Ciclos
(O Livro das Estações)
1976 -2008

Impressões da natureza.
Impressionismos.

Contam o Tempo.
Tecem as Estações.

Germinações extemporâneas.
Efemérides.


Primaveras
I

Brancas manhãs.
As paredes e o teto.

Brancas cortinas.
Os lençóis e a fronha.

Brancas formas.
Pétalas de margarida.

II

Frias manhãs de Primavera.
Sol pálido e tonto no limite da imensidão.

Frias brisas de Primavera.
As primeiras da estação, mal fixa.

Frias gotas de Primavera.
Nas vidraças choram o jardim na bruma.

Frias flores de Primavera.
Nos canteiros balançam pétalas e hastes e folhas.

Frios campos de Primavera.
Novos tons enchem o ar com cores de suaves hálitos.

III

O riacho.
Entre os seixos molhou, rodopiou, brincou.

Entre os seixos, molhando, rodopiando, brincando.
O riacho.

IV

As amendoeiras tecem
O tempo.
E o Universo caminha
Indiferente.

V

O que faz a aranha
Sob a folha da castanheira?
Tece, tece, tece,
Incessantemente.

VI

No jardim,
Uma flor desabrocha.
Hora estática.
A Natureza susta a respiração.
Observa...

VII

Uma borboleta
Sob o Sol
Sobre as flores.
(mais feliz)

VIII

Férteis sementes.
Reverberantes flores.
Saborosos frutos.
Velhas folhas.
Ciclos.

A Roda da Fortuna não pára.
O início e o fim, uma coisa só.
Quem poderia alterar?

IX

No dia seguinte
Ainda chove
Sob as castanheiras.

X

Voar
Maior o desejo
Mais alta a árvore
O pássaro
O paraíso.

XI

Margaridas,
Fadas erguidas pela brisa.

A tarde verde e amarela.

Pétala após pétala,
Bem-me-queres.

XII

Sob a sibipiruna em flor,
Sentar-se.

Não há outra maneira.

Enterrar-me sob as flores,
Sob a sibipiruna em flor.


Verões
I

Mar, Sol, Vento, Gaivotas.
O céu é um buraco azul.
Imenso, enorme mesmo.
Sabor de maçã verde.

II

Brisa morna.
Cheiro de mato.
A calma da tarde.

Céu claro.
Fim do dia.
O Verão estala.

III

Sem pressa passam:
As horas,
Pensamentos,
Cochilos,
Ocos.
Fundem-se ao calor.

IV

Largo.
Sem ar.
Sem som.
Sem cheiro.
Vestígios.

Dormência no corpo.
Morno.
Sonolento.
Escoadouro das horas.

Pensamentos vazios.
Tempo morto.
Dia perdido.
Fastios.
Adágio.

V

O ar repousa no espaço.
Canícula.
Silêncio.
Cortinas de renda.
Compasso estático sobre o piano.

O ar flutua no espaço.
Brisa.
Som.
Flores no jardim.
Lençóis brancos respiram no varal.

O ar dança no espaço.
Vento.
Música.
Ondas no mar.
Crianças brincam nácares na areia da praia.


VI

A luz entra em diagonal pela janela do quarto.
Os objetos alongam-se, obliquam.

As sombras são fantasmas dormentes, despertados.
Na manhã de Sol, no Verão.

As cortinas estão como as almas dos entes.
Esvoaçam levemente com as aves canoras.

A brisa faz reverências às folhas da samambaia.
Nas primeiras horas, dourados.

VII

Tarde.
Quanto menos se espera uma brisa morna
Trazendo algo de novo além de preguiça e ócio,
Mais se espera.

VIII

Abandono à languidez.
Tardes mornas.
Dias verdes diáfanos.
Tule.

IX

Invade à tarde
Quente,
O perfume fresco de
Abacate.

X

Tarde.
Água morna,
Sabonete de ervas.
O banho transborda pelo piso.
Avança após a porta,
Ganha o corredor,
A escada,
A sala.
No pátio, pastilhas coloridas

XI

Lux.
Dias de bocejo e lassidão.
Anestésicos longos dias.
A atrofia da preguiça.
Torpores.
Calor sob as palmeiras.
Gatos sobre almofadas.
O ócio não é um pecado,
É um luxo.

