Passar a limpo.
Há muito tempo não escrevo e preciso tomar fôlego.
Organizar as idéias. Avaliar as mudanças ocorridas nos últimos anos.

Abri as pastas, resgatei textos, desenhos, projetos.
Redescobri muitas coisas que julgava perdidas e outras tantas inevitavelmente desaparecidas.
A vida é assim, perdas e ganhos. Uma conta nem sempre justa (ou justa além da minha compreensão).

Esta “coisa” que é escrever é inexplicável.
Mas tudo está lá.
A escrita está lá. Intocável me aguardando.
Marguerite Duras escreveu certa vez que a escrita é assim, “ ...é um tipo de faculdade que se possui ao lado da personalidade, paralelo a ela, uma outra pessoa que aparece e avança, invisível, dotada de pensamento, cólera, e que por vezes acaba colocando a si mesma em risco de perder a vida.”

Reler é bom.
É possível avaliar o quanto mudei. O quanto amadureci.
É possível ver também como algumas palavras já estavam anunciando o que sou hoje
(a escrita também tem este aspecto profético).Como o texto que segue, no qual descrevo, com um ano de antecedência, a casa em que vivo, o modo que trabalho.


03 de dezembro de 2003.


“Será uma casa grande.
Mas não será possível esquecer-se em nenhum canto fora do todo.
Será arejada.

Talvez com ares provençais.
Não. Não haverá um campo fora. Provavelmente um pequeno jardim voltado para o norte em lugar do quintal.

A luz externa é suavizada por finas cortinas.
É possível ver a luz por todo o tempo.
Mesmo à noite com a casa apagada há uma luminosidade azulada invadindo o espaço.
Há muita sombra por onde a luz avança.
Ela, a luz, avança sem revelar nada, revelando tudo. Todo momento.

Há um silêncio escolhido por você, um silêncio perpétuo.
Você desliza sobre o silêncio, sempre em silêncio.
Você canta em silêncio.
O silêncio é sua necessidade.
Sua possibilidade de regeneração.

Você estará alheio ao que se passa fora da casa, absorvido pela casa.
Você trabalhará em alguma atividade que não exija seu afastamento dessa casa.
Deverá ser longa sua permanência nesse lugar pacificador.

Será sua escolha.
O silêncio e essa luz serão suas escolhas.
Haverá a possibilidade de estar vivo com você mesmo.”
Murilo Pagani

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