Os olhos.
Sempre os olhos.
Atraem, recuam, tornam a mostrar-se, recusam, insistem, mistificam, mitificam, atraiçoam, entregam, vasculham, interrogam, desistem, tomam, fogem de si mesmos.
Seus olhos intimidam-me.

É sempre pelos olhos que você me prende.
Os seus são os mais perturbadores, profundos, que já vi.
Sumidouros. Mergulhar é perecer, ceder, sucumbir às possibilidades.
Vislumbrar todo o Universo e também amesquinhar-me no pequeno que você vê. Encontrar-me e perder-me. Desintegrar-me e recompor-me.
Afastar-me de mim enquanto você afasta-se de mim. Sem chance de retorno ao que há de real no conforto da segurança do mundo que você me proporcionou. No mundo em que você está.

Sinceros e capazes de qualquer coisa incluindo a mentira de não me verem a olhá-los.
Seus olhos são os mais sinceros que já vi.
Seus olhos são assassinos.

Não nos vemos mais.
Você se nega.
Eu finjo não ver.
Fecho meus olhos e você não vê que fecho meus olhos.
Você só vê o que acredita ser real. O que criou de visão.
Negarei minha visão dos seus olhos não me vedo partir.
Partindo sem olhar para trás.
Quando olho não quero ver nada. Fora do alcance do seu e do meu foco.
Quero que meus dias apaguem-se uns após os outros na retina de meus olhos, como devem apagar-se, sem dor. Em dor.
Que cada dia perca-se entre o que você vê e o que você nega-se a ver.

Que você não veja nada.
Você já não vê.
Você esquece-se de ver.
Você está cego na visão do seu olhar que partiu.
Ao seu redor, mais nada é visto.
Olhar branco.
Esqueça-se.
Não veja.
Não importa mais.



Murilo Pagani
11/06/1999

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