quarta-feira, 31 de dezembro de 2008


Passa o tempo.
Inexorável, intangível, irremediável.
Suas rotas vestes roçam-me a face pálida.
Susto o hálito, paralisado o diafragma.
Deflagra em mim, nos últimos minutos do dia,
o arrepio gelado das almas.
Mentalmente indago:
- Aonde vais assim ligeiro, ainda que velho e coxo?
Responde-me ele com inequívoco escárnio:
- Não vou, meu filho. Fui.
Murilo Pagani
imagem: Toni Verdú Carbó
Faço minhas as palavras de Borges:


" Eu sempre imaginei que o Paraíso fosse algo assim como uma biblioteca."
Jorge Luís Borges
Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 - Genebra, 14 de junho de 1986

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Mais Humanidade* em 2009


De hominis dignitate oratio(1480)
(Discurso sosbre a dignidade do homem)
(extrato)

Li nos escritos dos Árabes, venerandos Padres, que, interrogado Abdala Sarraceno sobre qual fosse à seus olhos o espectáculo mais maravilhoso neste cenário do mundo, tinha respondido que nada via de mais admirável do que o homem. Com esta sentença concorda aquela famosa de Hermes: “Grande milagre, ó Asclépio, é o homem”.

Ora, enquanto meditava acerca do significado destas afirmações, não me satisfaziam de todo as múltiplas razões que são aduzidas habitualmente por muitos a propósito da grandeza da natureza humana: ser o homem vínculo das criaturas, familiar com as superiores, soberano das inferiores; pela agudeza dos sentidos, pelo poder indagador da razão e pela luz do intelecto, ser intérprete da natureza; intermédio entre o tempo e a eternidade e, como dizem os Persas, cópula, portanto, himeneu do mundo e, segundo atestou David, em pouco inferior aos anjos. Grandes coisas estas, sem dúvida, mas não as mais importantes, isto é, não tais que consintam a reivindicação do privilégio de uma admiração ilimitada. Porque, de facto, não deveremos nós admirar mais os anjos e os beatíssimos coros celestes?

Finalmente, pareceu-me ter compreendido por que razão é o homem o mais feliz de todos os seres animados e digno, por isso, de toda a admiração, e qual enfim a condição que lhe coube em sorte na ordem universal, invejável não só pelas bestas, mas também pelos astros e até pelos espíritos supramundanos. Coisa inacreditável e maravilhosa. E como não? Já que precisamente por isso o homem é dito e considerado justamente um grande milagre e um ser animado, sem dúvida digno de ser admirado.

Mas, escutai, ó Padres, qual é essa condição de grandeza e, com a vossa liberalidade, prestai um ouvido benigno e tolerante a este meu discurso. Já o Sumo Pai, Deus arquitecto, tinha construído segundo leis de arcana sabedoria este lugar do mundo como nós o vemos, augusto templo da divindade. Tinha embelezado a zona super-celeste com inteligências, avivado os globos etéreos com almas eternas, povoado com uma multidão de animais de toda a espécie as partes vis e fermentantes do mundo inferior. Mas, consumada a obra, o Artífice desejava que houvesse alguém capaz de compreender a razão de uma obra tão grande, que amasse a beleza e admirasse a sua grandeza. Por isso, uma vez tudo realizado, como Moisés e Timeu atestam, pensou por último criar o homem. Dos arquétipos, contudo, não ficara nenhum sobre o qual modelar a nova criatura, nem dos tesouros tinha algum para oferecer em herança ao novo filho, nem dos lugares de todo o mundo restara algum no qual se sentasse este contemplador do universo. Tudo estava já ocupado, tudo tinha sido distribuído nos sumos, nos médios e nos ínfimos graus. Mas não teria sido digno da paterna potência não se superar, como se fosse inábil, na sua última obra, não era próprio da sua sapiência permanecer incerta numa obra necessária, por falta de decisão, nem seria digno do seu benéfico amor que quem estava destinado a louvar, nos outros, a liberalidade divina, fosse constrangido a lamentá-la em si mesmo.

