23/junho/1999
Inverno
quinta-feira

Nesta terra os Invernos são secos.
Excepcionalmente, neste ano, chora.

O ar mais leve e úmido permite-me respirar melhor.
Outros aromas.
Velhos perfumes.
Memórias olfativas.

A chuva corre pelas calhas encharcando o jardim junto ao escoadouro. Pequenas e grandes poças móveis refletem a luz de lanternas e de outras fontes indefinidas. Para além do portão, na rua, o asfalto renova-se de cores e brilhos. Ostra negra nacarada. Toda a visão da paisagem muda. As nuvens baixas rebatem as luzes da cidade num clarão espectral. Um chamamento mágico.

Hoje, a Lua é crescente.
A paisagem é minguante.
No jardim as folhas e as flores tombam sob o peso das águas.
Tombo sob o peso das águas.
Ouço os pingos no lajedo como notas difusas, dissonantes ao piano.

Nesta chuva todos estamos paralisados.
Não há nenhuma alma por perto.
Esta seria uma boa noite para morrer.
Nenhum som além do som da chuva lá fora.
Nenhum som além do som da chuva aqui dentro.
Até o frio perdeu sua intensidade no espanto da chuva.
Chuva que desabou no fim da tarde cinza.
Chuva que se prolonga até estas horas.
A perplexidade dessa chuva.
A perplexidade desta calma que se instalou.

Encharco-me desta chuva.
Submerjo.
Sou poça vazia de reflexos e brilhos e cores.
Sou um vazio de luzes dessa chuva.

São 02h38min...

Murilo Pagani

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