Este menino que está aí ao lado nasceu desenhando, lendo e escrevendo. Nessa ordem.
Digo isso porque das lembranças mais remotas e agradáveis que tenho estão meus momentos imerso em desenhos, leituras e escritas.

Lembro-me de minha mão pequena, muito nitidamente, desenhando muitas coisas. Eu desenhava tudo. Desenhava e coloria. Desenhava e recortava. Desenhava, recortava e colava. Lembro-me de meus olhos buscando as linhas dos objetos e de outros desenhos para reproduzi-las no papel. Lembro-me de enxergar formas nas nuvens, nas manchas de lodo no muro do quintal, nos veios das madeiras dos móveis, nas estampas das cortinas do quarto na hora da sesta. Lembro-me da harmonia nas composições dos bordados da roupa de cama. Lembro-me de buscar a perfeição no traço, a profundidade da imagem, a perspectiva correta. O desenho ajustado à visão. Quando fui ao cinema pela primeira vez eu devia contar aproximadamente sete anos. Minha avó morava a um quarteirão do extinto cine Metrópole e, numa tarde ociosa de domingo, lá fui eu com outros primos tangidos pelas mãos do meu tio assistir Branca de Neve. O impacto dessa tarde alterou definitivamente minha vida. Como aquilo acontecia? Como era feito? Ah, as mãos que se moviam! Os desenhos se moviam, falavam, cantavam, dançavam e chegavam a um final feliz depois de toda a peleja! Aquilo era possível! Walt Disney foi meu primeiro e melhor amigo. Aprendi muito com ele. Ele desenhava e eu copiava à perfeição. Nossa amizade esfriou muitos anos depois quando descobri que havia uma equipe enorme fazendo aqueles desenhos que eu pensava que eram dele. Descobri, assim, que os amigos, mesmo os melhores amigos, mentem.

Lembro-me também de ler. Quando não desenhava, lia. Minha mãe comprava livros e mais livros mesmo antes de eu ir para a escola. Naquela época os livros vinham de porta em porta. Um moço tocava a campainha, entrava e abria uma pasta grande e preta de onde retirava folhetos, catálogos e volumes mostruários dos últimos lançamentos. Essas visitas regulares eram aguardadas com certa ansiedade. Minhas primeiras coleções foram “O Mundo da Criança” (que conservo até hoje e é referência para toda a poesia de minha vida) e “Delta Júnior” (essa, perdida) que me ligou definitivamente às ciências e à curiosidade sobre todas as coisas. Nela dei meus primeiros passos na mitologia para a compreensão dos arquétipos e aprendi que Zeus e Júpiter são um só, mas confundidos pelos homens que são muitos e diferentes uns dos outros. Zeus foi meu segundo melhor amigo (sim, Zeus, porque Zeus era grego e Júpiter era romano e os romanos vieram depois dos gregos e foram eles que começaram a confusão) ele era poderoso, justo, namorador, controlava os raios e morava no alto de uma montanha chamada Olimpo. Foi ele quem me apresentou Phebo e Dionísio. Formamos um bom quarteto. Essa amizade dura até hoje. Amadurecida, sólida, inabalável. Depois vieram outros grandes amigos, os livros sempre foram meus melhores amigos em todos os momentos de minha vida. Posso dizer que salvaram minha existência nesse mundo.

Na seqüência vem à escrita. Escrever era desenhar palavras. Tenho uma lembrança muito viva: estou sentado à mesa da cozinha, um caderno pautado a minha frente, minha mão desenha, com um lápis preto, umas letrinhas miúdas da direita para a esquerda. Aquilo não estava bom. Não sou canhoto e a mão escrevia e manchava o que escrevia. Não sei de onde tirei aquilo, escrever espelhado. Como podia ser? (foi na adolescência que descobri os cadernos de Leonardo da Vinci e ele tornou-se meu ídolo definitivo antes do Batman – mas isso é outra história). Eu lia da esquerda para a direita e escrevia da direita para a esquerda. Dá-lhe exercício. Escrever, escrever, escrever. Poderia ser traumático para uma criança em alfabetização fazer páginas e páginas de cópias escrevendo de um jeito diferente do que sabia para esquecer o jeito diferente que sabia. Eu adorava. Adorava porque copiava as poesias do “Mundo da Criança” e as histórias de Zeus. E depois desenhava. E foi assim que comecei a fazer meus próprios livros. Claro que eu não sabia disso àquela altura e só muito, mas muito mais tarde tive essa lucidez. Para dizer a verdade, acabei de chegar a essa conclusão.

Isso tudo é para compreender porque estou aqui.
Venho me rever.
Venho me reencontrar.
Estou num momento de desenhar, redesenhar, cortar, recortar, colar e "recolar".
Estou num momento de ler e reler.
Estou num momento de escrever e reescrever.
Porque diria meu avô materno (porque o paterno morreu antes de eu nascer):
“- Escreveu não leu, o pau comeu.”





“Memória da Árvore 2005”
Encadernação
Murilo Pagani

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