Recebi esse e-mail de um amigo que recebeu de uma amiga.
Um artigo publicado num jornal importante do país que fala dos males da rotina que o autor destaca em garrafais, negrito e sublinhado. Ele vai muito coerentemente bem numa leitura superficial mas, ao aprofundarmos um pouquinho mais (muito não é preciso) no texto perceberemos mais uma receita de fuga de nós mesmos, alienação e dispersão de força vital.
Para começar faz afirmações sobre o funcionamento do cérebro e diz que qualquer um ficaria louco se tivesse que processar conscientemente a enorme quantidade de pensamentos que tem por dia. Então, diz que para evitar a loucura, o cérebro otimizado automatiza determinadas funções e apaga de seu registro de eventos as experiências duplicadas(?), que a rotina (repleta de experiências duplicadas) é fator de anulação do registro da passagem e conseqüente aceleração do tempo(?), que ao ficarmos mais velhos os natais chegam mais rápidos(?), e que para solucionarmos a questão devemos entupir o cérebro de novidades, mudanças, “com qualidade, emoção, rituais(?) e vida”.
*As interrogações são minhas.
Justifico-as porque não posso deixar de pensar na superficialidade de cada uma das afirmações.
O cérebro apaga experiências duplicadas? O que dizer então do aprendizado que é caracterizado pela repetição, compreensão e amadurecimento das experiências? O que dizer da necessidade fisiológica de rotina alimentar, de sono, de atividade, de prazer? O que dizer da necessidade psicológica de estabilidade, referência, identificação (para citar apenas algumas relacionadas com a rotina)? O que dizer do apelo emocional por afeto continuado, equilíbrio no humor, tranqüilidade e paz de espírito (que tédio!)?
A rotina propicia a anulação do registro da passagem do tempo e o acelera? O que dizer da mocinha que carimba documentos no cartório e de dois em dois segundos olha para o relógio na parede do fundo e suspira “- Vai dar vinte horas mas não vai dar dezessete para eu ir embora!”? (e ela só trabalha quatro horas!)
Quando ficamos mais velhos os natais realmente chegam mais rápidos ou as vitrines e decorações é que se antecipam dois meses do Advento (que já é um período de quatro semanas antes do Natal)?
Se o cérebro fica louco com o excesso de informação (o que eu duvido), será aconselhável entupi-lo de mudanças, emoções, e novas experiências (perceberam a incoerência)?
Rituais? Segundo o Houaiss a definição de ritual vem associada às práticas próprias, às regras estabelecidas, à paciência, à cerimônia, ao cuidado, e nos casos psicopatológicos ao “comportamento repetido e sem sentido aparente, mantido por um indivíduo com o fim de aliviar a ansiedade, característico de neuroses obsessivo-compulsivas”. Não seria contra senso o ritual como solução para a rotina?
Não estou aqui para julgar as escolhas pessoais que cada um faz para lidar com a própria vida, mas penso que elas, as escolhas, devem, no mínimo, ser coerentes entre si. Penso que elas, as pessoas, devem ter mais cuidado ao prescrever receitas. Penso que devemos ter muito cuidado com o que aparece publicado como solução para distúrbios emocionais ou psicológicos. Penso que um pouco de reflexão e avaliação podem evitar a propagação de tamanha confusão mental.
Penso que não tenho nada pessoalmente com isso.
Penso que não tenho conselhos para dar ou vender à ninguém.
Penso que estou, apenas, pensando.
Penso que meu cérebro vai bem obrigado.
Penso que estou acima da média, porque tenho mais de 60 mil pensamentos processados por dia.

Segue o artigo (sem o nome do autor e do jornal para evitar quebra na minha rotina com processos judiciais):

A Mente apaga registros duplicados.

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio... você começará a perder a noção do tempo.
Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.
Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar:

Nosso cérebro é extremamente otimizado.Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho.
Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e, portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo. Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e “apagando” as experiências duplicadas.

Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente.
Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo. Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo. Como acontece? Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência). Ou seja, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa são apagados de sua noção de passagem do tempo.

Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida. Conforme envelhecemos as coisas começam a se repetir - as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações, enfim... As experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo. Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.
Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a... ROTINA.
A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.

Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo: M & M (Mude e Marque).

Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas. Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia). Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo. Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente. Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes. Seja diferente. Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos... Em outras palavras... V-I-V-A!!!
Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo. E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais v-i-v-o do que a maioria dos livros da vida que existem por aí.
Cerque-se de amigos. Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes.

Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é?
Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.
E S CR EVA em tAmaNhos diFeRenTes e em CorES di f E rEn tEs !
CRIE, RECORTE, PINTE, RASGUE, MOLHE, DOBRE, PICOTE, INVENTE, REINVENTE... V I V A !!!!!!!!

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