dona do Raio e do Vento

Doryval Caymmi

Vamos chamar o vento
Vamos chamar o vento
Vamos chamar o vento
Vamos chamar o vento

O raio de Iansã sou eu
Cegando o aço das armas de quem guerreia
E o vento de Iansã também sou eu
E Santa Bárbara é santa que me clareia

O raio de Iansã sou eu
Cegando o aço das armas de quem guerreia
E o vento de Iansã também sou eu
E Santa Bárbara é santa que me clareia

A minha voz é vento de maio
Cruzando os mares dos ares do chão
Meu olhar tem a força do raio
que vem de dentro do meu coração

O raio de Iansã sou eu
Cegando o aço das armas de quem guerreia
E o vento de Iansã também sou eu
E Santa Bárbara é santa que me clareia

Eu não conheço rajada de vento
mais poderosa que a minha paixão
Quando o amor relampeia aqui dentro,
vira um corisco esse meu coração

Eu sou a casa do raio e do vento
Por onde eu passo é zunido, é clarão
Porque Iansã desde o meu nascimento,
tornou-se a dona do meu coração

O raio de Iansã sou eu
Cegando o aço das armas de quem guerreia
E o vento de Iansã também sou eu
E Santa Bárbara é santa que me clareia

Eu sou a casa do raio e do vento
Por onde eu passo é zunido, é clarão
Porque Iansã desde o meu nascimento,
tornou-se a dona do meu coração

O raio de Iansã sou eu
E o vento de Iansã também sou eu
O raio de Iansã sou eu

Sem ela não se anda
Ela é a menina dos olhos de Oxum
Flecha que mira o Sol
Oiá de mim.

O raio de Iansã sou eu
E o vento de Iansã...

A Procelária

“É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firma e certa como bala.
As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha, o cabo, o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento
Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo”

