quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Que venha 2010!


Pois
Que venha 2010!
Que venha o Universo!
Eu estou pronto.
Murilo Pagani

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Lux Aeterna

Kronos Quartet, ao vivo em Bucharest aos 11 de maio de 2008, interpreta Lux Aeterna de Clint Mansell.


Gravação de Cezar Paul-Badescu

Gloomy Sunday

Kronos Quartet em versão para Gloomy Sunday, uma canção escrita pelo pianista e compositor húngaro Seress Rezső em 1933.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A hora é de rever, recomeçar...

Agora pouco, conversando com meu porteiro, ele afirmava: "Em 2010, vou ganhar na loteria! E, eu, feliz por ele - estimulei: "Isso! Faça, jogue, tente - é possível mesmo que você chegue lá". Contei então a ele a história de outro velho amigo - ele sempre dizia isso. Dizia e jogava até que, por fim, ganhou na loteria! Não foi muito - o suficiente para viver uma vida tranquila por muitos anos...

A questão é acreditar e fazer! Acreditar que pode e tentar... Mas, na vida, como no jogo, é preciso mais que isso. É preciso estar pronto para os percalços - os acertos e erros... Bem, voltando para a conversa, resolvi desafiar o porteiro! "Ok", disse, "jogar é muito bom e pode realmente te fazer muito rico. Agora o que você vai fazer nesse meio tempo? O que fará enquanto a fortuna não chega?" É essa a questão.

O QUE FAZEMOS NO MEIO TEMPO? O QUE FAZEMOS ENQUANTO A VIDA ACONTECE? Vamos ficar só no discurso ou vamos tomar nossas vidas com as nossas próprias mãos? Fim de ano é bom para isso. Para revisitar nossas vidas, nossas relações... Quanto ao porteiro - bem, ele está já trabalhando num plano B! Vai voltar a estudar, encontrar novas oportunidades - ou seja, está se preparando, deixou de ser passivo, é agora ativo, agente, dono de sua própria sorte!

Tudo isso só para abrir a reflexão sobre essa sensação de fim de ano. Ela renova todas as nossas energias, nos traz esperanças e nos dá o direito de recomeçar - com novos planos, novos sonhos, novas possibilidades, novos eus. E isso é mais que bom, é ótimo! Podemos nos REINVENTAR! RECRIAR NOSSAS RELAÇÕES! REDESENHAR NOSSA VIDA!

Riscos, sim.

Essa é a época de arriscar - sair da estagnação, da não ação, da reação. A hora de correr riscos, agir, planejar, reinventar o futuro - viver o presente, deixar para trás o que ficou... É HORA DE ATITUDE! Sim! Todos podem correr riscos? Sim! Todos nós podemos e devemos. Somos seres humanos e como tal não somos mesmo perfeitos, mas podemos fazer a diferença, acontecer - então, que venham os desafios, o novo ano, a nova vida, as relações reinventadas!

E não importa quão longe estejamos dos nossos sonhos - é preciso dar o primeiro passo. Acreditar, fazer por merecer. E, nesse sentido, quanto antes melhor, mais cedo vamos colher os frutos... E, nesse pensar, não importa nosso estado de espírito - feliz ou triste, com a autoestima em alta ou em baixa, com ou sem um companheiro. Na virada do ano podemos experimentar fazer diferente - acordar nossos sonhos, empreender o que nunca tivemos: coragem.

Podemos aproveitar esses últimos dias como se fosse UM MEIO TEMPO - UM NÃO TEMPO - um espaço para exercitar a visão, a imaginação, o novo, o que não sabemos, validar o que temos - buscar o que queremos ser. Podemos fazer as mudanças que quisermos - no visual, no saber, no físico, no emocional. Nesse meio tempo PODEMOS TUDO!

Autoconhecimento.

Essa é uma excelente oportunidade para trabalhar o autoconhecimento! SABER EXATAMENTE ONDE ESTAMOS, TRABALHAR NO AONDE QUEREMOS ESTAR, E, MAIS CONHECER ATÉ ONDE DESEJAMOS CHEGAR... Quer mais? Só mesmo acreditando que somos responsáveis por tudo de bom e ruim que nos acontece. Então - cientes dessa nossa responsabilidade por nossas vidas - confiar que tudo, tudo que nos acontece vem para nos fazer mais fortes, mais corajosos, mais sábios... Depois é só agradecer e olhar para frente... Vamos até onde pudermos inventar.

Vale aqui um balanço geral - do que queremos ou não levar conosco para 2010. Podemos deixar para o ano velho a falta de coragem, a inveja, a descrença, as crenças erradas, o achar que sabemos tudo, que já vivemos tudo, que não há mais tempo para recomeçar. Podemos deixar para traz a vergonha, a agressividade, os medos, a falta de atitude, a tristeza, o desamor, a perda, o luto. Podemos deixar para traz tudo o que nos faz mal. Tira-nos a paz, nos tira da felicidade - do caminho.