Estabeleceu, portanto, o óptimo artífice que, àquele a quem nada de especificamente próprio podia conceder, fosse comum tudo o que tinha sido dado parcelarmente aos outros. Assim, tomou o homem como obra de natureza indefinida e, colocando-o no meio do mundo, falou-lhe deste modo: “Ó Adão, não te demos nem um lugar determinado, nem um aspecto que te seja próprio, nem tarefa alguma específica, a fim de que obtenhas e possuas aquele lugar, aquele aspecto, aquela tarefa que tu seguramente desejares, tudo segundo o teu parecer e a tua decisão. A natureza bem definida dos outros seres é refreada por leis por nós prescritas. Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás para ti, segundo o teu arbítrio, a cujo poder te entreguei. Colocamos-te no meio do mundo para que daí possas olhar melhor tudo o que há no mundo. Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tivesses seguramente escolhido. Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo”.

Ó suma liberalidade de Deus pai, ó suma e admirável felicidade do homem! Ao qual é concedido obter o que deseja, ser aquilo que quer. As bestas, no momento em que nascem, trazem consigo do ventre materno, como diz Lucilio, tudo aquilo que depois terão. Os espíritos superiores ou desde o princípio, ou pouco depois, foram o que serão eternamente. Ao homem nascente o Pai conferiu sementes de toda a espécie e germes de toda a vida, e segundo a maneira de cada um os cultivar assim estes nele crescerão e darão os seus frutos. Se vegetais, tornar-se-á planta. Se sensíveis, será besta. Se racionais, elevar-se-á a animal celeste. Se intelectuais, será anjo e filho de Deus, e se, não contente com a sorte de nenhuma criatura, se recolher no centro da sua unidade, tornado espírito uno com Deus, na solitária caligem do Pai, aquele que foi posto sobre todas as coisas estará sobre todas as coisas.

Quem não admirará este nosso camaleão? [...]
Giovanni Pico della Mirandola
Mirandola, 24 de fevereiro de1463 – Florença, 17 de novembro de 1494

*qualidade de quem realiza plenamente a natureza humana

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

- Pensando em quê?
- Nada.
- Ninguém fica pensando em nada. Pensando em quê?
- Estava lembrando quando nos conhecemos, de como você estava vestida, na faculdade de filosofia, um vestido com umas flores vermelhas, eu achava que você ficava linda de azul e você gostava do vermelho porque é a cor do seu signo, aquela turma louca do Tatu, quando acampávamos, você prendia seu cabelo de um jeito engraçado e dizia que não estava ligando para a moda daquelas burguesinhas da sua turma de história e ficávamos para trás, descolados da turma do Tatu que sempre arranjava uns lugares perigosos para armar a barraca, e rolava um baseado e sonhávamos com uma viagem a Índia para nos convertermos ao budismo, por causa da história que você leu do Taj Mahal e eu achava louquíssimos, o mausoléu e tal, e depois viajamos pra Bahia no carnaval depois da formatura, nunca mais vi o pessoal da faculdade, lembra?, depois que nos casamos nunca mais vi o Tatu, acho que vocês não se davam bem, engraçado pensei isso agora , e o apartamento minúsculo que seu pai nos alugou e cobrava rigorosamente o aluguel mesmo quando o Gabriel nasceu e teve que operar de adenóide, quem sabe o deixamos com sua mãe e tiramos quinze dias de férias e vamos pra Índia?, só quinze dias já dá pra descansar, porque eu estou com três férias vencidas, exausto e você também e bem que merecemos uma segunda lua-de-mel em dezessete anos , e lá agora é outono como aqui e não está muito calor e nem tem a tal da monção com chuvas torrenciais, não sei como aquele povo agüenta, e quinze dias não vão matar sua mãe que adora ficar com o Gabriel e lá está mais perto do cursinho e daquele amigo dele que não desgruda, você conheceu os pais dele?, terça de manhã ele tava de cueca “dentro” da geladeira tomando leite no bico da caixinha, porque eles não comem carne de vaca na Índia?, esse negócio de vaca sagrada, e tem templos para ratos, nós poderíamos pegar uma excursão num pacote de viagem que fica mais barato e depois faríamos nosso próprio roteiro, o quê que você acha?
- O quê?
- Você ouviu o que eu disse?
- O quê?
- Nada.
- Põem o lixo prá fora?
- Ponho.
... ... ...
- Alô, mãe?!
- Sou eu, filha.
- Marcelo mandou um cartão da Índia!
- Como assim da Índia, minha filha!
- Pois é. Da Índia.
- Não entendo essa história. Está fazendo quanto tempo agora?
- Três meses.
- Minha filha, não é possível uma situação dessas. Não me conformo. Como um homem vai por o lixo pra fora e desaparece para mandar um cartão da Índia três meses depois? Você tem certeza que ele não falou nada?
- Nada.