XII

O Verão não é findo.
Dias revestidos de um brilho cortante.
Dias estonteantes.
Dias sufocantes.
Chá gelado de limão.


Outonos
I

Uma cigarra.
Uma única retardatária cigarra.
Quando as chuvas já se foram,
Quando o tempo já não o é,
Quando o verão não está.

Uma única renitente cigarra.
Insiste em cantar.
Insiste em estar
Insiste em ser
A única cigarra no jardim.

II

Sol quase posto entre nuvens densas no horizonte.
A noite vem rápida.
Vésper reina sobre a tarde cinza e magenta.

III

Uma leve brisa tinge a tarde
Menos morna às amoras maduras.

IV

Poucas vezes vê o Sol a Lua no mesmo céu
Em que brilha a Lua o Sol.
E o Sol brilha a Lua e brilha a Lua o Sol.
Os dois no firmamento.

V

Outono.
Quando a folha da amendoeira muda de cor
É hora.

VI

Vai longa a tarde na penumbra.
Sépias obscuros.
Olor de livros.
Lírios brancos e amarelos
Ocres transparentes.
Licor de pequi.

VII

Silfos.
Sortilégios.
Os espíritos arfaram palavras secretas.

Brisa.
Madressilva.
O tempo parou para ouvir.

VIII

No outono.
Céu nublado.
O mundo se recolhe e espera.

No outono.
Contar estrelas no céu nublado.
Mais que bons olhos é preciso saber esperar.

IX

Borrasca no horizonte.
Avança.
Às cinco horas, não haverá folhas na
Avenca.

X

Lusco-fusco das seis horas.
Penumbras azuis esverdeadas.
Há ouro na luz que rasga a veneziana.
Zeus visita Dânae.

XI

A aragem fria
Corre descalça sobre o piso de ladrilhos na varanda.
Passa.
E rodopiam as folhas ruivas da parreira.

XII

Pêssegos maduros na ponta dos ramos.
Cada pomo é um sol de Outono.
Pendentes no pomar.
Poentes.


Invernos
I

Noite.
No Mar do Norte.
No mar revolto.
No mar.
O mar.

II

Minhas vidraças miram o jardim
Mergulhado na bruma.
Manhã de Inverno.

III

Nas brumas das manhãs de Inverno.
Tempo branco.
Tempo longo.
Tempo certo.
Nos jardins.
Nos pomares.
Nos quintais.

IV

Jamais é o tempo certo.
Jamais, é um tempo muito longo.
Jamais os jardins, os pomares, os quintais.
Sem as flores da Primavera.
Sem os frutos do Verão.
Sem as folhas do Outono.
Jamais no Inverno.

V

Céu ciã de junho.
Devassidão na noite.
A Lua é um imenso clarão.
Hécate, A Louca.

VI

Os cavalos, filhos do vento,
O tropel no vale.
Lá, entre as montanhas, entre uma e outra.
Os cavalos.
O vento.

VII

Sombras na calçada.
Sol obtuso ao meio dia.
Indecifrável Inverno.

VIII

Pôr do Sol.
Ocaso bruxuleante.
Não pensar em outra coisa violeta.
Ametista.

IX

Num outro país,
De horas quietas,
De tardes pálidas,
De azuis diáfanos,
De silêncios insuspeitos,
Os cisnes deslizam sobre águas geladas.

X

Sob a geada prateada
Estalam folhas azinhavradas,
Gotejam cristais iridescentes.

Sob o Sol pálido, apático,
Efêmeras flores do Ipê
Tombam lágrimas solferinos.

XI

Tarde gris sobre os pinheiros.
A garoa umedece os musgos.
Silêncio.
Choram as Horas.

XII

Yule.
Noite longa.
Solstício de Inverno.
Dançam juntas, Fadas e Bruxas.
Na clareira do bosque
Louvam à Deusa
E arde a fogueira.


Murilo Pagani
1976 - 2008

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