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Melhor Amigo


Murilo diz (13:45):
oi
Alessandro diz (13:46):
oiiiiiii
Murilo diz (13:46):
tudo bem?
resolveu as confusões?
Alessandro diz (13:46):
sim
Murilo diz (13:47):
benza Deus
Alessandro diz (14:06):
mu??
Alessandro diz (14:20):
ahhhhhhhhhhhhh
Murilo diz (14:20):
está tudo muito estranho
vamos ver o que o destino me reserva
Alessandro diz (14:20):
aiaiaiaia
Murilo diz (14:21):
nunca consegui seguir planos
as coisas sempre foram acontecendo
vamos ver o que vem agora
todas as vezes que planejei deu tudo errado
Murilo diz (14:22):
e quando menos esperava estava casado, depois separado
com grana para separar
tudo assim sem plano
obra de sabe-se lá quem
vou mexendo com meus pauzinhos e vamos ver onde chego
Alessandro diz (14:23):
kkkkkkkkkkkk
que bom
Alessandro diz (14:24):
acho q o negócio é não fazer planos
Alessandro diz (14:28):
vai dar tudo certo
Murilo diz (14:28):
estou contando com isso
Alessandro diz (14:28):
sabemos que a correnteza é forte
Alessandro diz (14:29):
mas a cada dia nos tornamos melhores nadadores
Murilo diz (14:29):
pois é
Alessandro diz (14:29):
sim
acho q somos muito parecidos
Alessandro diz (14:30):
queremos viver
viver com alguém
com amigos
Alessandro diz (14:30):
intensamente
Murilo diz (14:30):
estamos em mutirão
Alessandro diz (14:30):
nos doamos sem nenhum tipo de recibo
vamos até o fundo
quebramos a cara
Murilo diz (14:30):
essa é a questão
Alessandro diz (14:30):
choramos compulsivamente
Murilo diz (14:30):
envolvimento integral
Alessandro diz (14:30):
amamos tudo
todos
Alessandro diz (14:31):
nos acabamos
Murilo diz (14:31):
e vamos em frente
Alessandro diz (14:31):
somos um grande e gostoso travesseiro
mas estamos invariavelmente sós
pq??
essa é a questão
nos doamos
nos levam tudo
menos nossa integridade né
Murilo diz (14:32):
outro dia li uma frase no twitter assim:
"Me doei tanto que já nem sei quem sou"
Alessandro diz (14:32):
caraca
é por ai
Murilo diz (14:32):
fiquei chocado
Murilo diz (14:33):
não quero me perder de mim
Alessandro diz (14:33):
é a pior de todas as distâncias
quando vc se separa de vc mesmo
Murilo diz (14:34):
ultimamente fico pensando que a cada segundo tem um felizardo sofrendo uma parada cardíaca fulminante ou um derrame fatal
em algum lugar e me pergunto porque não tenho essa sorte
Alessandro diz (14:34):
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Murilo diz (14:34):
estou meio cansado
Alessandro diz (14:34):
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Murilo diz (14:34):
nada me prende aqui nesse planeta
Alessandro diz (14:34):
agora dei uma boa gargalhada
foi muito sonora viu
Murilo diz (14:35):
vi
Alessandro diz (14:35):
vc que pensa
temos raízes
a vida é assim
cigana
Alessandro diz (14:36):
não temos teto
ninguém é de ninguém
Murilo diz (14:36):
sei disso
Alessandro diz (14:36):
todo mundo passa
uns nascem
outros morrem
Murilo diz (14:36):
Sabe, estive fazendo um balanço geral da minha vida
Alessandro diz (14:36):
de velhice, doença...
e qual foi??
tem em gráficos??
Murilo diz (14:37):
sabe uma vidinha medíocre?
Alessandro diz (14:37):
muito medíocre?
Murilo diz (14:37):
fiz gráficos e infográficos
desenhei tabelas
muito
Alessandro diz (14:37):
talvez tenha sido mesmo
afinal
vc nunca amou
nem foi amado
não ensinou nada pra ninguém
nunca fez alguém se sentir melhor
a dar um sorriso
Alessandro diz (14:38):
é vc pode mesmo ser um desgraçado
vc nunca me deixou bem
nunca me disse uma palavra amiga
vc nunca pintou um quadro lindo
vc nunca regou uma porra de uma planta
vc nunca gozou gostoso
nem nunca chorou de felicidade
Alessandro diz (14:39):
vc não teve infância
nunca jogou atári
nunca nem perdeu uma perna
só não tem cabelo
isso é muito triste
ah
vai tomar no seu cu
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Murilo diz (14:39):
eu amo vc
Alessandro diz (14:40):
eu tb te amo
seu lokooooooooooooooooooo
olha
altos e baixos
não pera a ternura nuncaaaaaaaaa
Perca
nunca
Alessandro diz (14:41):
e vc vem agora me dizer q sua vida foi medíocre?
quer dizer q se vc tivesse tido muita grana sua vida não seria medíocre?
olha
não sou noveleiro
mas no final da novela das 8
rola uns depoimentos
caraca
Alessandro diz (14:42):
muita desgraça junta
mais
as superações
são fantásticas
todos nós podemos
somos capazes
não precisamos dos bobos
das menininhas mimadas
Alessandro diz (14:43):
dos ex que não sabem o q tiveram de bom
não mesmo
e vc é um campeão cara
bonito
lindo
saudável
por dentro e por fora
inteligente
talentoso
capaz pra caramba
Alessandro diz (14:44):
não se deixe abalar por esta fase baixa
marés
e o que é estar por cima??
nem sei
e o q é estar por baixo?
pow
isso mesmo que não quero saber
Alessandro diz (14:45):
é preciso saber viver
o que eu quero é um milhão de amigos
pra bem forte poder cantar
e vamo q vamo
hj minha irmã me disse
Alessandro diz (14:46):
coloca uma música que te faça bem
coloquei na hora
celebration da Madonna
até o talo
porra
energia pura
oi
tá vivo??
Murilo diz (14:46):
oi
Murilo diz (14:47):
depois disso
tenho que estar
Alessandro diz (14:47):
kkkkkkkkkkkkkkk
aew
Murilo diz (14:47):
não posso decepcionar meu fã
Alessandro diz (14:47):
assim que gosto do Murilão
kkkkkkkkkkkkkkkkk
não mesmo
Murilo diz (14:47):
putz
que música eu vou ouvir?
Alessandro diz (14:47):
oh
Alessandro diz (14:48):
chorei aqui viu filho da mãe
Murilo diz (14:48):
eu também
Alessandro diz (14:48):
caraca
Murilo diz (14:48):
tu é foda
Alessandro diz (14:48):
muito bom
lavei a alma
adoroooooooooooooooooo
Murilo diz (14:48):
a minha ainda tá no tanque
Alessandro diz (14:48):
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Murilo diz (14:48):
rsrsrsrsrsrsrsrs
Alessandro diz (14:48):
compra uma máquina pow
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Murilo diz (14:48):
rsrsrsrsrsrsrsrs
Murilo diz (14:49):
valeu
tem dia que a vida é uma dureza só
Alessandro diz (14:49):
agora vou na Antonoff fazer um orçamento para a minha aluna de Sábado
Murilo diz (14:49):
mas aí aparece um Alessandro
e as coisas vão ficando mais felizes
Alessandro diz (14:49):
faço assim na faculdade
Alessandro diz (14:50):
qdo o professor fala: tá faltando muito
eu digo:
é
tive que ir na praia
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Murilo diz (14:50):
rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs
Alessandro diz (14:50):
ou qdo uma cliente chata quer horário
digo
Murilo diz (14:50):
acho que eu vou na praia hoje
Alessandro diz (14:50):
só no próx. ano amiga
sorry
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
mesmo estando individado
olha
Alessandro diz (14:51):
não faço nada mais que me machuque
nadaaaaaaaaaa
vai sim
Murilo diz (14:51):
vc ta coberto de razão
Alessandro diz (14:51):
toma um banho de mar
tb farei isso
só quero pessoas boas do meu lado
Alessandro diz (14:52):
rico ou pobre
até prefiro os pobres
tem mais a ver comigo sabe
Murilo diz (14:52):
ufa
Murilo diz (14:53):
cara, vai fazer seu orçamento que também tenho que me preparar para o final de semana
obrigado por estar aí comigo
rsrsrsrsrs
Alessandro diz (14:53):
sempre
olha só
uma cliente ligou agora
Alessandro diz (14:54):
Ale, vc tá onde?? è pq to aqui no V., vc pode vir fazer minha sobrancelha?
ela pensa q eu estou a disposição coitada
ai eu falei: não posso querida
Alessandro diz (14:55):
que tal amanhã nos tais horários??
ela: a amnhã eu vou sair com a minha mãe
eu te ligo então
eu falei:
faça isso amore
agora na semana passada
Alessandro diz (14:56):
havíamos marcado na casa dela 10 da manhã
ela me ligou em cima da hora desmarcando
pq um bofe ligou chamando pra trepar
Murilo diz (14:56):
rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs
Alessandro diz (14:56):
vc acha mesmo q eu vou dar ibope pra uma pessoinha dessas??
coitada
Alessandro diz (14:57):
se quiser fazer sobrancelha com Alessandro Borges tem q marcar com antecedência
pq não estou a toa
meu tempo vale ouro
nem q seja pra bater uma boa punheta
entendeu??
Murilo diz (14:57):
rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs
Alessandro diz (14:57):
that´s it
Murilo diz (14:57):
vc tem toda razão
Murilo diz (14:58):
vamos à luta
Alessandro diz (14:58):
bjão
Murilo diz (14:58):
mais uma
Alessandro diz (14:58):
fala
Murilo diz (14:58):
beijão pra vc também
fica com Deus
Murilo diz (14:59):
amo vc
Alessandro diz (14:59):
eu sei disso
se cuida
Murilo diz (14:59):
cuido sim
vc também se cuida
Alessandro diz (14:59):
sim sim