Murilo Pagani

domingo, 10 de agosto de 2008


Minha última encadernação foi por volta do século XII.

Tipo: “Bestiarium – Muestrario”.
Lugar de origem: Lombardia
Formato: 276 x 183 mm
Extensão: 122 folhas
Língua: grego
Conteúdo: compilação de histórias e alegorias instrutivas de animais, descrição principalmente de animais e plantas.
Iluminação: 129 miniaturas sobre fundo dourado.
Conservação: pergaminho de carneiro em bom estado; capa de madeira revestida com couro de cabra marcado com rosetas e florões em policromia apresenta fissuras nas seixas e encaixes; costura com fio de linho; ferragens de prata na lombada e frente apresentam trincas e perda no suporte.
Os mostruários eram uma ajuda imprescindível para todos os ateliers de artistas e se podia recorrer com freqüência a eles na hora de reproduzir animais selvagens, como os leopardos ou leões, que não se conheciam ao vivo.

Antes disso fui plaquinha de argila na Suméria, estela talhada no Egito, esteira de bambu na China, rolo de papiro na Grécia, mas minha preferida ainda é o Bestiarium do séc. XII.
Sei disso graças aos testes de carbono quatorze.
No total tenho aproximadamente 5.000 anos e isso é profundamente exaustivo.
Uma vida tão longa pode matar uma pessoa, mas como não sou pessoa vou ficando com essas marcas estranhas pelas páginas. Nódoas suspeitíssimas, manchas de gordura, orelhas mordidas, anotações a lápis e caneta, grifos, umidades, amarelados pelas bordas, ilustrações mal recoloridas. Fazer o quê? Vai-se.
Há dias em que tenho saudade do bestiário manuscrito e fico medieval, nobre, pesquisado por artistas, repleto de infinita sabedoria, a prata brilhante.
Há outros tantos em que sou só uma brochura, uma apostila de vestibular toda rabiscada e rasgada.
Houve uma vez em que quase fui queimado em praça pública.





Murilo Pagani

sábado, 9 de agosto de 2008

Este menino que está aí ao lado nasceu desenhando, lendo e escrevendo. Nessa ordem.
Digo isso porque das lembranças mais remotas e agradáveis que tenho estão meus momentos imerso em desenhos, leituras e escritas.

Lembro-me de minha mão pequena, muito nitidamente, desenhando muitas coisas. Eu desenhava tudo. Desenhava e coloria. Desenhava e recortava. Desenhava, recortava e colava. Lembro-me de meus olhos buscando as linhas dos objetos e de outros desenhos para reproduzi-las no papel. Lembro-me de enxergar formas nas nuvens, nas manchas de lodo no muro do quintal, nos veios das madeiras dos móveis, nas estampas das cortinas do quarto na hora da sesta. Lembro-me da harmonia nas composições dos bordados da roupa de cama. Lembro-me de buscar a perfeição no traço, a profundidade da imagem, a perspectiva correta. O desenho ajustado à visão. Quando fui ao cinema pela primeira vez eu devia contar aproximadamente sete anos. Minha avó morava a um quarteirão do extinto cine Metrópole e, numa tarde ociosa de domingo, lá fui eu com outros primos tangidos pelas mãos do meu tio assistir Branca de Neve. O impacto dessa tarde alterou definitivamente minha vida. Como aquilo acontecia? Como era feito? Ah, as mãos que se moviam! Os desenhos se moviam, falavam, cantavam, dançavam e chegavam a um final feliz depois de toda a peleja! Aquilo era possível! Walt Disney foi meu primeiro e melhor amigo. Aprendi muito com ele. Ele desenhava e eu copiava à perfeição. Nossa amizade esfriou muitos anos depois quando descobri que havia uma equipe enorme fazendo aqueles desenhos que eu pensava que eram dele. Descobri, assim, que os amigos, mesmo os melhores amigos, mentem.

