segunda-feira, 31 de agosto de 2009

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“Sidarta parou. Quedou-se imóvel. Notando a que ponto iria sua solidão, sentiu, por um instante, pela duração de um respiro, que o coração se lhe gelava no peito, estremecendo de frio, como um bichinho, um pássaro, uma lebre. Durante muitos anos andara sem lar e, no entanto, não o percebera. Nesse momento, porém, dava-se conta da falta. Sempre, ainda que se distanciasse de tudo, nas mais longínquas meditações, prosseguiria sendo o filho de seu pai, fora brâname, aristocrata, intelectual. Daí por diante, seria apenas Sidarta, o homem que acabava de acordar e mais nada. Com toda a sua força, aspirou o ar. Por um momento, tremeu de frio e de horror. Ninguém estaria tão solitário quanto ele. Não havia nenhum nobre que não fizesse parte dos nobres; nenhum artesão que não pertencesse à classe dos artesãos, encontrando agasalho entre seus semelhantes, vivendo a vida deles e falando a mesma língua; nenhum brâname que não se incluísse no grupo dos seus pares e convivesse com eles; nenhum asceta que não pudesse buscar abrigo entre os samanas. Nem sequer o mais isolado de todos os ermitões da selva era um homem só, não levava uma existência solitária, porquanto também ele pertencia a uma classe que lhe propiciava um lar. Govinda tornara-se monge e milhares de monges eram seus irmãos, vestiam os mesmos trajes, tinham a mesma fé, falavam a mesma língua. E ele, Sidarta? Qual seria seu lugar? Participaria ele da existência de outrem? Haveria pessoas que falassem a mesma língua que ele?
Desse minuto, durante o qual o mundo que o cercava dissolvia-se em nada, durante o qual Sidarta estava só como um astro no firmamento, desse minuto transido de frio e de temores, emergiu Sidarta, mais “eu” do que nunca, mais firme, mais concentrado. Sentiu nitidamente: aquilo fora o derradeiro tremor do despertar, o último espasmo do parto. E logo tornou a caminhar, em marcha rápida, impaciente, afastando-se da sua terra, do lar paterno, de tudo quanto jazia atrás dele.”

Hermann Hesse
Calw, 02/07/1877 -
Montagnola, 09/08/1962

domingo, 30 de agosto de 2009

Sísifo

Recomeça....

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga
São Martinho de Antas, Vila Real, 12/08/1907
Coimbra, 17/01/1995

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

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Sintonia com o Universo é receber de uma amiga que não vejo há anos a seguinte mensagem:

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre
aos mesmos lugares.

É o tempo da travessia: e,
se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado,
para sempre,
à margem de nós mesmos.”

Fernando Pessoa
Lisboa, 13/06/1888 – Lisboa, 30/11/1935
Paul Gustave Doré
Strasbourg, 06/01/1832 – Paris, 23/01/1883
Grato à Luciana M. B. Ferreira

sexta-feira, 14 de agosto de 2009


“Senhor, concedei-me uma boa entrada e uma bela saída, e sustende-me com o Vosso poder.”

Al-Isra "A Viagem Noturna" (سورة الإسراء) XVII: 80
também chamada de Bani Isra'il ("Crianças de Israel")
é a décima sétima sura do Alcorão.

Técnica de douradura de folhas.
A inscrição era escrita ou impressa e selada com cera em ambas as faces. A folha era depois embebida numa solução alcalina durante o tempo suficiente para que apenas subsistissem a estrutura e a inscrição.
O virtuosismo do exemplar em apreço é ainda mais notável porque a sua base é uma folha de castanheiro (Castanea sativa), uma folha mais frágil do que muitas utilizadas para estas composições.
O calígrafo utilizou magistralmente a sua escrita thuluth murakkab para criar uma composição caligráfica evocativa de um barco com tripulação, os longos remos mergulhando na água que é a estrutura da folha.
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Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Porto,06/11/1919
Lisboa, 02/07/2004

sábado, 8 de agosto de 2009

Trilha sonora para a tarde de sábado, quando em Santo Amaro da Purificação comemoram o aniversário de Caetano Emanuel Viana Teles Veloso.
Maria Bethânia interpreta “Sim, sou eu,” de Fernando Pessoa e “O quereres” de Caetano, no show “Maricotinha” em São Paulo, 2001.
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O Quereres

Onde queres revólver, sou coqueiro;
Onde queres dinheiro, sou paixão!
Onde queres descanso, sou desejo;
E onde sou só desejo, queres não!
E onde não queres nada, nada falta;
E onde voas bem alto, eu sou o chão;
E onde pisas o chão
Minha alma salta; e ganha liberdade na amplidão...

