Das origens

Não é aconselhável imaginar esse ateliê (...) segundo o ateliê de um Courbet ou de um Picasso. O italiano é de uma clareza cristalina nessa questão: é una bottega, uma loja, uma tenda - quer dizer, um estabelecimento como o sapateiro, o açougueiro, ou o alfaiate o possuem, um rés-do-chão, um local aberto para a rua, no mesmo plano que a rua barulhenta de Florença em que se vive, em que as crianças brincam, onde os cães, os porcos e as aves circulam livremente.
Miniaturas, afrescos da época dão uma idéia dessas botteghe de artistas: um aposento apenas, caiado de branco, que nenhuma vidraça (sendo o vidro alongado ainda tão caro) isola do exterior; às vezes o guarda-vento é utilizado, e serve de postigo, de porta. As peças de habitação encontram-se no fundo, ou no primeiro andar. Pendem ferramentas dos muros, entre esboços, os planos, as maquetes, os trabalhos em via de serem feitos.Tamboretes e cavaletes misturam-se aos bancos. Uma mó fica diante de um forno. E várias pessoas, entre as quais os pequenos aprendizes, os assistentes - que vivem em geral debaixo do teto do mestre e comem à sua mesa - , trabalham lá, ao, mesmo tempo em diferentes tarefas.
Do lado de fora, algumas obras modestas, típicas da produção costumeira da casa, podiam estar penduradas à guisa de propaganda: os ateliês florentinos mais célebres não tinham preconceito com obras que se qualificariam hoje em dia de "comerciais"; semelhantes a pequenas usinas, constituíam mercados de negócios, que rendiam e deviam render de todas as maneiras possíveis. (...) Sem se envergonhar disso, o pintor ornava cofres, louças de noivado, escudos, cabeceiras de leitos, coberturas para cavalos, telas de tendas, desenhava padrões para os bordadores, para os tecelões, para os ceramistas. Sem constrangimento, e sem ocultar isso - pelo contrário -, o ourives ou escultor (que às vezes também era arquiteto) fabricava peças de armadura, candelabros, sinos, capitéis de coluna e móveis.
Por causa desse aspecto de sua produção, assim como de seu meio e de seu modo de vida, o artista toscano de meados do século XV praticamente não se distingue, à primeira vista, do simples artesão.

BRAMLY, Serge. Leonardo da Vinci 1452-1519;
tradução de Henrique de Araujo Mesquita.
Rio de Janeiro: Imago Ed., 1989. p80-81

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