Lembro-me também de ler. Quando não desenhava, lia. Minha mãe comprava livros e mais livros mesmo antes de eu ir para a escola. Naquela época os livros vinham de porta em porta. Um moço tocava a campainha, entrava e abria uma pasta grande e preta de onde retirava folhetos, catálogos e volumes mostruários dos últimos lançamentos. Essas visitas regulares eram aguardadas com certa ansiedade. Minhas primeiras coleções foram “O Mundo da Criança” (que conservo até hoje e é referência para toda a poesia de minha vida) e “Delta Júnior” (essa, perdida) que me ligou definitivamente às ciências e à curiosidade sobre todas as coisas. Nela dei meus primeiros passos na mitologia para a compreensão dos arquétipos e aprendi que Zeus e Júpiter são um só, mas confundidos pelos homens que são muitos e diferentes uns dos outros. Zeus foi meu segundo melhor amigo (sim, Zeus, porque Zeus era grego e Júpiter era romano e os romanos vieram depois dos gregos e foram eles que começaram a confusão) ele era poderoso, justo, namorador, controlava os raios e morava no alto de uma montanha chamada Olimpo. Foi ele quem me apresentou Phebo e Dionísio. Formamos um bom quarteto. Essa amizade dura até hoje. Amadurecida, sólida, inabalável. Depois vieram outros grandes amigos, os livros sempre foram meus melhores amigos em todos os momentos de minha vida. Posso dizer que salvaram minha existência nesse mundo.

Na seqüência vem à escrita. Escrever era desenhar palavras. Tenho uma lembrança muito viva: estou sentado à mesa da cozinha, um caderno pautado a minha frente, minha mão desenha, com um lápis preto, umas letrinhas miúdas da direita para a esquerda. Aquilo não estava bom. Não sou canhoto e a mão escrevia e manchava o que escrevia. Não sei de onde tirei aquilo, escrever espelhado. Como podia ser? (foi na adolescência que descobri os cadernos de Leonardo da Vinci e ele tornou-se meu ídolo definitivo antes do Batman – mas isso é outra história). Eu lia da esquerda para a direita e escrevia da direita para a esquerda. Dá-lhe exercício. Escrever, escrever, escrever. Poderia ser traumático para uma criança em alfabetização fazer páginas e páginas de cópias escrevendo de um jeito diferente do que sabia para esquecer o jeito diferente que sabia. Eu adorava. Adorava porque copiava as poesias do “Mundo da Criança” e as histórias de Zeus. E depois desenhava. E foi assim que comecei a fazer meus próprios livros. Claro que eu não sabia disso àquela altura e só muito, mas muito mais tarde tive essa lucidez. Para dizer a verdade, acabei de chegar a essa conclusão.

Isso tudo é para compreender porque estou aqui.
Venho me rever.
Venho me reencontrar.
Estou num momento de desenhar, redesenhar, cortar, recortar, colar e "recolar".
Estou num momento de ler e reler.
Estou num momento de escrever e reescrever.
Porque diria meu avô materno (porque o paterno morreu antes de eu nascer):
“- Escreveu não leu, o pau comeu.”





“Memória da Árvore 2005”
Encadernação
Murilo Pagani

Agora já passou...
Passa sempre. Depois de algum tempo, sempre passa.
Um leve arfar. Uma súbita rajada.
Já passou.
É sempre assim.
Efêmero.
Em qualquer lugar.
Não se fixam sob nossos olhares estupefatos.

Certos ventos de agosto.
Certos agostos ultrapassam seus limites e instalam-se em nossas vidas para sempre.
Definitivamente.
Irregulares, instáveis, impossíveis.
Alguns ventos de agosto transformam nossas vidas para sempre.

Estamos lá, onde não deveríamos estar. Persuadidos por essas confidências, segredos sussurrados. Sopros revelados em nossos ouvidos.
Eles vêm e vão.
Nossos cabelos sujeitos ao capricho de seus movimentos.
Um ar de desordem e revolta.