Podemos mais - buscar o que nos faz bem, mais e melhor. Podemos viver com base no BOM, no BELO e no VERDADEIRO. Ou seja, se não estiver nesse contexto, não serve... Não acrescenta, não agrega. Não nos pertence. Nessa virada o convite é para que todos possamos exercer a força que temos e que está dentro. É difícil - mas é a hora de olhar, ver e rever o que nos fez chegar até aqui.

O que se quer.

Bom ou ruim, o que vivemos e experimentamos nos trouxe até 2010. Agora caberá a cada um definir o que quer manter, o que quer levar junto, o como se quer chegar a 2011, 2012, 2013 etc. etc. Então, meu convite a vocês é fazer a virada leves, livres, desapegados, fortes, bonitos, íntegros! Refletir como quer ser - nos próximos 10 dias, 10 meses ou 10 anos.

Aproveite para projetar-se no futuro. Estabelecer metas e, então, o plano: o que precisa ser feito, passo a passo para chegar lá? Quando descobrir, faça! Volte a estudar, adote uma criança, comece um trabalho comunitário, adote um animalzinho, faça terapia, economize, aprenda uma nova arte, encontre um novo amor, aprenda a dizer não, aprenda a dizer sim, inicie um novo ofício, leia mais, brinque mais, sorria mais, a vida, a relação, os outros agradecem!

E se puder ainda deixar uma última mensagem, deixaria para você um pedido: vamos olhar nossos erros, aprender com eles, exercitar a humildade e aprender também com os erros dos outros. E quando aprendermos, vamos mudar - não importa o quanto seja difícil -, tentar fazer diferente. Não se deixar calar, não se omitir, praticar, experimentar uma vida disciplinada, com respeito a nossos sonhos e também limites.

Viver com base na ética, na liberdade e na responsabilidade pela vida. Só assim vamos, afinal, existir e de algum modo contribuir para a construção de um mundo melhor! Feliz 2010.

Sandra Maia
Escritora
Recentemente fui apresentado ao trabalho do bailarino, coreógrafo e diretor de teatro Mats Ek, nascido em 18 de abril de 1945 em Malmö na Suécia.
Aqui assistimos Smoke com os bailarinos Sylvie Guillem e Niklas Ek com musica de Arvo Part.



Going West



Maurice Gee
New Zealand Book Council

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009


Pequena estante.

Murilo Pagani
The Scent of Love


Composed by Michael Nyman
Original music from the film by Jane Campion, The Piano
Sonata


“Sonata” é um curta-metragem animado sobre um breve e efêmero momento na vida de um homem. Ele tem de enfrentar seus medos e dúvidas e decidir se deve ou não aproveitar uma chance. A música é de Yann Tierson e pode ser encontrada na trilha sonora de Amelie Poulan (Comptine d'un autre été: L'apres midi). Na versão final deste filme, devido aos direitos de uso, uma peça separada da música foi composta especialmente para o filme.

by Ryan McDougal

We Have Decided Not to Die


Ao título eu acrescentaria uma vírgula e a palavra Today porque morrer não deixa de ser uma última opção.

Daniel Askill, 2003
Barbra Streisand canta "Cry me a River" de Arthur Hamilton, um clássico do jazz, num recital em 1967 no Central Park.


Cry Me A River

Now you say you're lonely
You cry the long night through
Well, you can cry me a river, cry me a river
I cried a river over you

Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river, cry me a river
I cried over you

You drove me, nearly drove me, out of my head
While you never shed a tear
Remember, I remember, all that you said
Told me love was too plebeian
Told me you were through with me and

Now you say you love me
Well, just to prove that you do
Cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you

You drove me, nearly drove me, out of my head
While you never shed a tear
Remember, I remember, all that you said
Told me love was too plebeian
Told me you were through with me and

Now you say you love me
Well, just to prove that you do
Come on, come on, cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
I cried a river over you

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009


“Quem nasceu pra bosta rala nunca chega a cagalhão” enunciava meu avô, João Honorato da Silva, com voz de quem lê um dos mandamentos do Velho Testamento ou cita uma epígrafe na estela de um templo ancestral. O que equivale dizer: somos todos bostas, uns mais ralos outros mais duros.
Diante do inevitável fracasso ou diante da incompetência, consumado o nefasto, confirmado o desleixo próprio ou alheio lá vinha ele com a máxima.
Por essa pautei minha conduta: bosta, bosta, antes dura que rala.
Por essa tenho horror aos perfeccionistas. Bosta é bosta.
Por essa sou dado aos acessos de fúria quando apesar de todos os empenhos a “coisa” desanda e vira uma bosta rala.
Muitos se dão por satisfeitos com a mediocridade, o embuste, o burlesco, o grotesco da bosta rala. São os apreciadores de uma boa diarreia com efeitos de respingos no alheio, os calças-sujas, os habitantes de latrinas fétidas, os cheira-cheiras de traques nauseabundos, os de cu na mão. São os mesquinhos, os chinfrins, os bebedores de vaselina. Na verdade uma maioria que se diz humana. Estão por toda parte. Esparramados nas altas ou baixas classes socioeconômicas, infestantes de todos os gêneros, constituintes de todas as raças, devotos de todos os credos, filiados de todas as políticas.
Por mais que se façam esforços são todos vãos quando por perto está um bosta rala.
Estou com os cagalhões.
Por isso me batem na cara.
Por isso como sal, areia e cascalho.
Porque como dizia também meu avô: “Passarinho que come pedra sabe o cu que tem”.
Meu avô estava coberto de razão.

