Minha última encadernação foi por volta do século XII.

Tipo: “Bestiarium – Muestrario”.
Lugar de origem: Lombardia
Formato: 276 x 183 mm
Extensão: 122 folhas
Língua: grego
Conteúdo: compilação de histórias e alegorias instrutivas de animais, descrição principalmente de animais e plantas.
Iluminação: 129 miniaturas sobre fundo dourado.
Conservação: pergaminho de carneiro em bom estado; capa de madeira revestida com couro de cabra marcado com rosetas e florões em policromia apresenta fissuras nas seixas e encaixes; costura com fio de linho; ferragens de prata na lombada e frente apresentam trincas e perda no suporte.
Os mostruários eram uma ajuda imprescindível para todos os ateliers de artistas e se podia recorrer com freqüência a eles na hora de reproduzir animais selvagens, como os leopardos ou leões, que não se conheciam ao vivo.

Antes disso fui plaquinha de argila na Suméria, estela talhada no Egito, esteira de bambu na China, rolo de papiro na Grécia, mas minha preferida ainda é o Bestiarium do séc. XII.
Sei disso graças aos testes de carbono quatorze.
No total tenho aproximadamente 5.000 anos e isso é profundamente exaustivo.
Uma vida tão longa pode matar uma pessoa, mas como não sou pessoa vou ficando com essas marcas estranhas pelas páginas. Nódoas suspeitíssimas, manchas de gordura, orelhas mordidas, anotações a lápis e caneta, grifos, umidades, amarelados pelas bordas, ilustrações mal recoloridas. Fazer o quê? Vai-se.
Há dias em que tenho saudade do bestiário manuscrito e fico medieval, nobre, pesquisado por artistas, repleto de infinita sabedoria, a prata brilhante.
Há outros tantos em que sou só uma brochura, uma apostila de vestibular toda rabiscada e rasgada.
Houve uma vez em que quase fui queimado em praça pública.





Murilo Pagani

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