Murilo Pagani

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Passar a limpo.
Há muito tempo não escrevo e preciso tomar fôlego.
Organizar as idéias. Avaliar as mudanças ocorridas nos últimos anos.

Abri as pastas, resgatei textos, desenhos, projetos.
Redescobri muitas coisas que julgava perdidas e outras tantas inevitavelmente desaparecidas.
A vida é assim, perdas e ganhos. Uma conta nem sempre justa (ou justa além da minha compreensão).

Esta “coisa” que é escrever é inexplicável.
Mas tudo está lá.
A escrita está lá. Intocável me aguardando.
Marguerite Duras escreveu certa vez que a escrita é assim, “ ...é um tipo de faculdade que se possui ao lado da personalidade, paralelo a ela, uma outra pessoa que aparece e avança, invisível, dotada de pensamento, cólera, e que por vezes acaba colocando a si mesma em risco de perder a vida.”

Reler é bom.
É possível avaliar o quanto mudei. O quanto amadureci.
É possível ver também como algumas palavras já estavam anunciando o que sou hoje
(a escrita também tem este aspecto profético).Como o texto que segue, no qual descrevo, com um ano de antecedência, a casa em que vivo, o modo que trabalho.


03 de dezembro de 2003.


“Será uma casa grande.
Mas não será possível esquecer-se em nenhum canto fora do todo.
Será arejada.

Talvez com ares provençais.
Não. Não haverá um campo fora. Provavelmente um pequeno jardim voltado para o norte em lugar do quintal.

A luz externa é suavizada por finas cortinas.
É possível ver a luz por todo o tempo.
Mesmo à noite com a casa apagada há uma luminosidade azulada invadindo o espaço.
Há muita sombra por onde a luz avança.
Ela, a luz, avança sem revelar nada, revelando tudo. Todo momento.

Há um silêncio escolhido por você, um silêncio perpétuo.
Você desliza sobre o silêncio, sempre em silêncio.
Você canta em silêncio.
O silêncio é sua necessidade.
Sua possibilidade de regeneração.

Você estará alheio ao que se passa fora da casa, absorvido pela casa.
Você trabalhará em alguma atividade que não exija seu afastamento dessa casa.
Deverá ser longa sua permanência nesse lugar pacificador.

Será sua escolha.
O silêncio e essa luz serão suas escolhas.
Haverá a possibilidade de estar vivo com você mesmo.”
Murilo Pagani

Quase primavera/1999
O Amor sempre esteve presente em minha Vida de forma devastadora.
Sempre num repente. Consumindo-me antes que desse conta. Num movimento turbilhonado em direção ao caos.
Fora de controle.

Talvez seja um defeito genético. Uma desordem na constituição do que sou. Uma falha na programação do DNA. Um engano da natureza. Uma herança ancestral degenerativa.
Não sei ao certo. Não tenho nenhuma certeza quanto a isso. Não tenho nenhuma certeza quanto a nada.

Tudo aconteceu muito cedo. Muito cedo fui arrastado por esses furacões emocionais. Sem controle. Sem que percebesse como. Num momento. Girando desalinhado.

Estou além das convenções.
Estou além das contravenções.

Você está avisado.


Murilo Pagani
 
23/junho/1999
Inverno
quinta-feira

Nesta terra os Invernos são secos.
Excepcionalmente, neste ano, chora.

O ar mais leve e úmido permite-me respirar melhor.
Outros aromas.
Velhos perfumes.
Memórias olfativas.

A chuva corre pelas calhas encharcando o jardim junto ao escoadouro. Pequenas e grandes poças móveis refletem a luz de lanternas e de outras fontes indefinidas. Para além do portão, na rua, o asfalto renova-se de cores e brilhos. Ostra negra nacarada. Toda a visão da paisagem muda. As nuvens baixas rebatem as luzes da cidade num clarão espectral. Um chamamento mágico.

Hoje, a Lua é crescente.
A paisagem é minguante.
No jardim as folhas e as flores tombam sob o peso das águas.
Tombo sob o peso das águas.
Ouço os pingos no lajedo como notas difusas, dissonantes ao piano.