Murilo Pagani

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009


Arrebatar-me, everyday.
Pelos ares, pelos mares.
Transportes místicos.
Êxtases profanos.
Day by day.


"Everyday" por Carly Comando


Similaridade de Gestos

 
Intensões e Intenções Opostas

domingo, 6 de dezembro de 2009



Sonho Impossível

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão
Composição de Joe Darion, Mitch Leigh
Versão em português de Chico Buarque

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009


Eclipse Oculto
Nosso amor
Não deu certo
Gargalhadas e lágrimas
De perto
Fomos quase nada
Tipo de amor
Que não pode dar certo
Na luz da manhã
E desperdiçamos
Os blues do Djavan...

Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia
E o corpo não agia
Como se o coração
Tivesse antes que optar
Entre o inseto e o inseticida...

Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?

Como nunca se mostra
O outro lado da lua
Eu desejo viajar
Do outro lado da sua
Meu coração
Galinha de leão
Não quer mais
Amarrar frustação
O eclipse oculto
Na luz do verão...

Mas bem que nós
Fomos muito felizes
Só durante o prelúdio
Gargalhadas e lágrimas
Até irmos pro estúdio
Mas na hora da cama
Nada pintou direito
É minha cara falar
Não sou proveito
Sou pura fama....

Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?

Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar
E aquele projeto
Ainda estará no ar...

Não quero que você
Fique fera comigo
Quero ser seu amor
Quero ser seu amigo
Quero que tudo saia
Como som de Tim Maia
Sem grilos de mim
Sem desespero
Sem tédio, sem fim...

Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?



Não Enche
Me larga, não enche
Você não entende nada
E eu não vou te fazer entender...

Me encara, de frente
É que você nunca quis ver
Não vai querer, nem vai ver
Meu lado, meu jeito
O que eu herdei de minha gente
Eu nunca posso perder
Me larga, não enche
Me deixa viver, me deixa viver
Me deixa viver, me deixa viver...

Cuidado, oxente!
Está no meu querer
Poder fazer você desabar
Do salto, nem tente
Manter as coisas como estão
Porque não dá, não vai dá...

Quadrada! Demente!
A melodia do meu samba
Põe você no lugar
Me larga, não enche
Me deixa cantar, me deixa cantar
Me deixa cantar, me deixa cantar...

Eu vou Clarificar
A minha voz Gritando
Nada, mais de nós!
Mando meu bando anunciar
Vou me livrar de você...

Harpia! Aranha!
Sabedoria de rapina
E de enredar, de enredar
Perua! Piranha!
Minha energia é que
Mantém você suspensa no ar
Prá rua! se manda!
Sai do meu sangue Sanguessuga
Que só sabe sugar
Pirata! Malandra!
Me deixa gozar, me deixa gozar
Me deixa gozar, me deixa gozar...

Vagaba! Vampira!
O velho esquema desmorona
Desta vez prá valer
Tarada! Mesquinha!
Pensa que é a dona
E eu lhe pergunto
Quem lhe deu tanto axé?
À-toa! Vadia!
Começa uma outra história
Aqui na luz deste dia "D"
Na boa, na minha
Eu vou viver dez
Eu vou viver cem
Eu vou vou viver mil
Eu vou viver sem você...

Vagaba! Vampira!
O velho esquema desmorona
Desta vez prá valer
Tarada! Mesquinha!
Pensa que é a dona
E eu lhe pergunto
Quem lhe deu tanto axé?
À-toa! Vadia!
Começa uma outra história
Aqui na luz deste dia "D"
Na boa, na minha
Eu vou viver dez
Eu vou viver cem
Eu vou vou viver mil
Eu vou viver sem você...

Eu vou viver sem você
Na luz desse dia "D"
Eu vou viver sem você...
Caetano Veloso

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Esta está no blog da Blue Velvet


Comunicado do Vaticano:

"Informam-se aos crentes que estar na cama nus, enrolados com alguém e gritar:
Oh Meu Deus! Oh Meu Deus! NÃO SERÁ considerado como oração.”