Conversa no MSN

terça-feira, 27 de abril de 2010

Cartonagem


Registro, passo a passo, da montagem de um estojo forrado com tecido.
Encomendado para acondicionar uma coleção de "Santinhos" e orações, seu formato final é de 15,0cm x 20,0cm x 4,0cm.

Murilo Pagani
Artesania do Papel em Minas Gerais

IX Feira de Papel

Nos dias 01 e 02 de maio de 2010 a “Artesania do Papel em Minas Gerais” realizará a sua IX Feira de Papel. Sob a organização da mestra papeleira Vera Queiroz estarão reunidos artesãos do papel e seus usuários, mostrando seus diversos artigos manufaturados a partir dessa matéria.
Vera Queiroz nos conta que “a Artesania do papel começou no Mercado Distrital de Santa Tereza em dezembro de 2003. A II Feira aconteceu na Casa do Conde, em outubro de 2004. Depois voltou para o mercado de Santa Tereza e a partir de 2005, vem sendo realizada no Mercado Distrital do Cruzeiro apresentando o que há de melhor no artesanato de papel.”.
Com horário programado entre 09 e 19 horas, a IX Feira de Papel apresentará produtos como: papel artesanal (folhas), cartões, convites, encadernações variadas, origami, marcenaria em papel, quiling, “papier mâché”, cartonagem...
Lá estarei expondo algo da minha produção como encadernador e conto com a visita de vocês.


Artesania do Papel em Minas Gerais – IX Feira de Papel

Dias 01 e 02/Maio/2010, sábado e domingo, entre 9 e 19 horas.
Local: Mercado Distrital do Cruzeiro
Rua Ouro Fino, 452 o Rua Opala s/no.
Cruzeiro – Belo Horizonte - MG

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sem doutorado? Então fora!

