segunda-feira, 13 de abril de 2009

Gogóia,

Recentemente li o livro “A menina que roubava livros” de Markus Zusak. Nele conta-se a história de uma menina que, quando se sentia muito infeliz ou injustiçada pela vida, roubava livros.

Lembrei-me imediatamente de um menino de aproximadamente oito anos que numa tarde, à hora do recreio, invadiu a sala da diretora da escola em que estudava. Furtivamente, olhos atentos e mãos ágeis, respiração suspensa entre a pleura e o diafragma, uma friagem na barriga, embutiu um livro não muito volumoso, mas também nada pequeno sob a camisa do uniforme e saiu em disparada para sua sala de aula. Não era um livro valioso. Era um livro que contava as peripécias de um pelicano que construía uma casa na floresta e no final trazia em anexo a casa do pelicano para ser recortada e montada com cola.

Esse foi o primeiro de muitos livros que esse menino roubou ao longo da vida. Roubar livros não é um gesto do qual ninguém deva se orgulhar. O menino sabia disso, mas também sabia que não era feliz e acima de tudo sabia que amava os livros. Durante muito tempo ele não foi feliz. Muito cedo ele descobriu que só os tolos são realmente felizes. O menino não era um tolo. Ele era muito esperto afinal, apesar da vigilância da diretora e do controle que a mãe exercia sobre tudo o que dizia respeito à escola, conseguira o livro e montou a casa do pelicano, que durou pouco graças às três irmãs menores.

O menino cresceu. Não se tornou um adulto feliz porque continua crendo que só os tolos são realmente felizes. Mas parou de roubar livros. Ele agora faz livros. Não são livros com histórias importantes nem ilustrações maravilhosas. São livros para que as pessoas possam escrever suas próprias histórias. Porque ele acredita que todos nós temos histórias importantes para contar com ilustrações maravilhosas para mostrar.

Tudo isso é para agradecer à diretora da escola, que de tola também não tinha nada e também amava os livros e sabia o quanto o menino precisava e precisaria deles.
Muito grato, diretora, por deixar que eu continuasse a roubar livros.


 
P.S. Esse caderno agora em suas mãos ainda não é um livro. Ele espera que você faça dele um livro com sua história importante e ilustrações maravilhosas.
Murilo Pagani

domingo, 12 de abril de 2009

Madame Tutli-Putli I

Madame Tutli-Putli II


Suporte técnico na Idade Média.

L' Animateur


“As três Moiras, de mãos dadas,
mensageiras do Mar e da Terra, assim começam a trabalhar!
Três voltas para ti, três para mim e três outras para que sejam nove.
Silêncio! O feitiço se realizou!”
William Shakespeare


Cloto separa os fios de seda e ouro dos de lã e cânhamo.
Láquesi gira o fuso.
Átropos, a Velha, empunha a tesoura.

As Moiras tecem, tecem, tecem...
Indiferentemente, alheias, fiam...
No fundo da gruta seus bordados brilham.

As três Irmãs se entreolharam.
Nenhuma delas disse nada.
A palavra desnecessária.

Elas sabiam.
Dessa sabedoria antiga.
Muito mais velha que a Mãe delas, Nix.

Houve um brilho naqueles olhos.
O Fio de Ouro!
A Roca, o Fuso a Tesoura.

“- Guarde sua tesoura!” Alguém olhou...
“- Aguarde sua vez!” Outra olhou...
“- Até quando?”

Os três pares de olhos brilharam na escuridão.
Do significado desse brilho ninguém sabe além das três irmãs.
Esse brilho faz parte dos “Mistérios”.
Murilo Pagani
"Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em conseqüência da instabilidade da posição em que esteja. Quem se examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora um aspecto, ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero, sábio, ignorante, liberal, avarento, pródigo, assim me vejo de acordo com cada mudança que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. Não posso aplicar a mim mesmo um juízo completo, simples, sólido, sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra."

“Da incoerência de nossas ações” - Ensaios
Michel Eyquem de Montaigne
Château de Montaigne, no Périgord, 28/02/1533 –
Château de Montaigne, 13/09/1592.


"Transfigurações Ancestrais 1997/2001"
Grafite e Nanquin
Murilo Pagani

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...