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

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E há quem não acredite em sinais.
E há quem duvide do Cosmos.
Por mim, só posso afirmar:
" - Estou no meu caminho para as estrelas!"
Murilo Pagani

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

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"Wabi sabi" e a Arte da Imperfeição.

Não sei quanto a você, mas eu ando definitivamente exausta de correr atrás da perfeição.
No outro dia me peguei medindo as toalhas de banho dobradas para que elas formassem impecáveis pilhas no meu armário. Uma amiga me diz que arruma os vidros de tempero por ordem alfabética!? E o pediatra solta um comentário bem-humorado sobre mães que se sentem pessoalmente insultadas quando seus filhos ficam gripados. Como se gripe fosse uma espécie de tinta que manchasse a perfeição dos seus pimpolhos.
Nosso índice de tolerância aos "defeitos de fabricação" do universo anda mesmo muito baixo. E isso nos torna a espécie mais “reclamona” do universo, provavelmente a única, mas é que tenho algumas dúvidas se bois e vacas interiormente não reclamam daquelas moscas sempre em volta dos seus rabos...
Passamos um bocado de tempo tentando caber nas molduras que inventamos para nós. Isso quando escapamos de tentar vestir à força as expectativas que OUTROS criaram para NÓS. Senão, me digam por que seres humanos razoáveis investiriam tanto tempo, dinheiro e energia para tentar recuperar a imagem que tinham aos 18 anos?
Por estas e por outras tantas foi que quando terminei de ler aquele livrinho senti que tinha recebido uma revelação divina! É só um livreto, mas, ao contrário, desses livros bonitinhos que a gente compra como se fosse um cartão para dizer "Feliz Aniversário" ou "Como eu gosto de você", não é tão fácil assim de ler. Muito menos de pôr em prática os conselhos da autora. Em português acabou chamando "A Arte de Viver Bem com as Imperfeições". Uma pena, eu penso. O título em inglês é "The Art of Imperfection" ou "A Arte da Imperfeição". Assim, simplesmente. Teria sido melhor. Porque é disto que Véronique Vienne fala no seu pequeno livro: das formas de perceber a beleza que se esconde nas frestas do mundo perfeito que tentamos, sempre em vão, construir para nós. Você conhece aquela história de que os tapetes persas sempre têm um pequeno erro, um minúsculo defeito, apenas para lembrar a quem olha de que só Deus é perfeito? Pois é, a “Arte da Imperfeição” começa quando a gente reconhece e aceita nossa tola condição humana. Véronique Vienne dividiu seu manual em dez capítulos de títulos muito sugestivos: a arte de cometer erros, a arte de ser tímido, a arte de se parecer consigo mesmo, a arte de não ter nada para vestir, a arte de não ter razão, a arte de ser desorganizado, a arte de ter gosto, não bom-gosto, a arte de não saber o que fazer, a arte de ser tolo, a arte de não ser nem rico nem famoso. E encerra o livro com 10 boas razões para ser uma pessoa comum.
A história está cheia de criaturas incompetentes que foram muitíssimo amadas, desajeitados com personalidades cativantes e gente boba que encanta a todos com seu jeito despretensioso. O segredo? Aceitar nossas falhas com a mesma graça e humildade com que aceitamos nossas melhores qualidades, ela diz. E propõe: "perdoe a si mesmo. (...) Você não precisa ser perfeito para ser um ser humano bem-sucedido. De fato, com mais freqüência do que imaginamos, o desejo de acertar impede as coisas de melhorarem e a necessidade de estar no controle aumenta a desordem e o caos".
A “Arte da Imperfeição”, no entanto, não se limita ao reconhecimento das imperfeições humanas. Também tem a ver com nosso jeito de olhar para as coisas mais banais, mais corriqueiras e enxergá-las com outros e mais benevolentes olhos.
Leonard Koren, um designer americano, publicou alguns livros tentando revelar para o nosso jeito ocidental as delicadezas do olhar "Wabi sabi".
"Wabi sabi" é a expressão que os japoneses inventaram para definir a beleza que mora nas coisas imperfeitas e incompletas. O termo é quase que intraduzível. Na verdade, "Wabi sabi" é um jeito de "ver" as coisas através de uma ótica de simplicidade, naturalidade e aceitação da realidade. Contam que o conceito surgiu por volta do século XV quando um jovem chamado Sen No Rikyu (1522-1591) queria aprender os complicados rituais da Cerimônia do Chá. Ele foi procurar o grande mestre Takeno Joo. Para testar o rapaz, o mestre mandou que ele varresse o jardim. Rikyu lançou-se ao trabalho feliz. Limpou o jardim até que não restasse nem uma folhinha fora do lugar. Ao terminar, examinou cuidadosamente o que tinha feito: o jardim perfeito, impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas caprichosamente ajeitadas. E então, antes de apresentar o resultado ao mestre, Rikyu chacoalhou o tronco de uma cerejeira e fez caírem algumas flores que se espalharam displicentes pelo chão.
Mestre Joo, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro. Rikyu virou um grande Mestre do Chá e desde então é reverenciado como aquele que entendeu a essência do conceito de "Wabi-sabi": a Arte da Imperfeição.
O que a historinha de Rikyu tem para nos ensinar é que estes mestres japoneses, com sua sofisticadíssima cultura inspirada nos ensinamentos do taoísmo e do zen budismo, conseguiram perceber que a ação humana sobre o mundo deve ser tão delicada que não impeça a verdadeira natureza das coisas de se revelar. E a natureza das coisas é percorrer seu ciclo de nascimento, deslumbramento e morte; efêmeras e frágeis. Eles enxergaram a beleza e a elegância que existe em tudo que é tocado pelo carinho do tempo. Um velho bule de chá, musgo cobrindo as pedras do caminho, a toalha amarelada da avó, a cadeira de madeira branqueada de chuva que espreguiça no jardim, uma única rosa solta no vaso, a maçaneta da porta nublada das mãos que deixou entrar e sair.
"Wabi sabi" é olhar para o mundo com certa melancolia de quem sabe que a vida é passageira e, por isso mesmo, bela. Para os olhos artistas de Leonard Koren, "Wabi sabi" é inseparável da sabedoria budista que ensina:


"Todas as coisas são impermanentes.
Todas as coisas são imperfeitas.
Todas as coisas são incompletas."


Daí que olhar para elas de um modo "Wabi sabi" é ver: a beleza que existe naquilo que tem as marcas do tempo (a velha cadeira de balanço com sua pintura já gasta tomando o solzinho que entra pela janela é "Wabi sabi").
A beleza do que é humilde e simples (em vez de sofisticado e cheio de ornamentos inúteis). A beleza de tudo que não é convencional (quer algo mais "Wabi sabi" do que servir à luz de velas e em toalhas de renda um simples hambúrguer?). A beleza dos materiais que ainda guardam em si a natureza ("Wabi sabi" é definitivamente papel, algodão, velhos e nobres tecidos, nada de plástico). A beleza da mudança das estações (que tal experimentar descobrir os primeiros verdes fresquinhos e brilhantes que anunciam a primavera?)
A Arte da Imperfeição é ver a vida com a tranqüilidade de quem sabe que a busca da perfeição exaure nossas forças e corrói nossas pequenas alegrias. Porque, como disse Thomas Moore, "a perfeição pertence a um mundo imaginário". No nosso mundo de verdade, aqui e agora, que tal abrir os olhos para o estilo "Wabi sabi"?

Adília Belotti

domingo, 27 de setembro de 2009

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Click na imagem para vê-la ampliada
Laerte Coutinho, cartunista.
São Paulo, 10/06/1951

sábado, 26 de setembro de 2009

Pingeon: Implossible
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Obsolescência alada


Durante muito tempo administradores e responsáveis pela saúde pública trataram a proliferação descontrolada de pombos como um problema de zoonose.

Mas a despeito de qualquer esforço oficial, essas criaturas malditas continuam se multiplicando por geração espontânea, brotando de conchas de ar-condicionado e restos de misto quente. Habituados a morar em qualquer buraco e a banharem-se em poças de chorume, os pombos já disputam com baratas e camundongos o posto de merda viva mais evoluída do nosso planeta lixo.

Usando de malícia e fazendo pose de rolinha, conseguem alimento chafurdando restos ou seduzindo pessoas de idade – geralmente solitárias e sem TV a cabo – que se entregam ao vício terminal de alimentá-los com farelo amarelo (o farelo amarelo quando misturado com refrigerante provoca efeitos alucinógenos, levando o pombo a atravessar a rua fora da faixa).

No entanto, o principal problema não é a quantidade de pombos, mas a inutilidade dessas aves. E tudo que foi feito até aqui vislumbrou apenas o controle numérico desses mendigos voadores, sem garantir nenhuma utilidade prática para a espécie – característica imprescindível para a permanência de um ser vivo no bioma.

A verdade é que os pombos foram desempregados pela modernidade, e a disfunção da raça é culpa dos correios. A partir do momento em que o serviço postal deixou de treinar as aves para a entrega de mensagens, os animais perderam serventia e não foram realocados na sociedade moderna. O pombo deixou de ser um nobre prestador de serviços para exercer o cargo de parasita urbano – disputando com guardadores de carro o posto de inutilidade mais indigesta do século XX.

Entendendo esse ornitoídeo como um comunicador desempregado, podemos não apenas buscar soluções mais criativas para o problema, como ainda enxergar paralelos curiosos com os elementos da contemporaneidade.