19 de Abril de 2010 - por Alexandre Barros

A crise está produzindo alguns efeitos magníficos, que ninguém planejou. Belezas do capitalismo: milhões de pessoas fazendo escolhas independentes e produzindo efeitos que ninguém previu.
Muitos profissionais que perdem empregos nos Estados Unidos estão virando professores. Isso mesmo. Contadores vão para as escolas ensinar, depois de muitos anos com a mão na massa. Projetistas vão para escolas e faculdades ensinar desenho industrial e por aí afora.
Se perdessem os empregos, dois meninos maluquinhos que resolveram cair na vida, em vez de virar acadêmicos, poderiam ir dar aulas. Muitas universidades receberiam Bill Gates (Microsoft) e Steven Jobs (Apple) de braços abertos. Acredito que haveria uma enorme disputa entre as melhores universidades para ver quem conseguiria levar qual.
No Brasil, como professores, bateriam com o nariz na porta.
Como nenhum dos dois tem mestrado ou doutorado, não valem nada para qualquer universidade brasileira. O Ministério da Educação não os reconhece. Um profissional fantástico sem mestrado ou doutorado é proibitivo para uma universidade brasileira.
Cirurgiões que foram dos bancos da escola para as salas de operação não poderiam lecionar em faculdades. Sua experiência avançadíssima vale zero.
Não passaram pelos rituais de iniciação: gastar tempo escrevendo dissertações. Estão fora. Graças ao MEC, no Brasil, vigora o "quem sabe faz e quem não sabe ensina."
Simon Schwartzman, especialista em educação superior e pós-graduada, disse numa entrevista (Veja 2059, 7 de maio de 2008): "O professor [brasileiro] participa de um congresso ou publica um artigo numa revista que ninguém lê." Em outras palavras, os professores brasileiros passam a vida fazendo imensos esforços para ter impacto zero no desenvolvimento da ciência, da tecnologia e das políticas públicas.
Parece anedota, mas não é. Criou-se um clube de amigos que publicam em revistas nas quais, não raro, o intervalo entre o término de uma pesquisa e sua publicação pode ser de até 4 anos. Só essas revistas são reconhecidas. Outras mídias (jornais, revistas, TV) de nada valem, ainda que possam ser lidas por milhões de pessoas. Isso em tempos de Internet.
Nikola Tesla (o inventor da geração de corrente alternada que move o mundo) não teria emprego em nenhuma universidade brasileira. Dificilmente conseguiriam publicar um artigo em revista Qualis (esse é o codinome das revistas que o MEC reconhece).
Na Universidade de Chicago, a maior ganhadora de prêmios Nobel (79 ao todo, 27 em Física e 25 em economia), é possível entrar sem jamais ter ido para a escola, qualquer escola. Lá, o principal critério para contratação de um professor de economia é o potencial para um prêmio Nobel. A universidade sabe que cada prêmio Nobel é um pote de mel para atrair alunos, doações e outros bons professores.
Recentemente, na feira de ciências de uma escola secundária na área de Boston, em Massachussets, um adolescente de 16 anos apresentou um trabalho da maior relevância para a saúde pública no Brasil: descobriu que o vírus da hepatite C e o vírus da dengue são primos próximos. Este atalho pode economizar muitos anos na descoberta da cura da dengue (sabendo que os vírus são primos próximos podem-se usar muitos conhecimentos já avançadíssimos sobre o vírus da hepatite C, para a dengue).
O caminho até a cura da dengue ainda é longo, mas será muito mais curto do que sem a descoberta.
No Brasil, ninguém o levaria a sério porque ele não tem idade nem para poder entrar para uma faculdade, como, de resto, não levaram o Portellinha, sobre quem comentei n’O Estadão em "Deixem o Portellinha estudar em paz," (O Estado de São Paulo, 12 de março de 2008, pág 2). Apesar de aprovado no vestibular de direito com sete anos de idade, Portellinha foi impedido, pelo lobby da OAB e pela lei, de entrar para a universidade.
O interesse dos burocratecas do MEC está em formalidades e papelório.
O currículo oficial do CNPq registra minúcias da vida de professores que me lembram o que meu amigo Lorenzo Meyer, historiador mexicano, chamava de ridiculum vitae.
Qualquer atividade acadêmica exige um papel assinado por alguém atestando que aquilo é verdade. Vou além de Simon: o pouco tempo que sobra de tentar publicar artigos que não serão lidos por ninguém é consumido correndo atrás de papelório inútil.
Tomara que Bill Gates e Steven Jobs não percam seus empregos, pois poderemos continuar a curtir nossos produtos Microsoft e nossos Macs e iPhones.
No Brasil, Bill Gates e Steven Jobs não teriam tempo para inventar nada. Perderiam seu tempo correndo atrás dos certificados que os legitimaria perante a burritzia nacional.
As invenções, ora, as invenções... são coisas de gringo... Aqui basta uma política industrial para dar dinheiro aos amigos do rei.
Quando a lei e os oligopólios de proteção profissional impedem o progresso de alguém porque não passou pelos rituais de iniciação, fica mais fácil entender porque o Brasil não tem nenhum prêmio Nobel, em nenhum campo.

