A Casa



















Os dedos pousam sobre os lábios.
É preciso não dizer...

Brancos obstinados.
Silêncio branco.
Perdi-me no sonho da casa branca.
Na brancura do piso, das paredes, do teto.
O sonho branco do silêncio sob a luz
Do Sol no jardim.
Passos leves percorrendo os espaços.
Pequenos sons secretos que não ouvimos
Nas casas que não são nossas.

A casa mergulhada nas três horas,
No perfume de sabão de coco e pinho.
Lavada num dia quente de primavera.
Dia lasso.
Luminescente.
Três horas da tarde.
Chopin e Debussy.

O vaso de cristal com copos-de-leite.
Vai longa à tarde na penumbra
Com olor de lírios.
Venezianas de madeiras aromáticas.

Luzes brancas, amarelas, douradas,
Sobre os múltiplos insetos do jardim.
Contos de Grimm.

O sonho do desejo do pensamento
Do esquecimento no Amor.
As fotos mortas dos ancestrais nos passeios,
Nos delírios, nos passados, nos tempos.
Horas mudas.
Poemas de Florbela.
Brancos e amarelos.
Licor de pequi.
Ocres transparentes.
Taça de âmbar.
Sépias obscuros.

É sempre preciso lembrar de ver os girassóis
Na enorme sala da frente com as janelas
Voltadas para o leste.
Nascentes.
Nós não víamos o Sol.
Porcelanas secando sobre o mármore.
açúcar mascavo
chá de jasmim
bolo de frutas
manteiga
macarrão
compota de damasco
latas de biscoito
passas brancas
cravo
queijo
orégão
ameixa
pêssegos
figos
Não esquecer os ovos (duas dúzias).
Na cristaleira a compoteira.
“...goiaba vermelha.
Eu tinha só três anos
E os cabelos negros,
Como os olhos.
Depois a tarde se desfez em estilhaços.
Muitos brancos no piso de ladrilhos.”

Um gato azul salta sobre a janela.
Água de alfazema
Alecrim
Mangerona
Elevante
Maceração de ervas.
A bacia de bronze.
O espelho de prata.
A chave de cobre.
O segredo dos sonhos.
Adormecimento.
Predições do futuro para lembrar, para esquecer.

O silêncio na tarde.
A vertigem no voo sobre si mesmo.
Viagem de esquecimento ao vir a ser.
O dragão de jaspe flutua na hora.
Flores púrpuras.
Silfos encantados.
Depois os espíritos dos elementares
Arfaram levemente palavras secretas.
Apenas isso.
As mãos estendidas em bênçãos.
Orações pagãs.
Sortilégios.
As almas encantadas passaram.

Brisa.
O tempo parou para ouvir.
Farfalhar de folhas.
Madressilva.
Primeiro eu caminhava,
Depois não.
Os corredores, os quartos,
Interlúdio.
Tarde morna, brisa morna, água morna.
Banheira de louça, sabonete.
O banho transborda pelo piso de pastilhas
Avança à porta, ao corredor, aos quartos,
Às salas, ao pátio.
A casa banhada, perfumada por ervas:
Capim cheiroso
Angélica
Colônia
Flor do campo
Frescor de banho na tarde morna.
Reflexos aquáticos.

Lençóis de algodão,
Lavanda.
Travesseiros de macela,
Bordados.
Caixa de costura,
Pau-marfim.
Tecedura dos mistérios familiares.
Tramas de crochê
Contadas ponto a ponto.
Ponto a ponto.
Penélope.
Xales de renda perfumados com raízes
Na gaveta de cima.
Cômoda em marchetaria.
Jacarandá
Embaúba
Cedro
Ébano.
Xales de Tonquim.
Sândalo branco.
Rendas de guipure.
Velhas tias de estirpe.
Rainha Sophia.
Rainha Catharina.
Há um dragão grená
Sobre a mesinha de cabeceira.
Pequena Salamandra
Jaspe sanguíneo.
O duplo sentido da luz.
Âmbar gris.
A Obra em Branco.
Nossa Senhora das Graças.
O sacrilégio do amor celeste.
Ambrosia e néctar.
Zeus e Ganimedes.
Phebo e Jascinto.
Ícones de marfim.
"A Casa 1992//2000"
Nanquim
Murilo Pagani

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