Em um primeiro momento, poderíamos transformar os pombos em antenas voadoras de celular, ampliando a área de cobertura das operadoras de telefonia móvel. Acoplados ao crânio das aves, as antenas poderiam ser recarregadas pelo chacoalhar frenético da cabeça desse animal, que devido a um sistema interno de roldanas e fios não consegue andar sem esse cacoete escroto.

O fato das empresas de celular costumeiramente cagarem na cabeça dos clientes só torna a implementação da idéia ainda mais verossímil. Para tornar esse pequeno incidente favorável ao negócio, as empresas argumentariam que levar uma cagada de pombo seria garantia de amplo atendimento. É possível imaginar anúncios de TV em que o cliente sorri ao ser metralhado por merda de operadora – e enche a boca pra alardear a melhor cobertura do mercado: “a TIM caga pra você”.

Por outro lado, o sindicato dos pombos poderia assegurar junto ao ministério do trabalho um cargo inútil no orçamento público, daqueles que servem para garantir a sobrevida de profissionais obsoletos como ascensoristas e senadores. Recursos tecnológicos virtuais poderiam ser gradativamente substituídos por visitas de passarinho, o que daria um ar bucólico para trocas de mensagens simples como torpedos SMS e e-mails pessoais.

Como contrapartida, teríamos o surgimento do pombo spam – aquele que atravessa longas distâncias carregando promoções de Viagra e soluções para aumentar o pênis. Nesse caso é aconselhável deletar o pombo, e você pode usar o próprio punho ou encomendar um antivírus de rapina. Nas versões populares, um urubu ficaria de vigília na janela caçando pombos com doenças medievais como tuberculose e tifo (veja pelo lado positivo, em alguns casos é melhor perder um pulmão que formatar o HD acidentalmente).

Atropelar um pombo não seria sinal de mau agouro se o último suspiro do bichinho fosse emoldurado por um teclado irritante: você provavelmente matou um PowerPoint musical. E se ao chegar de viagem, encontrar o parapeito apinhado de pombos, não se desespere...

É apenas sua caixa postal que deve estar cheia.
Fabio Lopez é carioca,
tem 29 anos e é designer formado pela Esdi.
Desenvolve e pesquisa tipografia desde 1998, e tem por hábito escrever críticas e poesias.
Seus projetos têm como característica o humor ácido e irreverente.
Também administra uma página na internet sobre design e filatelia.
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O Sabiá e o Gavião

Eu nunca falei à toa.
Sou um cabôco rocêro,
Que sempre das coisa boa
Eu tive um certo tempero.
Não falo mal de ninguém,
Mas vejo que o mundo tem
Gente que não sabe amá,
Não sabe fazê carinho,
Não qué bem a passarinho,
Não gosta dos animá.

Já eu sou bem deferente.
A coisa mió que eu acho
É num dia munto quente
Eu i me sentá debaxo
De um copado juazêro,
Prá escutá prazentêro
Os passarinho cantá,
Pois aquela poesia
Tem a mesma melodia
Dos anjo celestiá.

Não há frauta nem piston
Das banda rica e granfina
Pra sê sonoroso e bom
Como o galo de campina,
Quando começa a cantá
Com sua voz naturá,
Onde a inocença se incerra,
Cantando na mesma hora
Que aparece a linda orora
Bejando o rosto da terra.

O sofreu e a patativa
Com o canaro e o campina
Tem canto que me cativa,
Tem musga que me domina,
E inda mais o sabiá,
Que tem premêro lugá,
É o chefe dos serestêro,
Passo nenhum lhe condena,
Ele é dos musgo da pena
O maiô do mundo intêro.

Eu escuto aquilo tudo,
Com grande amô, com carinho,
Mas, às vez, fico sisudo,
Pruquê cronta os passarinho
Tern o gavião maldito,
Que, além de munto esquisito,
Como iguá eu nunca vi,
Esse monstro miserave
É o assarsino das ave
Que canta pra gente uví.

Muntas vez, jogando o bote,
Mais pió de que a serpente,
Leva dos ninho os fiote
Tão lindo e tão inocente.
Eu comparo o gavião
Com esses farão cristão
Do instinto crué e feio,
Que sem ligá gente pobre
Quê fazê papé de nobre
Chupando o suó alêio.

As Escritura não diz,
Mas diz o coração meu:
Deus, o maió dos juiz,
No dia que resorveu
A fazê o sabiá
Do mió materiá
Que havia inriba do chão,
O Diabo, munto inxerido,
Lá num cantinho, escondido,
Também fez o gavião.

De todos que se conhece
Aquele é o passo mais ruim
É tanto que, se eu pudesse,
Já tinha lhe dado fim.
Aquele bicho devia
Vivê preso, noite e dia,
No mais escuro xadrez.
Já que tô de mão na massa,
Vou contá a grande arruaça
Que um gavião já me fez.