Alexandre Barros é cientista político (PhD, University of Chicago)
e diretor-gerente da Early Warning: Políticas Públicas e Risco Político (Brasília - DF),
 além de colaborador regular d’O Estado de São Paulo.
Ele pode ser contactado em alex@eaw.com.br.

sábado, 24 de abril de 2010


Adriana é uma moça de quem gosto muito. Gosto muito e muito, desde quando a vi pela primeira vez. Foi empatia imediata. Primeiro por causa do sorriso dela, um sorriso sem limites, daqueles que duram depois de terem acabado; segundo porque o brilho nos olhos dela é um farol em noite de tempestade, promessa de refúgio em terra firme, chocolate com canela, manta sobre os pés, colo em frente à lareira; e terceiro porque a luz dela é “Orange”, não laranja, porque “Orange” (com maiúscula mesmo) define melhor essa cor redonda como a fruta e luminosa como o Sol, cítrica, doce, fresca, intensa, pura, tudo a um só tempo. Então resolvi que gosto muito dela. Ela é casada, mãe e recentemente avó. Uma avó “Orange” como nunca vi outra em toda minha vida.
Adriana tem um blog que se chama Samba no Varal . Lê-lo é reencontrar Adriana e quase ouvir sua voz, é ver sua cor reverberando na atmosfera. Recomendo para quem quer ficar leve ou recompor-se de um dia de doação de sangue.
Foi na segunda semana de abril, em que eu estava precisando muito me recompor de grande perda de sangue, que me deparei com o seguinte texto:

14/04/2010

CREPÚSCULO

Paramos no meio do caminho:
Quase amigos.
Quase irmãos.
Quase pais.
Quase sãos.
Quase aprendizes.
Quase professores.
Quase amantes.
Quase amores...

Escrito por Adriana às 14h10min

Fiquei tão atônito que não tive forças nem para fazer um pequeno comentário.
Não sei se Eu ou Ela (num dia de usar cor complementar) ou ambos estávamos “blue” naquela semana, ou se foi só uma impressão minha, mas o fato é que não consegui me descolar do texto e passei os últimos dez dias meditando muito sobre ele.
Adriana veja como você me intriga quando fica "blue".

A questão do “Quase”

Toda a Vida é um “quase”.
O mundo é um “quase”.
Somos todos uns “quase”.
“Quase” qualquer coisa.
A madrugada é “quase” manhã, a manhã é “quase” dia, o meio dia é “quase” tarde, a tarde é “quase” crepúsculo, o crepúsculo é “quase” noite, a meia noite é “quase” madrugada...
O botão é “quase” flor, a flor é “quase” fruto, o fruto é “quase” semente, a semente é “quase” botão...
A lagarta é “quase” casulo, o casulo é “quase” borboleta...
Tudo que nos rodeia está sempre num estado de latência infinita. Tudo é um vir a ser. Nada está pronto ou é definitivo. Oscilamos à beira de... Sempre. Então, e apenas nesse caso, o “quase” é conclusivo.
Aí reside nossa angústia e mortificação. Não aceitamos este estado de latência. Queremos o permanente e a permanência está fora do nosso alcance. Hoje, nem a morte é o ponto final que chegamos há imaginar um dia, chamamos de passagem, transmutação.
Esquecemos-nos de que a madrugada em si mesma é um espetáculo porque estamos ansiosos pelo dia. Esquecemos-nos de apreciar o momento da flor em cor e em perfume porque temos fome do fruto que virá – no seu tempo. Matamos a lagarta porque ela devora nosso jardim antes de ser casulo e depois borboleta voando sobre nossas flores.
Vivemos o desejo de, esquecendo o desejo em si.
Vivemos o sonho de, esquecendo o sonho em si.
Vivemos a promessa de, esquecendo a promessa em si.
O “Quase” é o Presente de que prescindimos para vivermos o Futuro que um dia será outro “Quase”. Nossas vidas são sucessões de “quases”.
Algumas vezes ocorrem inversões estranhas e acontece de a luz do crepúsculo ser “quase” a luz da aurora ou vice-versa e ficamos confusos. “Quase” confusos.

Murilo Pagani - 24/04/2010

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...