Nesta chuva todos estamos paralisados.
Não há nenhuma alma por perto.
Esta seria uma boa noite para morrer.
Nenhum som além do som da chuva lá fora.
Nenhum som além do som da chuva aqui dentro.
Até o frio perdeu sua intensidade no espanto da chuva.
Chuva que desabou no fim da tarde cinza.
Chuva que se prolonga até estas horas.
A perplexidade dessa chuva.
A perplexidade desta calma que se instalou.

Encharco-me desta chuva.
Submerjo.
Sou poça vazia de reflexos e brilhos e cores.
Sou um vazio de luzes dessa chuva.

São 02h38min...

Murilo Pagani
Isso estava escrito em algum lugar.
Numa página, num caderno, talvez em 1994. Não antes.

“... tudo que quis e desejei e sonhei está lá, ainda fora de alcance.
Porque quis além do que seria possível querer e desejar e sonhar.
Não tive nada com o que realizei.
Tudo que fiz, não fiz.
Dizem que sim.
Pouco provável.
Não assino no final.”

Isso estava lá.
Uma letra que não era a minha.
Era.
Que era uma outra letra que saia de mim.
Desesperada demais.
Alucinada demais.
Ainda está lá, no fundo do que sou.
O que sou.
Continua onde está.
Ainda sendo real.

Murilo Pagani
10/06/1999
Sons do Silêncio

















“Sons do Silêncio 1997"Pastel secoMurilo Pagani

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Os olhos.
Sempre os olhos.
Atraem, recuam, tornam a mostrar-se, recusam, insistem, mistificam, mitificam, atraiçoam, entregam, vasculham, interrogam, desistem, tomam, fogem de si mesmos.
Seus olhos intimidam-me.

É sempre pelos olhos que você me prende.
Os seus são os mais perturbadores, profundos, que já vi.
Sumidouros. Mergulhar é perecer, ceder, sucumbir às possibilidades.
Vislumbrar todo o Universo e também amesquinhar-me no pequeno que você vê. Encontrar-me e perder-me. Desintegrar-me e recompor-me.
Afastar-me de mim enquanto você afasta-se de mim. Sem chance de retorno ao que há de real no conforto da segurança do mundo que você me proporcionou. No mundo em que você está.

Sinceros e capazes de qualquer coisa incluindo a mentira de não me verem a olhá-los.
Seus olhos são os mais sinceros que já vi.
Seus olhos são assassinos.

Não nos vemos mais.
Você se nega.
Eu finjo não ver.
Fecho meus olhos e você não vê que fecho meus olhos.
Você só vê o que acredita ser real. O que criou de visão.
Negarei minha visão dos seus olhos não me vedo partir.
Partindo sem olhar para trás.
Quando olho não quero ver nada. Fora do alcance do seu e do meu foco.
Quero que meus dias apaguem-se uns após os outros na retina de meus olhos, como devem apagar-se, sem dor. Em dor.
Que cada dia perca-se entre o que você vê e o que você nega-se a ver.

Que você não veja nada.
Você já não vê.
Você esquece-se de ver.
Você está cego na visão do seu olhar que partiu.
Ao seu redor, mais nada é visto.
Olhar branco.
Esqueça-se.
Não veja.
Não importa mais.



Murilo Pagani
11/06/1999

Não me lembro do que ocorreu nos últimos quinze dias.
Lembro-me que choveu.

Começou dia treze.
Choveu.

Não creio que mais nada tenha acontecido.
Choveu.

Choveu e mofou tudo ao meu redor.
Talvez eu também tenha mofado.

Domingo choveu menos.
Ontem choveu menos ainda, hoje, um pouco.

Nesses dias eu quase não existi tomado pelo desespero, pela angústia.
Não pude fazer diferente.

Lembro-me que gritei durante o sono.
Gritei de ódio e loucura e vingança.
E porque era preciso.



Murilo Pagani
28/01/1992

Delineado com azul

Delicados arabescos
Desenhos, contornos azuis, cor de olhos
Cor de manhãs, cor de pedras
Da cor da pedra estrangeira.

