- Pensando em quê?
- Nada.
- Ninguém fica pensando em nada. Pensando em quê?
- Estava lembrando quando nos conhecemos, de como você estava vestida, na faculdade de filosofia, um vestido com umas flores vermelhas, eu achava que você ficava linda de azul e você gostava do vermelho porque é a cor do seu signo, aquela turma louca do Tatu, quando acampávamos, você prendia seu cabelo de um jeito engraçado e dizia que não estava ligando para a moda daquelas burguesinhas da sua turma de história e ficávamos para trás, descolados da turma do Tatu que sempre arranjava uns lugares perigosos para armar a barraca, e rolava um baseado e sonhávamos com uma viagem a Índia para nos convertermos ao budismo, por causa da história que você leu do Taj Mahal e eu achava louquíssimos, o mausoléu e tal, e depois viajamos pra Bahia no carnaval depois da formatura, nunca mais vi o pessoal da faculdade, lembra?, depois que nos casamos nunca mais vi o Tatu, acho que vocês não se davam bem, engraçado pensei isso agora , e o apartamento minúsculo que seu pai nos alugou e cobrava rigorosamente o aluguel mesmo quando o Gabriel nasceu e teve que operar de adenóide, quem sabe o deixamos com sua mãe e tiramos quinze dias de férias e vamos pra Índia?, só quinze dias já dá pra descansar, porque eu estou com três férias vencidas, exausto e você também e bem que merecemos uma segunda lua-de-mel em dezessete anos , e lá agora é outono como aqui e não está muito calor e nem tem a tal da monção com chuvas torrenciais, não sei como aquele povo agüenta, e quinze dias não vão matar sua mãe que adora ficar com o Gabriel e lá está mais perto do cursinho e daquele amigo dele que não desgruda, você conheceu os pais dele?, terça de manhã ele tava de cueca “dentro” da geladeira tomando leite no bico da caixinha, porque eles não comem carne de vaca na Índia?, esse negócio de vaca sagrada, e tem templos para ratos, nós poderíamos pegar uma excursão num pacote de viagem que fica mais barato e depois faríamos nosso próprio roteiro, o quê que você acha?
- O quê?
- Você ouviu o que eu disse?
- O quê?
- Nada.
- Põem o lixo prá fora?
- Ponho.
... ... ...
- Alô, mãe?!
- Sou eu, filha.
- Marcelo mandou um cartão da Índia!
- Como assim da Índia, minha filha!
- Pois é. Da Índia.
- Não entendo essa história. Está fazendo quanto tempo agora?
- Três meses.
- Minha filha, não é possível uma situação dessas. Não me conformo. Como um homem vai por o lixo pra fora e desaparece para mandar um cartão da Índia três meses depois? Você tem certeza que ele não falou nada?
- Nada.

Murilo Pagani

Comentários