Onde queres família, sou maluco;
E onde queres romântico, burguês!
Onde queres Leblon, sou Pernambuco;
E onde queres eunuco, garanhão!
E onde queres o sim e não, talvez;
Onde vês, eu não vislumbro razão!
Onde queres o lobo, eu sou irmão;
E onde queres cowboy, eu sou chinês!

Ah, bruta flor do querer...
Ah, bruta flor, bruta flor!

Onde queres o ato, eu sou espírito;
E onde queres ternura, eu sou tesão!
Onde queres o livre, decassílabo;
E onde buscas o anjo, eu sou mulher!
Onde queres prazer, sou o que dói;
E onde queres tortura, mansidão!
Onde queres o lar, revolução;
E onde queres bandido, sou herói!

Eu queria querer-te amar o amor,
Construirmos dulcíssima prisão;
E encontrar a mais justa adequação:
Tudo métrica e rima e nunca dor!
Mas a vida é real e de viés,
E vê só que cilada o amor me armou:
Eu te quero e não me queres como sou;
Não te quero e não queres como és...

Ah, bruta flor do querer...
Ah, bruta flor, bruta flor!

Onde queres comício, flipper vídeo;
E onde queres romance, rock’n roll!
Onde queres a Lua eu sou o Sol;
Onde a pura-natura, o inseticídeo!
E onde queres mistério, eu sou a luz;
Onde queres um canto, o mundo inteiro!
Onde queres quaresma, fevereiro;
E onde queres coqueiro, eu sou obus!

O quereres e o estares sempre afim,
Do que em mim é de mim tão desigual...
Faz-me querer-te bem;
Querer-te mal:
Bem a ti, mal ao quereres assim:
Infinitivamente impessoal;
E eu querendo querer-te sem ter fim!
E querendo-te,
Aprender o total...
Do querer que há;
E do que não há em mim!
Caetano Veloso
Santo Amaro, 07/08/1942
Maria Bethânia
Santo Amaro, 18/06/1946
Sim, sou eu, eu mesmo...

Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobresselente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos,
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!...
6-8-1931
Poesias de Álvaro de Campos.
Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Caros Amigos,

Eu poderia “estar passando” aqueles horríveis e-mails alertando sobre vírus.

Eu poderia “estar dando” lição de bem viver em PPSs melosos com música do Charles Chaplin ao piano de Richard Clayderman.

Eu poderia “estar incluindo” vocês numa corrente que terminaria com ameaças psicopatas de maldição até a sua enésima geração.

Mas não, eu estou aqui solicitando que se alguém tiver notícia de um estúdio, ou pequeno apartamento para alugar me avise. Algo modesto, mas com espaço para ampla mesa de trabalho e estantes para meus livros. De fácil acesso para alunos e amigos nas proximidades da Avenida do Contorno evitando a região central onde estão o Elevado Castelo Branco, o Viaduto Sarah Kubitschek, o Viaduto Hansen Araujo e o Viaduto Leste por motivos óbvios.

Pretendo mudar meu local de trabalho e levar junto meu travesseiro.

Qualquer informação será de grande auxílio e ninguém será acossado pelas sete pragas do Egito se não puder colaborar.

Um grande e fraterno abraço,

Murilo.

PS No final do filme “A Festa de Babett” (Gabriel Axel, 1987) ela, Babett, justifica seu gesto e toda a história dizendo o seguinte:
“- No fundo do peito de todo artista só há um clamor: Deixem-me fazer o meu trabalho.”

Murilo Pagani
05 de agosto de 2009
01 h: 30min.

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...