Quando eu era pequenino,
Saí um dia a vagá
Pelos mato sem destino,
Cheio de vida a iscutá
A mais subrime beleza
Das musga da natureza
E bem no pé de um serrote
Achei num pé de juá
Um ninho de sabiá
Com dois mimoso fiote.

Eu senti grande alegria,
Vendo os fíote bonito.
Pra mim eles parecia
Dois anjinho do Infinito.
Eu falo sero, não minto.
Achando que aqueles pinto
Era santo, era divino,
Fiz do juazêro igreja
E bejei, como quem bêja
Dois Santo Antõi pequenino.

Eu fiquei tão prazentêro
Que me esqueci de armoçá,
Passei quage o dia intêro
Naquele pé de juá.
Pois quem ama os passarinho,
No dia que incronta um ninho,
Somente nele magina.
Tão grande a demora foi,
Que mamãe (Deus lhe perdoi)
Foi comigo à disciprina.

Meia légua, mais ou meno,
Se medisse, eu sei que dava,
Dali, daquele terreno
Pra paioça onde eu morava.
Porém, eu não tinha medo,
Ia lá sempre em segredo,
Sempre. iscondido, sozinho,
Temendo que argúm minino,
Desses perverso e malino
Mexesse nos passarinho.

Eu mesmo não sei dizê
O quanto eu tava contente
Não me cansava de vê
Aqueles dois inocente.
Quanto mais dia passava,
Mais bonito eles ficava,
Mais maió e mais sabido,
Pois não tava mais pelado,
Os seus corpinho rosado
Já tava tudo vestido.

Mas, tudo na vida passa.
Amanheceu certo dia
O mundo todo sem graça,
Sem graça e sem poesia.
Quarqué pessoa que visse
E um momento refritisse
Nessa sombra de tristeza,
Dava pra ficá pensando
Que arguém tava malinando
Nas coisa da Natureza.

Na copa dos arvoredo,
Passarinho não cantava.
Naquele dia, bem cedo,
Somente a coã mandava
Sua cantiga medonha.
A menhã tava tristonha
Como casa de viúva,
Sem prazê, sem alegria
E de quando em vez, caía
Um sereninho de chuva.

Eu oiava pensativo
Para o lado do Nascente
E não sei por quá motivo
O só nasceu diferente,
Parece que arrependido,
Detrás das nuve, escondido.
E como o cabra zanôio,
Botava bem treiçoêro,
Por detrás dos nevoêro,
Só um pedaço do ôio.

Uns nevoêro cinzento
Ia no espaço correndo.
Tudo naquele momento
Eu oiava e tava vendo,
Sem alegria e sem jeito,
Mas, porém, eu sastifeito,
Sem com nada me importá,
Saí correndo, aos pinote,
E fui repará os fiote
No ninho do sabiá.

Cheguei com munto carinho,
Mas, meu Deus! que grande agôro!
Os dois véio passarinho
Cantava num som de choro.
Uvindo aquele grogeio,
Logo no meu corpo veio
Certo chamego de frio
E subindo bem ligêro
Pr’as gaia do juazêro,
Achei o ninho vazio.

Quage que eu dava um desmaio,
Naquele pé de juá
E lá da ponta de um gaio,
Os dois véio sabiá
Mostrava no triste canto
Uma mistura de pranto,
Num tom penoso e funéro,
Parecendo mãe e pai,
Na hora que o fio vai
Se interrá no cimitéro.

Assistindo àquela cena,
Eu juro pelo Evangéio
Como solucei com pena
Dos dois passarinho véio
E ajudando aquelas ave,
Nesse ato desagradave,
Chorei fora do comum:
Tão grande desgosto tive,
Que o meu coração sensive
Omentou seus baticum.

Os dois passarinho amado
Tivero sorte infeliz,
Pois o gavião marvado
Chegou lá, fez o que quis.
Os dois fiote tragou,
O ninho desmantelou
E lá pras banda do céu,
Depois de devorá tudo,
Sortava o seu grito agudo
Aquele assassino incréu.

E eu com o maiô respeito
E com a suspiração perra,
As mão posta sobre o peito
E os dois juêio na terra,
Com uma dó que consome,
Pedi logo em santo nome
Do nosso Deus Verdadêro,
Que tudo ajuda e castiga:
Espingarda te preciga,
Gavião arruacêro!

Sei que o povo da cidade
Uma idéia inda não fez
Do amô e da caridade
De um coração camponês.
Eu sinto um desgosto imenso
Todo momento que penso
No que fez o gavião.
E em tudo o que mais me espanta
É que era Semana Santa!
Sexta-fêra da Paixão!

Com triste rescordação
Fico pra morrê de pena,
Pensando na ingratidão
Naquela menhã serena
Daquele dia azalado,
Quando eu saí animado
E andei bem meia légua
Pra bejá meus passarinho
E incrontei vazio o ninho!
Gavião fí duma égua!