Delicados nas pontas dos dedos
Pequenos confeitos de açúcar
Delicados desenhos orientais para tomar com chá
Laca chinesa
Depois, os contornos azuis
Uma grande mancha sobre o guardanapo
Flor de seda
Cereja
Gueixa
A mão muito fina de bailarina
Cerimônia do chá
Mãos de porcelana
Sem verniz, com fino cozimento da terracota
Cor de mate, depois, cor de açafrão, arroz seco
Porcelana translúcida.

Delineado com azul
Bem delicado
Lindo
Para fazer chorar


Murilo Pagani
03/11/1992

Olho para você enquanto caminhamos.
Você deve olhar para frente.
Você olha para frente em direção ao fim do caminho.
Você olha para o fim incerto desse caminho na areia.

Olho para você e o mar depois de você.
O recorte do seu perfil que avança rente ao mar desfocado que avança sobre você sem alcançá-lo.

Olho para você enquanto caminhamos.

Olho para você sem alcançá-lo e amando-o.

Murilo Pagani
01/2003
Madrugada


No meio da noite.
No início do sono que não estava lá.
Havia o som de vozes, e risos, e crianças, e mulheres, e homens, e o alarido de uma festa, e um estalo surdo, e taças, e uma batida seca de porta, e uma ária de Puccini.
Abri os olhos no meio do sono no início, que não estava lá, e nada mais estava.
A casa submersa na escuridão azul silenciosa da madrugada.
A casa em silêncio.
Fechei os olhos e tudo voltou, inclusive a ária de Puccini que eu não conhecia e reconheci dias depois num programa de rádio.
Abri os olhos, silêncio.
Levantei-me e caminhei na escuridão azul.
Silêncio dentro e fora.
Fui até a cozinha.
Até a geladeira.
Abri.
A luz desenhou um corredor por onde entrei.
No fim da passagem, uma garrafa de água, uma embalagem de leite, três ovos e num pires branco duas metades de limão.
Duas metades de limão sobre um pires branco sobre a prateleira de grade dentro da caixa branca no fim da passagem de luz na minha frente.
Tomado de horror e desespero corri o caminho de volta para a cama e entrei na festa ao som de “Madame Butterfly”, terceiro ato, cena do “hara-kiri”.
No meio da noite, no início do sono que não estava lá.
Murilo Pagani
19/03/2002
Noturnos

















"Noturnos 1993"
Carvão e bastão litográfico
Murilo Pagani


Sonhos



I
Sonho com crianças muito freqüentemente
Vivas e mortas
Aquelas que brincam, aqui e no céu
Entre o paraíso e o inferno
Acima do bem e do mal
Vivas e mortas
Aquelas embalsamadas, amortalhadas em faixas
Em caixas de papelão e silenciosas
Vivas e mortas

II
Sonho com crianças
Pequenas linhas verticais cortando horizontais “semicurvas”
Um cachorro verde passa
Cor de esmeralda
Meu olhar perdido entre o limite e o limite
Entre a memória e o esquecimento
Pequenas flores pintadas, à mão, nas paredes
Desmaiadas
Lilases
Raminhos de Alecrim.

III
Depois, sonho com crianças
Depois, choro
Depois, rio
E choro depois de rir
Enquanto sonho.

IV
Entre o azul e o verde, a linha de nanquim
Firme e suave, desenha arabescos
Iluminuras medievais
Pecadores devorados por demônios.

V
Isso me dá vontade de chorar um choro de criança
Ainda sei chorar um choro de criança
Choro
Depois, não choro mais e fico quase feliz

VI
Escrevo tudo
Mesmo que não faça sentido
Mesmo que ninguém entenda
Para depois que eu morrer
Para depois que eu enlouquecer
Para que todos saibam e não entendam e admirem-se e maldigam-me e amaldiçoem-me e perdoem-me
Para que me esqueçam em suas mentes
Para que me esqueçam em suas preces
Para que todos chorem quando lembrarem-se.

VII
Ainda choro uma vez mais
Tudo é lastimável
Choro
Pronto, não choro mais
É o suficiente
O sufi ciente.


Murilo Pagani
20/11/1992

terça-feira, 5 de agosto de 2008

A Casa



















Os dedos pousam sobre os lábios.
É preciso não dizer...

