Sonhos



I
Sonho com crianças muito freqüentemente
Vivas e mortas
Aquelas que brincam, aqui e no céu
Entre o paraíso e o inferno
Acima do bem e do mal
Vivas e mortas
Aquelas embalsamadas, amortalhadas em faixas
Em caixas de papelão e silenciosas
Vivas e mortas

II
Sonho com crianças
Pequenas linhas verticais cortando horizontais “semicurvas”
Um cachorro verde passa
Cor de esmeralda
Meu olhar perdido entre o limite e o limite
Entre a memória e o esquecimento
Pequenas flores pintadas, à mão, nas paredes
Desmaiadas
Lilases
Raminhos de Alecrim.

III
Depois, sonho com crianças
Depois, choro
Depois, rio
E choro depois de rir
Enquanto sonho.

IV
Entre o azul e o verde, a linha de nanquim
Firme e suave, desenha arabescos
Iluminuras medievais
Pecadores devorados por demônios.

V
Isso me dá vontade de chorar um choro de criança
Ainda sei chorar um choro de criança
Choro
Depois, não choro mais e fico quase feliz

VI
Escrevo tudo
Mesmo que não faça sentido
Mesmo que ninguém entenda
Para depois que eu morrer
Para depois que eu enlouquecer
Para que todos saibam e não entendam e admirem-se e maldigam-me e amaldiçoem-me e perdoem-me
Para que me esqueçam em suas mentes
Para que me esqueçam em suas preces
Para que todos chorem quando lembrarem-se.

VII
Ainda choro uma vez mais
Tudo é lastimável
Choro
Pronto, não choro mais
É o suficiente
O sufi ciente.


Murilo Pagani
20/11/1992

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