Não sei quanto a vocês, os outros.
Estamos no dia 04 de janeiro de 2009, domingo, e eu sou o ser mais exausto que pode existir na face da Terra.

Não sei quanto a vocês, os outros, os que se acostumaram, os que precisam desse momento no ano para praticar as boas ações que os conduzirão à uma consciência mais tranqüila (a trema da tranqüilidade caiu?) ou ao Paraíso, os que não olharam para o Céu durante todo o ano e agora vasculham fogos estrelares artificiais, os que negligenciaram a si mesmos e aos outros (os outros, os de mais além ainda), os que falharam no cumprimento das promessas de mudanças do ano anterior.

Tenho horror às festividades de fim de ano.
Nem sempre foi assim. Houveram outros Natais, houveram outros Réveillons.
Eu era mais jovem, mais imaturo, mais crédulo no que os ‘outros’ diziam ou faziam. Havia um Espírito de Natal que me pegava quando eu cantarolava Adeste Fidelis.
Tenho horror à compulsoriedade desse período.
“Muita Paz, Saúde, Felicidade, Harmonia e Prosperidade.”. Tudo num único pacote embrulhado com fitas vermelhas e douradas.
“Feliz Ano Novo!”. Um desejo, quase promessa, de que o ano, realmente, será feliz para nossa satisfação.
Tenho horror aos presentes, aos telefonemas, às mensagens assinadas por escritores conhecidos ou desconhecidos (nesse ano passei a detestar Carlos Drummond de Andrade), às listas de “...nesse ano vou parar de fumar, vou iniciar uma nova dieta, vou telefonar mais vezes para fulano, vou fazer aquela viagem especial...”.
Tenho horror à correria, ao trânsito engarrafado, às propagandas, aos shoppings reproduzindo neves em pleno verão tropical, às reprises de filmes sobre o milagre do Natal.

Todos os anos acontece a mesma coisa.
Nesse período ‘tenho que’ ser mais produtivo, ‘tenho que’ ser mais feliz, ‘tenho que’ ser mais compreensivo, ‘tenho que’ ser mais amoroso, ‘tenho que’ ser mais dedicado, ‘tenho que’ ser mais amigo, ‘tenho que’ ser mais familiar, ‘tenho que’ ser mais natalino, ‘tenho que’ ser mais otimista, ‘tenho que’ ter mais esperanças, ‘tenho que’ ser mais inovador, ‘tenho que’ ser mais festivo, ‘tenho que’ ser mais delicado, ‘tenho que’ ser mais cortês (tiraram o chapéu do cortês?), ‘tenho que’, ‘tenho que’, ‘tenho’, ‘tenho’, ‘ tenho que’ ser muito mais do que fui, sou, ou serei.

Não sei quanto a vocês, os outros.
Eu, por mim, estou farto, estou exausto, estou exaurido de todas as minhas forças.

Assim começo mais um “Feliz Ano Novo!!!”.


Murilo Pagani
imagem: internete

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