Patativa do Assaré
Antônio Gonçalves da Silva
Assaré, Ceará, 05/03/1909 – 08/07/2002

domingo, 13 de setembro de 2009

Recebi esse e-mail de um amigo que recebeu de uma amiga.
Um artigo publicado num jornal importante do país que fala dos males da rotina que o autor destaca em garrafais, negrito e sublinhado. Ele vai muito coerentemente bem numa leitura superficial mas, ao aprofundarmos um pouquinho mais (muito não é preciso) no texto perceberemos mais uma receita de fuga de nós mesmos, alienação e dispersão de força vital.
Para começar faz afirmações sobre o funcionamento do cérebro e diz que qualquer um ficaria louco se tivesse que processar conscientemente a enorme quantidade de pensamentos que tem por dia. Então, diz que para evitar a loucura, o cérebro otimizado automatiza determinadas funções e apaga de seu registro de eventos as experiências duplicadas(?), que a rotina (repleta de experiências duplicadas) é fator de anulação do registro da passagem e conseqüente aceleração do tempo(?), que ao ficarmos mais velhos os natais chegam mais rápidos(?), e que para solucionarmos a questão devemos entupir o cérebro de novidades, mudanças, “com qualidade, emoção, rituais(?) e vida”.
*As interrogações são minhas.
Justifico-as porque não posso deixar de pensar na superficialidade de cada uma das afirmações.
O cérebro apaga experiências duplicadas? O que dizer então do aprendizado que é caracterizado pela repetição, compreensão e amadurecimento das experiências? O que dizer da necessidade fisiológica de rotina alimentar, de sono, de atividade, de prazer? O que dizer da necessidade psicológica de estabilidade, referência, identificação (para citar apenas algumas relacionadas com a rotina)? O que dizer do apelo emocional por afeto continuado, equilíbrio no humor, tranqüilidade e paz de espírito (que tédio!)?
A rotina propicia a anulação do registro da passagem do tempo e o acelera? O que dizer da mocinha que carimba documentos no cartório e de dois em dois segundos olha para o relógio na parede do fundo e suspira “- Vai dar vinte horas mas não vai dar dezessete para eu ir embora!”? (e ela só trabalha quatro horas!)
Quando ficamos mais velhos os natais realmente chegam mais rápidos ou as vitrines e decorações é que se antecipam dois meses do Advento (que já é um período de quatro semanas antes do Natal)?
Se o cérebro fica louco com o excesso de informação (o que eu duvido), será aconselhável entupi-lo de mudanças, emoções, e novas experiências (perceberam a incoerência)?
Rituais? Segundo o Houaiss a definição de ritual vem associada às práticas próprias, às regras estabelecidas, à paciência, à cerimônia, ao cuidado, e nos casos psicopatológicos ao “comportamento repetido e sem sentido aparente, mantido por um indivíduo com o fim de aliviar a ansiedade, característico de neuroses obsessivo-compulsivas”. Não seria contra senso o ritual como solução para a rotina?
Não estou aqui para julgar as escolhas pessoais que cada um faz para lidar com a própria vida, mas penso que elas, as escolhas, devem, no mínimo, ser coerentes entre si. Penso que elas, as pessoas, devem ter mais cuidado ao prescrever receitas. Penso que devemos ter muito cuidado com o que aparece publicado como solução para distúrbios emocionais ou psicológicos. Penso que um pouco de reflexão e avaliação podem evitar a propagação de tamanha confusão mental.
Penso que não tenho nada pessoalmente com isso.
Penso que não tenho conselhos para dar ou vender à ninguém.
Penso que estou, apenas, pensando.
Penso que meu cérebro vai bem obrigado.
Penso que estou acima da média, porque tenho mais de 60 mil pensamentos processados por dia.

Segue o artigo (sem o nome do autor e do jornal para evitar quebra na minha rotina com processos judiciais):

A Mente apaga registros duplicados.

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio... você começará a perder a noção do tempo.
Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.
Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar:

Nosso cérebro é extremamente otimizado.Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho.
Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e, portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo. Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e “apagando” as experiências duplicadas.

Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente.
Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo. Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo. Como acontece? Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência). Ou seja, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa são apagados de sua noção de passagem do tempo.

Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida. Conforme envelhecemos as coisas começam a se repetir - as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações, enfim... As experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo. Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.
Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a... ROTINA.
A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.

Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo: M & M (Mude e Marque).

Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas. Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia). Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo. Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente. Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes. Seja diferente. Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos... Em outras palavras... V-I-V-A!!!
Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo. E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais v-i-v-o do que a maioria dos livros da vida que existem por aí.
Cerque-se de amigos. Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes.

Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é?
Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.
E S CR EVA em tAmaNhos diFeRenTes e em CorES di f E rEn tEs !
CRIE, RECORTE, PINTE, RASGUE, MOLHE, DOBRE, PICOTE, INVENTE, REINVENTE... V I V A !!!!!!!!

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...