“Quem nasceu pra bosta rala nunca chega a cagalhão” enunciava meu avô, João Honorato da Silva, com voz de quem lê um dos mandamentos do Velho Testamento ou cita uma epígrafe na estela de um templo ancestral. O que equivale dizer: somos todos bostas, uns mais ralos outros mais duros.
Diante do inevitável fracasso ou diante da incompetência, consumado o nefasto, confirmado o desleixo próprio ou alheio lá vinha ele com a máxima.
Por essa pautei minha conduta: bosta, bosta, antes dura que rala.
Por essa tenho horror aos perfeccionistas. Bosta é bosta.
Por essa sou dado aos acessos de fúria quando apesar de todos os empenhos a “coisa” desanda e vira uma bosta rala.
Muitos se dão por satisfeitos com a mediocridade, o embuste, o burlesco, o grotesco da bosta rala. São os apreciadores de uma boa diarreia com efeitos de respingos no alheio, os calças-sujas, os habitantes de latrinas fétidas, os cheira-cheiras de traques nauseabundos, os de cu na mão. São os mesquinhos, os chinfrins, os bebedores de vaselina. Na verdade uma maioria que se diz humana. Estão por toda parte. Esparramados nas altas ou baixas classes socioeconômicas, infestantes de todos os gêneros, constituintes de todas as raças, devotos de todos os credos, filiados de todas as políticas.
Por mais que se façam esforços são todos vãos quando por perto está um bosta rala.
Estou com os cagalhões.
Por isso me batem na cara.
Por isso como sal, areia e cascalho.
Porque como dizia também meu avô: “Passarinho que come pedra sabe o cu que tem”.
Meu avô estava coberto de razão.

Murilo Pagani

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