Madrugada


No meio da noite.
No início do sono que não estava lá.
Havia o som de vozes, e risos, e crianças, e mulheres, e homens, e o alarido de uma festa, e um estalo surdo, e taças, e uma batida seca de porta, e uma ária de Puccini.
Abri os olhos no meio do sono no início, que não estava lá, e nada mais estava.
A casa submersa na escuridão azul silenciosa da madrugada.
A casa em silêncio.
Fechei os olhos e tudo voltou, inclusive a ária de Puccini que eu não conhecia e reconheci dias depois num programa de rádio.
Abri os olhos, silêncio.
Levantei-me e caminhei na escuridão azul.
Silêncio dentro e fora.
Fui até a cozinha.
Até a geladeira.
Abri.
A luz desenhou um corredor por onde entrei.
No fim da passagem, uma garrafa de água, uma embalagem de leite, três ovos e num pires branco duas metades de limão.
Duas metades de limão sobre um pires branco sobre a prateleira de grade dentro da caixa branca no fim da passagem de luz na minha frente.
Tomado de horror e desespero corri o caminho de volta para a cama e entrei na festa ao som de “Madame Butterfly”, terceiro ato, cena do “hara-kiri”.
No meio da noite, no início do sono que não estava lá.
Murilo Pagani
19/03/2002

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