Brancos obstinados.
Silêncio branco.
Perdi-me no sonho da casa branca.
Na brancura do piso, das paredes, do teto.
O sonho branco do silêncio sob a luz
Do Sol no jardim.
Passos leves percorrendo os espaços.
Pequenos sons secretos que não ouvimos
Nas casas que não são nossas.

A casa mergulhada nas três horas,
No perfume de sabão de coco e pinho.
Lavada num dia quente de primavera.
Dia lasso.
Luminescente.
Três horas da tarde.
Chopin e Debussy.

O vaso de cristal com copos-de-leite.
Vai longa à tarde na penumbra
Com olor de lírios.
Venezianas de madeiras aromáticas.

Luzes brancas, amarelas, douradas,
Sobre os múltiplos insetos do jardim.
Contos de Grimm.

O sonho do desejo do pensamento
Do esquecimento no Amor.
As fotos mortas dos ancestrais nos passeios,
Nos delírios, nos passados, nos tempos.
Horas mudas.
Poemas de Florbela.
Brancos e amarelos.
Licor de pequi.
Ocres transparentes.
Taça de âmbar.
Sépias obscuros.

É sempre preciso lembrar de ver os girassóis
Na enorme sala da frente com as janelas
Voltadas para o leste.
Nascentes.
Nós não víamos o Sol.
Porcelanas secando sobre o mármore.
açúcar mascavo
chá de jasmim
bolo de frutas
manteiga
macarrão
compota de damasco
latas de biscoito
passas brancas
cravo
queijo
orégão
ameixa
pêssegos
figos
Não esquecer os ovos (duas dúzias).
Na cristaleira a compoteira.
“...goiaba vermelha.
Eu tinha só três anos
E os cabelos negros,
Como os olhos.
Depois a tarde se desfez em estilhaços.
Muitos brancos no piso de ladrilhos.”

Um gato azul salta sobre a janela.
Água de alfazema
Alecrim
Mangerona
Elevante
Maceração de ervas.
A bacia de bronze.
O espelho de prata.
A chave de cobre.
O segredo dos sonhos.
Adormecimento.
Predições do futuro para lembrar, para esquecer.

O silêncio na tarde.
A vertigem no voo sobre si mesmo.
Viagem de esquecimento ao vir a ser.
O dragão de jaspe flutua na hora.
Flores púrpuras.
Silfos encantados.
Depois os espíritos dos elementares
Arfaram levemente palavras secretas.
Apenas isso.
As mãos estendidas em bênçãos.
Orações pagãs.
Sortilégios.
As almas encantadas passaram.

Brisa.
O tempo parou para ouvir.
Farfalhar de folhas.
Madressilva.
Primeiro eu caminhava,
Depois não.
Os corredores, os quartos,
Interlúdio.
Tarde morna, brisa morna, água morna.
Banheira de louça, sabonete.
O banho transborda pelo piso de pastilhas
Avança à porta, ao corredor, aos quartos,
Às salas, ao pátio.
A casa banhada, perfumada por ervas:
Capim cheiroso
Angélica
Colônia
Flor do campo
Frescor de banho na tarde morna.
Reflexos aquáticos.

Lençóis de algodão,
Lavanda.
Travesseiros de macela,
Bordados.
Caixa de costura,
Pau-marfim.
Tecedura dos mistérios familiares.
Tramas de crochê
Contadas ponto a ponto.
Ponto a ponto.
Penélope.
Xales de renda perfumados com raízes
Na gaveta de cima.
Cômoda em marchetaria.
Jacarandá
Embaúba
Cedro
Ébano.
Xales de Tonquim.
Sândalo branco.
Rendas de guipure.
Velhas tias de estirpe.
Rainha Sophia.
Rainha Catharina.
Há um dragão grená
Sobre a mesinha de cabeceira.
Pequena Salamandra
Jaspe sanguíneo.
O duplo sentido da luz.
Âmbar gris.
A Obra em Branco.
Nossa Senhora das Graças.
O sacrilégio do amor celeste.
Ambrosia e néctar.
Zeus e Ganimedes.
Phebo e Jascinto.
Ícones de marfim.
"A Casa 1992//2000"
Nanquim
Murilo Pagani

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...